segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Especial, 10 anos do "Brasil de Fato"

A médica Aleida Guevara

Foto: Cuba Solidarity Campaign    


                                        

“Nosso futuro está cheio de sorrisos, música e amor”


Aleida Guevara analisa a sociedade cubana e aponta os desafios do governo da ilha para os próximos anos

23/01/2013

Nilton Viana 

da Redação 

Filha do guerrilheiro e revolu­cionário Ernesto Che Guevara, pediatra e militante da revolução cubana. Aleida Guevara vive em Havana desde seu nas­cimento em 1960, um ano após o trunfo da revolução que seu pai ajudou a cons­truir ao lado de Fidel Castro e outros guerrilheiros. 

Em entrevista ao Brasil de Fato, Aleida, que esteve presente no ato de fundação do jornal, analisa o atual con­texto de Cuba no cenário latino-ameri­cano e traça as perspectivas para o fu­turo. 

Brasil de Fato – A América Latina passou por mudanças importantes – principalmente com a chegada de governantes progressistas, anti-imperialistas e de esquerda. Como você avalia o atual cenário latino­americano em relação a Cuba?

Aleida Guevara - Para nossa gran­de pátria é um momento de esperan­ça, mas o melhor é que já se pode ver os sonhos tornando-se realidades, nos­sos povos começam a sentir que se po­de, começam a desfrutar, pela primeira vez em nossa história, de seus próprios recursos naturais, com os quais se po­de obter reais benefícios na educação, na saúde, em moradia.

Pela primeira vez, vemos exércitos que costumavam nos reprimir participando das novas construções e defendendo seu povo. Is-to permite uma relação muito mais es­treita entre nossos povos, onde os in­tercâmbios econômicos e culturais au­mentam diariamente e o povo cubano participa ativamente em todo esse pro­cesso de união. Trabalhamos muito pe­la solidariedade e recebemos muita so­lidariedade. Já não estamos ilhados, so­mos parte integrante de um amanhecer, a Alternativa Bolivariana para as Amé­ricas (Alba). Agora sim começamos a desfrutar da pátria grande. 

Nesses 10 anos, ocorreram algumas mudanças em Cuba, como a saída de Fidel Castro e a chegada de Raul ao poder. Como avalia essas mudanças? 

Não são mudanças, é a continuida­de de um processo revolucionário, que amadurece, cresce e se desenvolve. Po-demos dizer com certeza que ainda há muito o que melhorar, mas podemos fazê-lo pela acumulação de experiência, porque temos vencido milhares de en­frentamentos e vamos buscando solu­ções para os problemas que temos. 

A reforma migratória acaba de entrar em vigor em Cuba. Qual deve ser a importância dessa nova medida? 

Isto reflete o que eu disse anterior-mente, somos mais fortes como socie­dade, temos maior desenvolvimento na nossa segurança interna, então pode­mos ser muito mais hospitaleiros com a nossa gente. É um processo de amadu­recimento que leva anos se aperfeiço­ando, não são coisas decididas em pou­co tempo, levamos muitos anos bus­cando soluções, escutando o sentimen­to de nosso povo, mas sem perder nem por um instante a consciência das ma­nipulações que o governo dos EUA rea­lizam para tentar danificar nossa sobe­rania, é sem dúvidas um inimigo mui­to poderoso e não podemos nos des­cuidar. Por outro lado, o governo cuba­no sempre foi criticado por não permi­tir que seus cidadãos viajassem livre­mente, mas poucos conhecem os acor­dos migratórios que nosso governo tem tentado negociar com os EUA.

Há anos lhes temos pedido que cumpram os 20 mil vistos anuais prometidos e que so-mente nos últimos anos têm feito. Pou­cos conhecem sobre a lei implementada por eles para receber ilegalmente cuba­nos em seu território nacional, nós so­mos os únicos cidadãos deste plane­ta que se chegamos ilegalmente à cos­ta dos Estados Unidos somos recebidos como heróis e está estabelecido por lei que temos direito a moradia, trabalho e algum dinheiro e em um ano podemos optar pela cidadania estadunidense, tudo isso se chegarmos ilegalmente a seu território. Pensem quantos mexicanos ou haitianos morreram tentando fa­zer o mesmo.

Por que é diferente pa­ra os cubanos? Será pela propaganda que desenvolvem contra nossa socieda­de? De toda forma, seguimos em frente, agora veremos quantos vistos recebere­mos, mas pessoalmente estou contente, acho que essas medidas são boas para nosso povo. 

Qual é, a seu ver, o principal legado de Che Guevara para a América Latina? 

Che é o arquétipo mais completo do novo homem, com capacidade para amar, para lutar, para aprender, para viver com dignidade. Sua própria vida se converte em seu melhor legado, mas pessoalmente me comove sua capacida­de para amar, só dessa forma se pode estar disposto a entregar sua vida por outros homens e mulheres. Che repre­senta a continuidade dos melhores pró­ceres de nossa América. Che é futuro. 

O que você acha do socialismo? Devemos continuar insistindo na luta por uma sociedade socialista? 

Com certeza. Como podemos garantir uma educação gratuita e em igualdade de condições para todo o povo? Como garantir saúde para todos, como direito do ser humano? Como assegurar a ali­mentação do povo? Somente podemos conseguir isso se somos donos do que produzimos, se nossas terras são utili­zadas como propriedade coletiva e não por poucos ou companhias estrangeiras e se garantirmos reforma agrária, se o capital se emprega em benefício social e não para o lucro de poucos. Enfi m, só atingiremos a soberania e a prosperida­de para nossos povos se construirmos uma sociedade de direito com respeito a cada um de nossos homens, mulheres e crianças. E eu só conheço isso em uma sociedade socialista.

Como você vê o futuro de Cuba, diante da difícil situação econômica? 

Com muito trabalho, com muito que aprender e muito o que resolver, mas sempre melhorando e aperfeiçoando nossa sociedade socialista, certamen­te seria muito útil se abolissem o blo­queio econômico criminoso que os EUA nos impõem há mais de 50 anos.O fu­turo vem cheio de tecnologia, já esta­mos desenvolvendo um polo científico que produz, ainda nessas condições de bloqueio, medicamentos e vacinas que podem ajudar a melhorar a vida de mi­lhões de pessoas neste planeta, nosso futuro está cheio de sorrisos, música e amor, porque assim somos, mas tam­bém há determinação, valor e força. 

Como você avalia a gestão de Obama, em relação a Cuba, sobretudo em comparação com os governos anteriores (Clinton e Bush)? 

De Obama esperávamos muito mais, mas simplesmente se tem comportado como mais um fantoche dos interesses econômicos das transnacionais e da in­dústria armamentista de seu país, mas, todavia, não perdemos as esperanças de que possa fazer algo útil para seu próprio povo em relação à saúde, edu­cação, moradia e sobretudo protegê-los da violência em que vivem, mas a ver­dade é que acho isso muito difícil de ocorrer. O importante para mim é que o povo dos Estados Unidos desperte de sua letargia e tome consciência do po­der que tem como povo e tome as réde­as, só então poderemos falar de alguma mudança, enquanto isso não ocorrer, teremos o mesmo cachorro com uma coleira diferente. 

O que você diria aos jovens da periferia urbana brasileira, que gostam do Che? 

O que eu digo a todos os jovens, estu­dem Che, leiam-no, pratiquem-no, tra­gam-no junto a vocês para enfrentar sua realidade cotidiana. 

E o que você diria aos jovens que se formam em medicina, e que às vezes apenas pensam em ganhar dinheiro, para “subir” na vida? 

Digo que se pensarem assim, nunca serão médicos. Esta profissão, como a dos professores, é de entrega total e o único amo a quem respondemos é o po­vo. Estar perto da dor e da alegria das pessoas te converte em um ser huma­no melhor, se não é assim, melhor não ser médico. 

No Brasil, estamos completando uma década de um governo progressista. Como você vê o cenário brasileiro? 

A verdade é que eu gostaria de ver uma reforma agrária, gostaria que esse gigante latino-americano fizesse parte da Alba, gostaria que nenhum homem, mulher ou criança desse belo país pas­sasse fome ou alguma necessidade, pois não posso entender como com tanta ri­queza exista uma única pessoa passan­do necessidades. Creio que podem fazer muito mais e não só o governo, mas vo­cês mesmos, como massa humana, com força suficiente para defender seus di­reitos. Creio nos movimentos sociais como o MST, porque eles mostram que “sim, se pode” e tornam o sonho rea­lidade.

Há algum tempo visitei uma das maiores minas de ferro do mundo e fiquei muito impressionada, está na Amazônía brasileira e para tirar o ferro têm cortado milhares de árvores ances­trais, por favor, amigos, tenham cuida­do! O homem pode viver sem ferro, mas não pode viver sem oxigênio, defendam o futuro da nossa espécie. 

A chamada grande mídia tem se posicionado cada vez mais como um verdadeiro partido político das elites. Como você analisa a imprensa? 

A imprensa é muito importante, tem a responsabilidade de alertar as pesso­as sobre tudo o que acontece em nosso entorno, mas quando essa imprensa se converte em papagaio repetidor de no­tícias e sequer toma o trabalho de in­vestigá-las, essa imprensa se conver­te em uma grande máquina de desin­formação e isso é muito perigoso e da­noso, pois pode impedir que as pesso­as reajam a tempo contra algo perigo­so ou injusto. 

Você esteve no lançamento do nosso jornal Brasil de Fato, em janeiro de 2003. Agora, estamos completando 10 anos. Qual a importância de um veículo como este e qual o papel da mídia alternativa/popular para os povos? 

O povo necessita sentir que tem voz, que é escutado e defendido. É esse o pa-pel tão importante que têm os meios al­ternativos. Feliz aniversário. E que te­nham muitos anos, mas sempre a servi­ço dos que sabem amar.


Aleida Guevara March é filha do revolucio­nário Ernesto “Che” Guevara, médica pediatra. Trabalhou como médica em Angola, Equador e Nicarágua. Mora atualmente em Cuba  e é militante do Partido Comunista Cubano. (Com o Brasil de Fato)

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