terça-feira, 23 de maio de 2017

1917 - Quatro notas no centenário da Revolução Bolchevique


"A revolução bolchevique mudou radicalmente o destino da Rússia e do mundo. Cinquenta anos depois da publicação de O Capital, a Rússia convertia-se numa referência global, e a revolução levou o país a ser uma das duas superpotências mundiais."


 Higinio Polo (*)    

Recordar a revolução bolchevique não é um exercício de nostalgia do passado mas um tempo de aposta no futuro, no socialismo e no carácter social que devem ter as forças produtivas. A revolução de 1917 foi o ponto de partida das novas lutas revolucionárias no mundo, e a sua contribuição para a construção do socialismo não desapareceu, porque o capitalismo não pode resolver os problemas da humanidade. Aqui reside o valor da revolução bolchevique e da visão de Lénine.

1. 1917 é uma data germinal, que pôs ante os olhos dos trabalhadores do mundo a certeza de que acabar com o capitalismo e construir o socialismo é possível. Nessa data termina o velho mundo burguês que tinha ensanguentado o planeta no século XIX e inicia-se uma nova era, onde a união operária e socialista criada pela revolução bolchevique enfrentará o projecto de modernidade capitalista que foi o nazismo. A revolução bolchevique mudou radicalmente o destino da Rússia e do mundo. Cinquenta anos depois da publicação de O Capital, a Rússia convertia-se numa referência global, e a revolução levou o país a ser uma das duas superpotências mundiais.

O empenho da direita liberal em rebaixar a revolução bolchevique a uma espécie de «golpe de Estado» não tem qualquer credibilidade, para além da utilidade propagandística para a direita, nem resiste à prova dos factos: a revolução de Outubro contou com um impressionante apoio popular que, começando em Petrogrado, percorreu toda a geografia russa, num clima revolucionário onde milhões de trabalhadores, soldados e camponeses se organizavam e se reconheciam nos sovietes. Essa revolução pôs a igualdade entre os seres humanos no centro dos objectivos políticos e das questões universais, pôs mãos à obra na construção de uma sociedade sem classes, no tempo em que eram visíveis as multidões operárias nos combates políticos do século XX.

Também não foi um banho de sangue: esquece-se com frequência, mas a revolução bolchevique apenas causou seis mortos, e foi a intervenção imperialista em ajuda dos restos do czarismo que fez rebentar a guerra civil posterior que causou uma mortandade que superou a da grande guerra. 

Se de 1914 a 1917 a Rússia sofreu entre dois e quatro milhões de mortos, aquela agressão das potências capitalistas à Rússia revolucionária, depois do fim da guerra, causou mais oito milhões de mortos, por causa dos combates, da destruição das colheitas e da fome. Sobrepor-se a essa situação, reconstruir o país, foi uma tarefa de titãs, mas não seria para a Rússia a pior prova do século XX.

A revolução sofreu um ataque que nenhum outro país no século XX teve que suportar: do ataque dessas treze potências capitalistas (desde os Estados Unidos até à França, a Checoslováquia, a Grã-Bretanha, a Polónia, o Japão) que apoiaram os brancos czaristas na «guerra civil» dos anos vinte, passou-se às ameaças latentes de Londres e de Paris e, depois ao ataque da Alemanha nazi que abriu a Segunda Guerra Mundial onde a URSS perdeu vinte e sete milhões de cidadãos.

É costume dar pouca atenção ao que implicou administrar um país que tinha perdido quase quarenta milhões de pessoas num período de trinta anos, e pô-la à cabeça do desenvolvimento no mundo posterior à guerra de Hitler. Além disso, no pós-guerra, quando quase não se tinha iniciado a reconstrução, teve logo que enfrentar a pressão ocidental derivada da doutrina Truman que deu início à guerra-fria.

Depois do «comunismo de guerra» e da NEP, Outubro começou a planificação estatal da economia, impugnando o monopólio burguês que tinha conquistado todos os países. No plano interno, estabeleceu-se a jornada laboral de oito horas, que ficaria posteriormente reduzida a sete horas, asseguraram-se as leis para a igualdade entre homens e mulheres; eliminou-se o analfabetismo; criou-se o primeiro sistema sanitário público e gratuito do mundo, a reforma aos sessenta anos para homens e mulheres, um sistema universal de pensões, garantiram-se por lei vinte meses de baixa por maternidade, e a segurança no trabalho fez com que os trabalhadores não temessem o desemprego, ao mesmo tempo que dispunham de casas cedidas pelo Estado, e tantas conquistas sociais que aqui não podem ser detalhadas. 

A União Soviética pôs sempre a solidariedade entre os povos, o internacionalismo, como um dos seus fundamentos, e nunca teve uma política agressiva contra o Ocidente. Essa mentira, repetida e amplificada pela propaganda, teve como objectivo estender o medo entre as populações dos países capitalistas e disciplinar os aliados europeus dos Estados Unidos à volta da NATO, o novo instrumento de intervenção imperialista.

Outubro converteu um país atrasado numa potência industrial e científica em poucos anos, ainda que acompanhada de uma dura repressão de Estaline. O primeiro estado socialista da história teve como conceitos definitórios o trabalho e a função determinante da classe operária na sociedade; a amizade e a solidariedade entre os povos, o internacionalismo, a justiça social, a cultura e o progresso científico, a rejeição do nacionalismo e da opressão. 

Houve também traços negativos: a dura repressão política (filha do temor nascido da guerra civil, do acosso militar posterior, da agressão nazi e, secundariamente, das lutas internas de poder), o medo ante os órgãos do Estado, as evidentes insuficiências democráticas, e a ineficácia ligada à burocratização e aos focos de corrupção, bem como o aparecimento de sinais de irresponsabilidade e à negligência no trabalho que, não obstante, não invalidam como pretende a direita o conjunto da experiência soviética. 

Os laboratórios ideológicos do liberalismo continuam a colocar a ênfase na repressão, ainda que aludam aos mortos causados pela revolução bolchevique e o estado socialista, costumam ocultar a enorme mortandade causada pelo capitalismo tanto na expansão colonial do século XIX, como ao longo do século XX. E as matanças não pararam com o século XXI: aí está o caos do Médio Oriente provocado pelas agressões e guerras dirigidas pelos Estados Unidos.

O mundo não é melhor sem a URSS: nem sequer a ameaça atómica desapareceu, apesar dos supostos «dividendos da paz» que o neoliberalismo prometeu. Nem sequer se reduziram os perigos da guerra: de acordo como o SIPRI [1], o comércio mundial de armas está no ponto mais quente desde o fim da guerra-fria, e o caos criado pelos Estados Unidos no Médio Oriente é uma causa evidente disso, juntamente com a desconfiança pelos propósitos de Washington. 

Desde logo, o mundo não é melhor para os habitantes do antigo espaço soviético, como o evidenciam todas as sondagens, apesar de um quarto de século de veneno nacionalista ter feito aflorar os traços mais desprezíveis do ser humano em muitos territórios. Como na Ucrânia, onde os grupos paramilitares fascistas percorrem desafiantes as ruas.

2. O caminho aberto por Outubro de 1917 termina abruptamente quando se arreou a bandeira no último dia do triste ano de 1991, enquanto Yeltsin e os seus comparsas se emborrachavam nas estâncias do Kremlin. A reforma iniciada por Gorbatchov, saudada com entusiasmo porque prometia a renovação e o «retorno a Lenine», derivou numa desordem económica e organizativa que, longe de resolver os problemas da União Soviética, os agudizou, fazendo aparecer a escassez e alimentando nacionalismos destruidores e reaccionários.

Depois das vacilações e dos graves erros de Gorbatchov, foram os próprios dirigentes do país, com Yeltsin á cabeça, juntamente com a ambição de personagens como o ucraniano Leonid Kravchuk, o bielorrusso Stanislav Shushkiévich, seguidos pelo uzbeque Islom Karimov, o cazaque Nursultán Nazarbáyev, e o azeri Gueidar Aliev, entre outros, que se lançaram na destruição do país. O Tratado de Belavezha, subscrito por Yeltsin, Kravchuk e Shushkiévich em 8 de Dezembro de 1991, violou a Constituição soviética e desrespeitou a vontade da população, que se tinha pronunciado em referendo de Março de 1991 rejeitando a divisão da URSS, e impôs a destruição do país, oculta com a roupagem da CEI, uma ficção apressadamente criada para encobrir o medo ao vazio. Destruíram também o COMECON e o Pacto de Varsóvia.

A destruição não era uma inevitabilidade, como continua a manter a doutrina liberal. As reformas necessárias na URSS eram possíveis, mas o projecto gorbachoviano apenas conseguiu gerar o descontentamento e o caos. A paralisia política de Gorbatchov na sua etapa final e o estímulo à divisão impulsionado por Yeltsin, Kratchuk e Susshkiévich só podem qualificar-se como traição ao seu próprio país: a retórica nacionalista chegou depois, com o objectivo de consolidar o seu próprio poder em todas as repúblicas órfãs da URSS.

É certo que já tinham aparecido algumas reclamações nacionalistas na Arménia e no Báltico, ainda que essas tensões nacionalistas na Arménia e nas três repúblicas do Báltico tivessem sido estimuladas por dirigentes como Alexander Yakovlev, enquanto no Cáucaso a incompetência governamental permitiu também o crescimento nacionalista: na Geórgia, o conservador e ditatorial Zviad Gamsajurdia pôde alcançar a presidência, graças à negligência e à falta de iniciativa de Edvard Shevardnadze. 

No Azerbaijão, o traidor e trânsfuga Gueidar Aliev apressou-se a apoderar-se de todos os recursos do poder. Na Arménia, onde existia uma forte consciência nacional, rebentou uma dinâmica de guerra com o Azerbaijão depois da escalada de tensão que teve a sua origem na matança de Sumgaít, onde bandos de azeris atacaram a população arménia, assassinando dezenas de pessoas, numa confusa provocação de que ainda hoje se desconhecem os seus inspiradores. 

A guerra civil entre arménios e azeris fez o resto: durou três anos, e as feridas ainda não sararam passados que foram vinte e cinco anos. Nas cinco repúblicas soviéticas da Ásia central, onde não havia reclamações nacionalistas, os dirigentes apressaram-se a proclamar a independência depois de se conjurarem para a assinatura do Tratado de Belavezha. No seu conjunto, as guerras e conflitos que então se iniciaram (na Moldávia e na Chechénia, em Nagorno-Karabaj e na Ossétia, no Cáucaso e na Ásia central), causaram a morte de centenas de milhares de pessoas.

Os Estados Unidos olharam com bonomia as ditaduras criadas em muitas das antigas repúblicas soviéticas, fecharam os olhos à corrupção, à repressão política e aos traços grotescos dos novos regimes, que vão desde a corrida ao dinheiro das filhas de Karimov, até à nomeação de Dariga Nazarbayeva, filha do ditador Nazarbayev, como vice-primeira ministro do Cazaquistão; passando pelo filho de Aliev, Ilham Aliev, convertido em novo ditador que, por sua vez, acaba de nomear sua mulher, Mehribian Alieva, vice-presidente do país.

À incompetência e ao oportunismo dos convertidos e trânsfugas que iniciaram a fuga em frente na busca da consolidação do seu próprio poder, juntam-se muitas provocações, a maioria das quais continuam sem clarificação. Conhecemos algumas, como o massacre da torre da televisão em Vilna, capital lituana, em Janeiro de 1991: ali, ocorreu uma matança de catorze pessoas que comoveu o mundo, enquanto as chancelarias e a imprensa internacional acusavam o exército e o governo soviéticos. 

No entanto, sabemo-lo agora, foi um massacre provocado pelos nacionalistas de Sajudis [2] e pelo próprio governo nacionalista lituano, cujos pistoleiros dispararam contra os seus próprios seguidores, para acusar a União Soviética e precipitar a independência. Tudo isto foi reconhecido anos depois por Audrius Butkevicius, então chefe militar do governo lituano. Não foi a primeira nem seria a última mentira: em 2008, quando o governo georgiano de Míjeil Saakashvili (um oculto agente da CIA que confiava que a sua aventura seria amparada por Washington e a NATO) lança uma provocadora ofensiva militar sobre a Ossétia do sul, acontecimento que originou uma breve guerra com a Rússia, noticiada na CNN acompanhada de imagens de tanques georgianos como se fossem russos, ao mesmo tempo que a destruição causada pelos bombardeamentos da Geórgia na Ossétia era apresentada como se fossem os efeitos de ataques russos na cidade de Gori, onde se passou muito mais do que notícias desvirtuadas. 

Depois de tudo, esses partidários da mentira têm consumados professores em Washington, um dos quais foi o secretário de Estado Colin Powell que, em 5 de Fevereiro de 2003, chegou a agitar um tubo que dizia poder conter antrax, perante os olhares atónitos dos membros do Conselho de Segurança; a quem também mostrou diapositivos que, segundo o governo norte-americano de Bush, demonstravam que o Iraque tinha «armas de destruição massiva». Era tudo mentira.

É uso recorrer-se à acusação de «teorias conspiratórias da história» para desactivar algumas nefastas evidências. No entanto, as coisas são mais simples e, ao mesmo tempo, mais complexas: todas as potências internacionais defendem os seus interesses e os seus projectos e utilizam para isso todo o tipo de recursos, da diplomacia à pressão política. Muitas recorrem à mentira, às provocações e à organização de grupos terroristas e, nesse tipo de acções, os Estados Unidos e os seus aliados dão cartas.

Sabemos hoje, por exemplo, que os serviços secretos norte-americanos trabalharam desde Bacu e com a cumplicidade de Aliev para incendiar a Chechénia e criar novos focos de conflito no Cáucaso, e não renunciaram a continuar futuramente a jogar essa cartada. Washington não só conserva em seu poder a capacidade de reactivar conflitos no sul da Rússia, como move os seus peões na Ásia central para dificultar um hipotético reagrupamento das velhas repúblicas soviéticas em torno de Moscovo. Por vezes, basta chegar lume à mecha, e as guerras tomam logo dinâmica própria.

Os problemas que a Rússia enfrentava no final da década de oitenta (devido à incompetência dos governos de Gorbatchov, que os agravaram com projectos e iniciativas que criaram graves disfunções na economia soviética) eram uma brincadeira se comparados com o desastre apocalíptico que chegou na década de noventa, sob a direcção de Yeltsin, Chubais, Gaidar e Chernomirdin (assessorados pelo governo norte-americano, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e peritos estado-unidenses), que destruiu a economia, colonizou a estrutura do Estado e, de acordo com diversas investigações, provocou uma atroz mortandade entre a população soviética: só na Rússia (que contava com metade dos habitantes da URSS), a investigação de David Stucker, da Universidade de Oxford, de Lawrence King da Universidade de Cambridge e Martin McKee da London School of Hygiene and Tropical Medicine, publicada pela revista médica Lancet, chegou á conclusão que a terapia de choque de Yeltsin tinha causado um milhão de mortos. 

Aquele delirante programa foi possível graças ao golpe de estado de 1993, que causou uma matança em Moscovo e noutras cidades, e que contou com o apoio do Ocidente, que amparou uma espécie de via militar para o capitalismo. A destruição da URSS permitiu às novas elites surgidas da confusão gorbatchoviana e aos seus comparsas apoderarem-se das propriedades públicas e garantir o seu poder em todas as repúblicas.

O golpe de Estado de Yeltsin em 1993, abençoado por Clinton, Major, Khol e Mitterrand, numa irresponsável e delirante operação, levou quase à destruição da própria Rússia como afirma a própria Helène Carrère d’Encausse. Na opinião do Partido Comunista russo, vinte e cinco anos depois do desaparecimento da URSS, as suas consequências continuam por superar. A privatização da economia, levada a cabo por delinquentes, destruiu milhares de empresas e aglomerados industriais, tornou possível que a maior parte da riqueza soviética, quer na Rússia quer nas outras repúblicas, esteja hoje em mãos privadas.

3. Putin representa hoje a nova direita conservadora russa, patriota, de complexa significação: por um lado utiliza os orçamentos públicos e os recursos do país para o seu próprio enriquecimento, criando uma oligarquia obscenamente rica, ao mesmo tempo que se degradam as condições de trabalho, o direito à habitação, à saúde e à educação dos cidadãos; por outro, deteve a destruição do país e iniciou a sua reconstrução, afastando o fantasma da destruição da própria Rússia (objectivo a que não renunciaram os estrategos do Pentágono e dos serviços secretos norte-americanos). 

Na política interna, Putin não teve dúvidas em aplicar programas neoliberais que prejudicam os trabalhadores e a maioria da população. E ainda que não desistam de privatizar, mantêm importantes áreas de propriedade públicas: o Partido Comunista russo criticava em Fevereiro de 2017 a tentativa do governo de Médvedev de privatizar quase oitocentas empresas de propriedade pública. Putin é um exemplo mais desses dirigentes que fizeram da política e do exercício do poder o centro da sua existência, personagens que se adaptam a qualquer época e que se sustentam em complexos equilíbrios sempre que isso lhes permita manter-se no poder.

Se bem que a sua política externa procure recuperar o protagonismo perdido, não está no centro das suas preocupações combater o imperialismo norte-americano, embora esteja consciente que este, por trás das sangrentas aventuras de Washington no Afeganistão, no Iraque e na Líbia e a expansão da NATO, ameaça as fronteiras da própria Rússia, e enfrente os propósitos imperialistas norte-americanos na Síria, ao mesmo tempo que alinhava uma aliança estratégica com a China, cujo objectivo é limitar o poder estado-unidense no mundo. 

Uma parte da esquerda pouco prudente, que se alimenta de esquemáticas análises sem matizes, chegou a equiparar a política externa russa com a norte-americana, aludindo a um suposto imperialismo comum, ainda que em confronto, esquecendo que enquanto Washington tem mais de setecentas bases militares nuns cento e vinte países do planeta, Moscovo só tem uma base no exterior. Outra parte confunde Putin com um dirigente comunista.

O partido de Putin, Rússia Unida, navega entre a complexidade e a ambiguidade: o seu nacionalismo leva-o a assumir com orgulho a condição de superpotência da URSS mas, ao mesmo tempo, rejeita que o desenvolvimento e o fortalecimento do país fosse consequência da revolução bolchevique de 1917 e do socialismo. 

Enquanto Putin continua a trabalhar para limitar a influência comunista no país (as suas agências de inteligência criaram nos últimos anos três partidos «comunistas» para atacar em força o Partido Comunista dirigido Guennadi Ziuganóv), tem muito cuidado para não atacar o frontalmente o socialismo soviético (ao contrário do que acontecia nos anos de Yeltsin), como conhecedor que é das simpatias que o comunismo continua a conservar entre os russos. 

A revolução bolchevique e o socialismo, a par dos traços negativos que desenvolveu, continuam a ser defendidos pelos trabalhadores: a última sondagem realizada por Levada Center entre a população russa, no final de Janeiro de 1917, revela que a maioria dos cidadãos tem boa opinião de Brejnev e Estaline e, ainda que 22% rejeite a figura do georgiano, apenas 9% têm má opinião do Brejnev, e o apoio ao socialismo é amplamente maioritário, até ao ponto de quererem o regresso da União Soviética. Contraditoriamente, também Putin mantém uma considerável aprovação que, indubitavelmente, é devida ao facto de ele ter acabado com a criminalidade mafiosa nas ruas durante os anos de Yeltsin, e ao seu novo protagonismo que traz peso internacional ao país.

Putin navega entre duas águas: recuperou o hino soviético, o desfile da vitória sobre o nazismo, mantém a bandeira vermelha com a foice e o martelo no exército, enquanto tenta desenvolver uma nova imagem russa, simbolizada na bandeira tricolor, tudo isto sem esquecer que, agora, está previsto dedicar uma rua e erigir um monumento a Fidel Castro; mas também assiste aos ritos da igreja ortodoxa, mantém excelentes relações com o patriarca Kiril, e viu com agrado o município de Moscovo erigir uma estátua ao rival de Napoleão, o czar Alexandre I, muito perto do jardim das muralhas do Kremlin, onde são recordadas as cidades heróicas da resistência contra os nazis durante a Segunda Guerra Mundial; bem como um monumento, também junto ao Kremlin, dedicado ao príncipe Vladimir, como «reunificador das terras russas», gestos, todos eles, dirigidos ao enaltecimento do orgulho nacional. 

A nova Rússia não pôde recuperar toda a influência que a URSS exerceu no plano internacional e, ainda que desde a intervenção de Putin na Conferência de Munique de 2007 o seu governo tenha levantado a voz para denunciar a expansão norte-americana para as suas fronteiras, não conseguiu evitar o golpe de Estado em Kiev, nem o perigoso foco de guerra de Donbáss nas suas fronteiras, nem a chegada das forças da NATO à Ucrânia: a recuperação da Crimeia é apenas um prémio de consolação, apesar de ter fortalecido o seu prestígio entre os russos. Ao mesmo tempo, Putin está consciente que o potencial militar russo não é comparável ao soviético, mas conserva uma importante parte do seu poder de dissuasão, graças ao arsenal atómico herdado da URSS, que o governo de Médvedev está a renovar.

São diversos os traços que caracterizam as outras antigas repúblicas soviéticas, e vão desde a existência de uma suposta democracia na Estónia, Letónia e Lituânia, que convivem com a marginalização e a falta de respeito pelos direitos cívicos dos russos ali residentes, a complacência para com os nacionalismos sectários, os grupos nostálgicos do nazismo, até às satrapias do Turquemenistão, Uzbequistão e Cazaquistão, já para não falar da extrema-direita que se apoderou do governo da Ucrânia. Por sua vez, momentaneamente os antigos países socialistas europeus estão convertidos em redutos da direita nacionalista e da ultradireita: da Polónia à Hungria passando pela Roménia, Bulgária e, inclusive a República Checa ou a Eslováquia apresentam inquietantes traços xenófobos, de extrema-direita ou mesmo fascistas.

A União Soviética foi uma referência e um incentivo para o movimento operário mundial, e o ataque às conquistas sociais foi possível em muitas regiões do planeta, também pelo desaparecimento da URSS.

 Ainda que já se tivesse iniciado o ataque sistemático do neoliberalismo contra os direitos dos trabalhadores, a ausência a URSS estimulou a revanche: o incremento da exploração, a redução dos salários, o aumento da idade da reforma, a perda de direitos na saúde, na educação, a precarização do trabalho, o aumento arbitrário dos horários laborais, a perda de pensões foi a mão de um ambicioso projecto de dominação que os Estados Unidos lançaram em muitas regiões do planeta, desde as guerras na Jugoslávia até à criação do Kosovo, as guerras no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria e o golpe-de-estado na Ucrânia, isto para citar apenas os mais graves, tal como o acantonamento de novas tropas da NATO e a deslocação do seu escudo antimísseis, bem como o seu programa de contenção da China, agora considerado o novo inimigo global. 

Esse projecto de dominação, que Washington iniciou depois do desaparecimento da URSS, viu-se entorpecido por dois fenómenos imprevistos pelos seus centros de investigação e pela sua diplomacia: o impressionante fortalecimento chinês depois da sua entrada na OMC, e o novo papel exercido pela Rússia que, com Putin, deixou para trás a subordinação política dos anos de Yeltsin e Kozirev.

4. Uma parte da esquerda social-democrata ou esquerdista celebrou como uma vitória o desaparecimento da União Soviética, evidenciando uma enorme miopia política e uma falta de perspectiva estratégica, que a catástrofe humana com os milhões de mortos causados pelas reformas capitalistas em todo o antigo bloco socialista europeu, não os fez rever. Tampouco os retrocessos posteriores dos direitos sociais no mundo ocidental os levaram a interrogar-se sobre os efeitos da ausência soviética.

A destruição da URSS debilitou os partidos comunistas em todo o mundo, ainda que não deva perder-se de vista que a maior organização política do mundo tem essa ideologia: o Partido Comunista Chinês, e que existem relevantes partidos da mesma tendência em todos os continentes que se proclamam filhos da revolução de Outubro. Ao mesmo tempo, para sua surpresa, danificou os partidos social-democratas, cuja cumplicidade com as políticas neoliberais (da França à Grécia, da Espanha à Itália, da Venezuela à Grã-Bretanha) do último quarto de século os levou a uma crise que pode ser terminal.

5. Nestes vinte e cinco anos transcorridos desde o eclipse da URSS, as propostas e a acção do governo dos defensores do capitalismo basearam-se no aniquilamento do chamado Estado de Bem-Estar, nos despedimentos arbitrários de trabalhadores, na precarização do trabalho, na redução unilateral dos salários, no ataque à instrução pública, na tentativa de eliminação dos sistemas públicos de saúde e de pensões pagas pelo Estado; e a esquerda e os sindicatos foram incapazes (apesar das muito honrosas lutas e resistências) de fazer frente a esse programa de devastação da dignidade humana e da confiança num mundo mais justo.

Os laboratórios ideológicos do neoliberalismo tentaram destruir o orgulho e a consciência operária, marcar a fogo os trabalhadores, toscos e grosseiros habitantes da periferia do sistema; pretenderam enraizar a noção de que as ideias de esquerda, de socialismo, de comunismo são escabrosas recordações de um mundo que morreu, e que a modernidade reside na adaptação servil, no consumo do lixo ideológico escarrado por todos os écrans utilizados pelo sistema capitalista e todos os outros mecanismos de controlo da informação. 

Essa operação fez mossa na esquerda, que viu como se reduziam os seus militantes, como se apagava a memória histórica do movimento operário, como se declaravam obsoletos o marxismo e a luta de classes, se acusava a esquerda impotente para se actualizar, inclusive se declarava desaparecido o mundo operário de ontem (portanto a necessidade de sindicatos e partidos de esquerda), apesar da evidência de existirem mais trabalhadores fabris no mundo que noutro qualquer momento da história.

Os problemas da esquerda já vêm de longe. Achille Ochetto, o artífice da volta della Bolognina que liquidou o Partido Comunista Italiano, afirmou então, com a ardilosa retórica dos que se atribuem sempre o novo para arrojarem os seus opositores para o inferno das ideias mortas da história, o poço escuro do passado obsoleto: «Não temos de continuar pelos velhos caminhos, mas inventar os novos para unificar as forças do progresso». 

Na realidade, limitaram-se a mudar para os velhos caminhos da submissão ao capitalismo que desembocaram nesse triste e impotente Partido Democrático. Desde então, na Europa apareceram partidos e movimentos que, de maneira confusa, pretendem articular as energias da esquerda, da oposição: desde o Syriza ao Podemos, desde o Movimento 5 Estrelas ao Die Linke, desde o efémero Partido Anticapitalista Francês aos verdes (ontem antagonistas, e hoje integrados), todas essas forças se movem no campo da moderação e do medo: são filhos da derrota, e revelam-se incapazes de romper o cordão umbilical com o capitalismo e, com excepção do Die Linke, de propor um horizonte socialista.

Uma opção é (nunca esquecendo o imprescindível trabalho político nas fábricas e nas empresas) articular amplos blocos sociais para lutarem nas ruas, nas eleições e nos parlamentos, outra muito diferente é apostar na criação de partidos vagamente de esquerda que renunciem a combater pelo socialismo. Porque a miragem que, novamente, se agita perante o rosto dos trabalhadores e dos excluídos, é a de a de voltar a construir uma esquerda tímida, dócil, que renuncie ao socialismo, resignada perante o poder capitalista. Além disso, essa nova e limitada esquerda revela-se incapaz de atrair os trabalhadores que, num mundo cheio de incertezas, sucumbem com frequência aos populismos demagógicos que articulam o discurso da extrema-direita.

Há uma evidência que se impõe: para o conjunto da humanidade, o capitalismo foi incapaz de resolver os seus problemas, os de acumulação e de expansão depredadora e sem limites que pôs o planeta á beira da catástrofe. No entanto, o rebentar da crise criou miragens para uma assinalável parte da população e dos trabalhadores: legiões de cidadãos esperam que a pior parte das dentadas das crises os não afecte, e reagem politicamente perante o medo de perder tudo, perante as novas migrações causadas pelas guerras coloniais, refugiando-se no ninho de víboras da nova extrema-direita, que lhes oferece um regresso à velha segurança, aos estados nacionais, a ilusórias fortalezas onde resistem à chegada de outros trabalhadores mais pobres e a refugiados das guerras. 

Além disso, essa extrema-direita lança as suas propostas (de Le Pen a Trump, de Ksczsiski a Orbán, de Petry a Wilders), por vezes envolvidas numa retórica que, sem hipocrisia, chega inclusive a parecer «progressista», e reclamam protecção para as indústrias nacionais, olhando-se no espelho dos anos trinta do século XX, sem verem que aquele programa trouxe duras lutas comerciais, novas aventuras coloniais e, por fim, a guerra. As instituições europeias, com a social-democracia e esses novos e vagos movimentos de esquerda revelam-se impotentes para fazerem frente à extrema-direita, mas face ao perigo do novo fascismo é urgente opor um bloco social, como o que levantaram os partidos comunistas entre as duas guerras em muitos países da Europa.

Não é possível reformar o capitalismo, e as opções que se empenham em passar para caminhos dessa natureza, que recuperam velhos esquemas social-democratas estão no caminho do fracasso. A direita pretende, em todos os países, fazer retroceder os direitos dos trabalhadores, privatizar as propriedades públicas, acabar com a saúde e a educação gratuitas, converter os reformados em reféns das companhias de seguros e entidades financeiras. E isso não se combate com tímidas ideias reformistas.

O drama da esquerda, bem presente na Europa, mas também noutros continentes, é que, apesar de estar consciente da impossibilidade da reforma do capitalismo, fica paralisada para propor vias socialistas, devido à pressão do poder e aos meios de comunicação. A democracia representativa burguesa e o parlamentarismo mostraram os seus limites, e o movimento operário e os novos movimentos sociais devem recuperar a acção nas fábricas e incrementar a presença dos trabalhadores na luta das ruas.

A história não é como a esperávamos, mas recordar a revolução bolchevique não é um exercício de nostalgia do passado, mas um tempo de aposta no futuro, o socialismo e o carácter social que devem ter as forças produtivas devem estar no centro das preocupações da esquerda. O novo horizonte dos filhos da revolução bolchevique deve desenvolver, juntamente com a propriedade pública dos meios de produção, quatro aspectos essenciais: a libertação da mulher, a ampliação da democracia e da liberdade, uma justa distribuição do trabalho e do bem-estar no mundo e a catástrofe ecológica.

A revolução bolchevique de 1917 foi o ponto de partida das novas lutas revolucionárias no mundo, e a sua contribuição para a construção do socialismo não desapareceu, porque o capitalismo não pode resolver os problemas da humanidade, e aqui reside o valor da revolução bolchevique e da visão de Lenine. Essa revolução, mil vezes enterrada, acusada de carências democráticas e libertárias, criadora do país símbolo da vitória contra o nazismo que o fez vítima da matança mais cruel da história; artífice do único país que durante décadas enfrentou solitário o imperialismo ocidental; estímulo de novas revoluções no mundo e sustentáculo da luta anticolonial, continua a fornecer o fermento da revolta, porque, apesar de tudo, o legado bolchevique continua vivo, e a escolha continua a ser entre socialismo ou barbárie.

Notas do Tradutor:
[1] Trata-se da sigla inglesa do Stockolm International Peace Research Institute
[2] Movimento Reformador Lituano, que dirigiu os acontecimentos que levaram à independência da Lituânia, e que mais tarde se transformou em partido político. Dissolveu-se depois de 1993, dando origem a outros partidos reaccionários.
[3] O «giro della Bolignina», considerado o primeiro passo para a passagem do Partido Comunista Italiano (partido revisionista dito eurocomunista) no Partido Democrático, foi apresentado por Achille Ochetto, de surpresa, no 45º aniversário da batalha da Porta Lame em 12 de Novembro de 1989.

(*) Higino Polo, publicista e historiador é colaborador habitual de El Viejo Topo

Este artigo foi publicado em nº 351 (Abril de 2017) de El Viejo Topo e reproduzido em http://www.lahaine.org/mundo.php/1917-cuatro-notas-en-el

Tradução de José Paulo Gascão

(Com o diario.info)

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