quinta-feira, 23 de novembro de 2017

"Reflexos Cotidianos" (A longa trajetória de um jornalista mineiro)

                                                                             
José Carlos Alexandre                                                     

Certo dia, no início dos anos 60, resolvo entrar na sede dos Diários Associados, na Rua Goiás. Creio que para pedir a publicação de uma nota no Diário da Tarde sobre manifestação que faríamos (éramos ativos participantes do que hoje chamam pomposamente de "movimentos sociais"). Estava filiado no PSB mas militava no PCB, que tinha sido cassado em 1947 e  só voltou à legalidade em 1985, no governo José Sarney.

Não sei se fui atendido ou não. Só sei que pouco depois subi novamente as mesmas escadas e só desci 44 anos depois, aí noutro prédio, na Avenida Getúlio Vargas...

Com o fechamento do DT, numa ação talvez intempestiva por parte de sua direção.

Uma explicação: como sindicalista, trabalhava no jornal "Novos Rumos".

Um semanário do PCB , que tinha Sucursal pertinho da Praça Sete. Ele só deixou de circular dia 1º de abril de 1964, quando foi fechado pela polícia política...

Um belo dia um importante dirigente partidário conselhou que fosse para o Diário da Tarde cobrir sindicalismo, em lugar do cirurgião-dentista do então Centro dos "chauffeurs" , que o fazia à noite, para o DT, e desejava sair. 

E eis-me trabalhando no  "jornal do Chateaubriand", como se dizia na época... (O "Dr. Assis" era minha leitura desde menino, quando buscava o "Estado de Minas"  aos domingos numa revistaria, em Nova Lima para meu pai ...)

O tempo foi passando, assim como também minhas funções: de "repórter auxiliar" (seja lá for o que significava à época), a repórter.

Depois Chefe de Reportagem, noticiarista, redator, editor de Cidades, editor de Internacional.

Sem se falar num longo período como editor da capa do Caderno 2, embora extraoficialmente, já que o caderno possuía editora...

Uma  rica convivência em dois lados da imprensa: a tradicional (burguesa) e a socialmente participativa (proletária, se assim se pode chamá-la).

Recebo hoje um ótimo presente de Natal de um amigo desses tempos de jornalismo diário, exercido no Diário da Tarde, o escritor e poeta Carlos Lúcio Gontijo.

Fato que me levou a relembrar de um passado  de muita ação, trabalho estafante.

Carlos Lúcio envia-me o livro de um advogado e jornalista que acompanhava também os meios

sociais, ao tempo do "Diário da Tarde", no que toca à defesa do consumidor.

Trata-se de "Reflexos Cotidianos", de João Silva  de Souza.

Um detalhe muito particular: o livro é ilustrado com recortes de jornais mineiros, Alguns do Diário 

da Tarde, Com textos de Carlos Lúcio.

E que textos!

Geralmente o Carlúcio escrevia na página 2, do DT, a página de opiniões.

Quando não era o editorial (que todos nós,  editores nos revesávamos), eram artigos de largo interesse popular.

Vou dedicar-me à leitura de"Reflexos Cotidianos", que certamente me trará muito mais recordações

de um período de muita importância para esta cidade maravilhosa que completa 120 anos.

 E que, com muita honra, sou um de seus cidadãos (honorários).

(Ah! Mesmo durante a ditadura não deixei de colaborar com a imprensa partidária. E continuo a fazê-

lo, agora em redes sociais...)

Geraldo Vandré interpreta Aroeira


Video que a Globo e companhia não põem em horário nobre...



quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Vinte anos do MTST terá show de Caetano Veloso no Largo da Batata


Ministério Público do Trabalho considera ilegal redução de salários no Estado de Minas e na TV Alterosa

                                                                        
O Ministério Público do Trabalho considerou ilegal a redução da jornada dos trabalhadores do Estado de Minas e TV Alterosa. O procurador público do Trabalho Sérgio Oliveira de Alencar, em parecer no processo contra a redução movido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, pediu o restabelecimento da jornada de sete horas e da remuneração correspondente dos jornalistas, além de pagamento de indenização por dano moral. A audiência de encerramento de instrução está marcada para o dia 13/12/17.

O Estado de Minas e a TV Alterosa reduziram unilateralmente a jornada de trabalho e os salários dos seus jornalistas em abril de 2016. O Sindicato, em defesa dos jornalistas, posicionou-se contrário à redução e ajuizou ação trabalhista. Foram feitas audiências de conciliação, sem sucesso. O juiz da 2ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte solicitou a manifestação do Ministério Público.

Em seu parecer, o MPT afirma que a redução só poderia ser feita mediante assinatura de convenção ou acordo coletivo de trabalho e que os jornalistas foram obrigados a assinar um termo de concordância e aceitar o corte de salários.

O procurador lembra que a jornada de trabalho dos jornalistas, de acordo com o art. 303 da CLT, é de cinco horas, podendo, de acordo com o art. 304, ser elevada a sete horas, mediante acordo por escrito que estipule o aumento da remuneração.

Ele considerou que os trabalhadores não tiveram opção de não assinar o acordo individual, uma vez que mesmo os jornalistas que não o assinaram tiveram sua jornada e sua remuneração reduzidas. E ainda que a alteração contratual tivesse ocorrido de forma efetivamente consensual, não poderia produzir efeitos válidos, por trazer aos trabalhadores a “consequência danosa” da redução salarial.

“A autorização em convenção ou acordo coletivo de trabalho não poderia ser substituída por acordos individuais”, afirma o procurador.

De acordo com o procurador, a jornada de sete horas e a correspondente remuneração dos jornalistas do Estado de Minas devem ser restabelecidas, com pagamento das diferenças salariais decorrentes.

O parecer afirma também que “deve ser concedida a tutela de urgência requerida pelo Autor, como forma de se evitarem os danos que sobrevirão aos trabalhadores até o julgamento definitivo da lide, envolvendo, sobretudo, redução salarial que impacta na capacidade de subsistência do obreiro e sua família”.

(Com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais) 

Quinta Sinfonia, de Gustav Mahler


terça-feira, 21 de novembro de 2017

"O Jovem Karl Marx",uma "crítica da crítica crítica", como diria Jenny Marx

                                                                         
                                                                                      
Marcelo Dias Carcanholo

 Resenha que o prof. Marcelo Dias Carcanholo (UFF) escreveu sobre o filme "O Jovem Karl Marx", de Raoul Peck.


O filme O Jovem Marx, do diretor haitiano Raoul Peck, já seria controverso, independente do resultado a que chegasse, pelo simples fato de tratar de um dos teóricos mais importantes dos últimos séculos e, principalmente, por discutir explicitamente a constituição histórica da teoria social que, desde o século XIX, mais influencia os movimentos revolucionários contrários ao capitalismo, o marxismo. 

E isto no atual momento de explicitação da luta de classes em todas as regiões do planeta.
O objetivo central do filme parece ser a genealogia (pessoal, no caso de Marx e Engels, e teórica) da principal arma teórica que embasa os processos revolucionários, a teoria social marxista. Logo no início nos é prometida a construção do chamado socialismo científico, em contraposição a todas as variantes de socialismo utópico, com base idealista, anarquismo e tantas outras variantes do movimento revolucionário anti-capitalista. 

Não foram poucos, portanto, que se perguntaram por que o filme termina justamente quando se publica o Manifesto do Partido Comunista, em 1848, ainda antes da teoria crítica de Marx sobre o capitalismo estar consolidada, algo que só irá acontecer, pelo menos, uma década depois. Parece-nos que há uma boa razão para isso.

O filme apresenta algumas inconsistências históricas. Por exemplo, Engels só publica A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra em 1845, e Marx já conhecia o Esboço de uma Crítica da Economia Política de Engels, publicada nos Anais Franco-alemães em 1844, mas escrito em fins de 1843. É amplamente conhecido o elogio de Marx a esse texto de Engels, deixando claro que foi a partir dele que Marx sedimentou a necessidade de partir da crítica da economia política para a crítica radical e revolucionária da sociedade capitalista. 

Portanto, o assunto da segunda conversa entre os dois, retratada no filme, não pode ter sido A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, e sim os artigos que ambos publicaram nos Anais Franco-alemães de 1844.

Essas inconsistências, entretanto, não desmerecem as qualidades do filme. O objetivo central é muito bem apresentado pela descoberta teórico-prática do sujeito revolucionário, a classe trabalhadora, tanto por Marx, como por Engels. E esta descoberta nos é apresentada a partir do ponto de vista do encontro pessoal (teórico e político) dos dois.

O filme começa com o contexto de perseguição ao jornal Gazeta Renana, patrocinado pela burguesia liberal renana, mas de postura crítica ao poder de Frederico Guilherme IV - em muito explicitando a posição mais radical de sua maior referência, o próprio Marx. Esse contexto permite ao espectador tomar ciência de dois elementos fundamentais na formação do pensamento de Marx. 

Por um lado, a necessidade de tratar de assuntos práticos (a discussão sobre o roubo de madeira, por exemplo) mostra ao autor que a realidade concreta é o ponto de partida para o entendimento e transformação da sociedade capitalista. Ou seja, o materialismo como base filosófica necessária. Por outro lado, em relação com o anterior, Marx começa a se dar conta dos limites e contradições da crítica, por mais radical que seja, dentro da ordem, isto é, das posições radicais democráticas.

Não é por outras razões que nesse momento do filme explicita-se, ao mesmo tempo, o rompimento com os neohegelianos (Stirner, Bauer), o idealismo, e com as posturas políticas que se limitam à democracia radical.

No final de 1843 os Marx (Karl se casa com Jenny Von Westphalen meses antes) deixam a Alemanha em direção a Paris, onde eles ficarão até o início de 1845, onde Karl trabalhará nos Anais Franco-alemães, e após esse período serão expulsos, primeiro, para Bruxelas, e depois para Londres. Esse breve período em Paris, no entanto, é crucial para a formação desse individuo revolucionário. Ali ele toma contato, na prática, com o que constitui o sujeito revolucionário, a classe trabalhadora. 

Ao mesmo tempo, se aproxima em definitivo de outro individuo revolucionário, que já havia conhecido, mas inicia ali, a partir da publicação de seus respectivos artigos nos Anais Franco-alemães, a construção não apenas de uma sólida amizade, mas do que viria a ser a arma teórica mais importante dos processos revolucionários. Esse encontro, ainda na juventude, de Marx com Engels é o objeto de O Jovem Marx.

Em paralelo à trajetória do jovem Marx, o filme nos apresenta a formação e tomada de consciência revolucionária do jovem Engels. Explicitamente é apresentada a contradição que o constitui como individuo, revolucionário. Por um lado, sua vida burguesa, com os privilégios que a acompanham, em função dele ser filho de um capitalista, um dos donos da Ermen and Engels.

Por outro lado, sua aproximação com a classe trabalhadora, em função até das condições de trabalho enfrentadas por esta classe na fábrica da qual era herdeiro, circunstância explicitamente tratada no início do filme. Essa contradição, que termina sendo vivenciada posteriormente pelo próprio Marx, é explorada em outros momentos do filme, até como forma de evidenciar a radical contraposição ideológica desses indivíduos com a sociedade burguesa.

A maneira como essa contradição é apresentada no filme ainda nos permite tratar de outro aspecto importante. Logo no início, Mary Burns, uma trabalhadora da Ermen and Engels é demitida pelo fato de ser uma das líderes dos protestos frente às condições desumanas de trabalho. Trata-se da primeira companheira do jovem Engels. ]

O filme aproveita esse gancho para, explicitamente, mostrar o papel central das companheiras de Engels e Marx no processo de constituição dos indivíduos e, mais importante para nós, da teoria revolucionária que se gestava.

Mary Burns, além de iniciar o jovem Engels no contato com a classe trabalhadora e, dada a especificidade concreta, com a chamada questão irlandesa, é mostrada como a responsável pela introdução dos dois jovens revolucionários na Liga dos Justos. Esta última, de um sentido original de “justiça social”, fraternidade e harmonia entre os seres humanos, é, pela atividade prática dos dois jovens revolucionários, transformada em Liga dos comunistas.

Jenny Marx, por sua vez, não bastassem suas sacadas geniais e ácidas nos diálogos críticos de seu companheiro com Proudhon e Grün, por exemplo, é apresentada como a responsável pelo excelente subtítulo (Crítica da crítica crítica) para A Sagrada Família, subtítulo que, diga-se de passagem, diz muito mais sobre a obra do que o título. 

Ela é apresentada como uma autêntica rebelde, revolucionária, com decisões e opiniões firmes em todos os aspectos, inclusive nos concernentes à vida cotidiana dos Marx. A impressão que o filme passa é que ela, e em certa medida a própria Mary Burns, já são revolucionárias formadas, mesmo antes de seus “jovens” companheiros. Não se trata de que ao lado de dois grandes homens há duas grandes mulheres. Em muitos momentos, elas estão bem à frente dos dois jovens.

Terminamos de volta ao começo! Por que o filme termina com a publicação de O Manifesto do Partido Comunista, em 1848? Por que não tratar da constituição efetiva da Associação Internacional dos Trabalhadores, ou da maturação da teoria crítica do valor (e do capitalismo), arma teórica mais robusta do processo revolucionário? A resposta agora se mostra mais simples.

Porque a ideia é mostrar a formação (pessoal, política e teórica) dos dois indivíduos revolucionários responsáveis pela escrita do Manifesto. E até nesse processo de redação o papel ativo de Jenny Marx e Mary Burns é explicitamente mostrado pelo filme. Uma construção diretamente coletiva pelas pessoas que o constituem, sem hierarquias e/ou mediações, como as revoluções, de fato, devem ser. Só por isso o filme já seria justificado.

O final é uma ode à esperança. Imagens de rebeliões e protestos contemporâneos, ao som de Like a Rolling Stone, na versão original de Bob Dylan. Em um contexto (estético) como esse, é possível um indivíduo não se tornar revolucionário?

(Com o Diário Liberdade)