sábado, 22 de junho de 2013

Carta aos camaradas

                                           
Camaradas

Passado o susto, acho que já podemos ver as coisas mais claramente.

Não há dúvida de que estes protestos que eclodiram pelo Brasil são a expressão de uma tremenda crise de legitimidade da institucionalidade burguesa (democracia representativa) e de alguns pontos fundamentais de sustentação do capitalismo no Brasil (como o projeto de crescimento da economia associado a manutenção das profundas desigualdades existente no país - "tem dinheiro para a copa mas não tem para a educação, ou saúde, ou transporte..."). Leitura da realidade brasileira que as organizações de esquerda concordam em gênero, número e grau, aliás, sempre defenderam esta ideia.

Por outro lado, está claro também que não há espaço neste movimento para a luta partidária. Ele nasce justamente de uma negação da institucionalidade vigente, uma crise na sua totalidade, que rebate em todos os partidos e organizações que atuam cotidianamente nesta ordem vigente. Querer "por partido" no movimento "sem partido" é negar a sua própria essência. E nós não podemos ficar nos estapiando com a realidade. 

Marx nos ensina que devemos capturar os aspectos de negação presentes na realidade e tentar dinamizar estes pólos. Por isso, se a nossa atuação neste movimento for de ficar colocando o debate dos partidos no movimento, nós não vamos conseguir influenciar em nada o curso deste movimento. Vamos ficar a margem que um dos maiores movimentos de massa da história recente do país. Com isso entregamos de bandeja o movimento nas mão de liberais e fascistas.

Por isso, caramadas, provocando a reflexão, penso que a forma partido está em suspenso no momento! Ou melhor, acho que chegou a hora de descobrirmos o verdadeiro sentido da ação partidária, que é a ação coletiva e organizada. Fico pensando nos nossos mestres!

Lenin não vez a revolução porque ele usava a camisetinha do PC, ou porque ele agitou uma bandeira escrito bolchevique. Mas sim porque Lenin e os bolcheviques agiram organizadamente no interior do movimento, vem um fala, vem outro e reforça, e vai criando aquela agitação em cima do tema, atuando tudo em torno de um programa. 

Os bolcheviques não fizeram a revolução falando Viva o PC!, mas diz com palavras de ordem como "todo poder aos soviets" e "pão, paz e terra", ou seja, defendendo um programa entre as massa, de forma clara e pedagógica.

Não quero dizer que estamos fazendo a revolução, alto lá! A revolução parece ser uma coisa um pouco mais complexa, precisaria ter uma consciência socialista amplamente difundida, o que não é o caso! 

Só que dizer que, se nós queremos atuar neste movimento, de modo "orgânico", participando do "núcleo dirigente" (se é que tem isso), contribuindo para que o movimento se concretize em transformação social,  devemos neste momento atuar principalmente em torno do programa do partido e não tanto da legenda do partido. 

Porque este movimento tem muitas coisas em comum com o programa do partido:

1- PODER POPULAR: historicamente, os comunistas são os maiores críticos da institucionalidade burguesa (democracia representativa) e sempre propuseram uma nova institucionalidade, pautada na participação direta do trabalhador (democracia direta). Este é um tema que eu acho que dá para trabalhar dentro do movimento! Atuando "pesado" na crítica das instituições vigentes e na descrença com os "políticos", para propor formas de participação direta no poder, inclusive envolvendo a internet neste processo de participação (que é da onde surgiu tudo isso). Pensar, propor e agitar em torno de formas de participação direta na definição do orçamento, da política de transporte, enfim...

2- DIREITOS SOCIAIS E CONDIÇÕES DE VIDA DO TRABALHADOR: este movimento contem uma série de demandas sociais reprimidas e agravadas pelo neoliberalismo, como educação, saúde, transporte, e tantas outras coisas... Temos que atuar dentro do movimento buscando lutar para que as conquistas sociais venham acompanhada de uma redistribuição da renda. Por exemplo: o movimento conquista a redução da tarifa. Se isso não for acompanhado de uma política de sobretaxação das grandes fortunas vai ter sido um movimento liberal, na medida em que o governo para custear a tarifa vai ter que cortar gastos na educação, saúde e outros setores sociais. 

Só penso que não podemos descartar totalmente este movimento por causa da sua repulsa aos partidos. Pelo contrário, temos que entrar de cabeça neste movimento, tentando "esquerdizar" o movimento.

Bom! Já me alonguei demais. Além do que, minha intenção principal é fomentar o debate e contribuir para o fortalecimento do partido.

Peço apenas que ajudem a divulgar e promover o debate.

Saudações comunistas!

José Henrique S. Néspoli

militante do PCB-Uberaba

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