segunda-feira, 6 de junho de 2016

Nova biografia de Caio Prado Júnior põe luz em sua militância comunista


                                                                     
Os livros de Caio Prado são estudados de forma descolada de suas ideias políticas e militância, afirma o autor 

Luiz Bernardo Pericás recupera viagens, memórias da prisão e relações que o autor teve com intelectuais estrangeiros

Camila Rodrigues da Silva

Caio Prado Júnior é autor de obras fundamentais de cursos de graduação de Economia, Sociologia e História, como "História Econômica do Brasil" e "Formação do Brasil Contemporâneo". De origem aristocrática - ele é filho de uma das famílias paulistas que dominavam o mercado do café no início do século 20 - ele costuma ser definido como um dos "intérpretes do Brasil", junto a Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freire. Entretanto, pouco se fala de sua militância política e de suas posições assumidamente comunistas.

Sua militância começou no início da década de 30, quando o stalinismo já era uma realidade concreta e influenciava todo o movimento comunista internacional. Ele atuou na Aliança Nacional Libertadora (ANL), foi preso entre 1935 e 1937, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, e se manteve filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCB) até sua morte, mesmo com constantes discordâncias internas. Além disso, dedicou parte de sua vida a visitar a China, a URSS e Cuba, onde se viveram as primeiras experiências socialistas.

Para recuperar detalhes dessa trajetória, o historiador Luiz Bernardo Pericás dedicou seis anos de pesquisa para escrever Caio Prado Junior - Uma biografia, recém-lançado pela Editora Boitempo. 

"Na verdade, para Caio, o marxismo, o engajamento social e partidário e as experiências socialistas não eram acessórios, mas elementos essenciais de sua trajetória e visão de mundo. Não eram apenas ferramentas para compreender o processo histórico nacional, mas aspectos primordiais de sua vida e de sua luta por mudanças estruturais", afirma o autor no prefácio.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato - Quando e o quê fizeram você pensar que era necessário produzir uma biografia política de Caio Prado Júnior?

Luiz Bernardo Pericás - Há vários anos comecei a pesquisar a vida e obra de Caio Prado Júnior e percebi, neste processo, que ainda havia muito espaço para novos estudos sobre o grande historiador. Encontrei lacunas em sua vida, relações pessoais pouco exploradas por outros autores, falta de uma aproximação maior dele com diferentes intelectuais marxistas, poucos detalhes sobre suas leituras e viagens ao mundo do socialismo. Quando iniciei minha investigação, me dei conta de que havia uma quantidade enorme de documentos inéditos que poderiam iluminar a trajetória política de Caio Prado Júnior, um tema que ainda podia ser bastante explorado.

Como você analisa a inserção da contribuição de Caio Prado nas universidades, principalmente nos cursos de história e de economia? Os professores o referenciam adequadamente? Até porque, ao que me parece, existe uma preferência pela interpretação de Celso Furtado sobre a formação econômica brasileira…

Caio é considerado um “clássico” da historiografia brasileira. É, portanto, indispensável nos cursos de história. Ainda assim, seus livros, em boa medida, são estudados de forma descolada de suas ideias políticas e militância. Seu marxismo, muitas vezes, é diluído e visto apenas como um apêndice, um acessório metodológico que utilizava para construir suas interpretações, o que, a meu ver, é algo bastante problemático.  

Há professores que fazem uma leitura seletiva de determinados capítulos ou trechos das obras principais, sem se aprofundar no que está por trás daquelas asserções. Ou seja, não leem as entrelinhas nem associam necessariamente o texto de Caio Prado Júnior ao contexto político e ideológico em que foi produzido.

Não podemos nos esquecer que Caio era um “comunista”, membro do PCB [Partido Comunista Brasileiro], admirador da União Soviética e leitor de clássicos do marxismo. Tanto seu “método” interpretativo como sua postura de vida não eram, portanto, os mais populares dentro de determinados círculos acadêmicos, o que fez com que ele tivesse as portas das universidades fechadasem diferentes ocasiões. Isso também levou a um certo distanciamento e críticas à sua obra por parte de vários intelectuais, tanto de dentro como de fora da academia.      

De que forma o pensamento de CPJ nos ajudaria a interpretar o atual momento da luta de classes no Brasil?

Caio Prado Júnior ainda é muito atual. Sua análise econômica sobre o papel e a inserção do Brasil no cenário internacional, suas opiniões sobre o imperialismo, sua postura em defesa da construção de organizações de massa, seu interesse pela solução da questão agrária, o apoio às lutas dos trabalhadores (com ênfase à dos rurais), seu combate ao reacionarismo e autoritarismo, sua preocupação constante com a transformação efetiva do Brasil em uma verdadeira “nação” (ou seja, em superar os resquícios coloniais e tirar o país de sua posição dependente, subordinada e periférica) e sua visão política de longo prazo (tendo como objetivo o socialismo) são todos elementos que devem ser levados em conta quando se estuda sua obra e que podem servir como ferramentas para a compreensão da realidade brasileira de hoje.

Serviço
Caio Prado Júnior - Uma biografia política

Autor: Luiz Bernardo Pericás

Editora Boitempo

Preço: R$ 63 (504 páginas)

Edição: Simone Freire

(Com o Brasil de Fato)

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