terça-feira, 1 de novembro de 2016

Oitenta anos a enterrar Lenine

                                                               

Francisco Martins Rodrigues

O leninismo é um mundo, como tem sido bem demonstrado ao longo das intervenções neste colóquio (*). Gostaria de falar aqui hoje da política leninista na fase de preparação da revolução, trazendo o testemunho da minha experiência pessoal enquanto militante comunista português.

Ainda eu estava no PCP, já lá vão mais de 40 anos, e já me confundia a diferença enorme entre o “leninismo” que nós praticávamos e os textos do próprio Lenine. A intervenção do PC em Portugal parecia bastante avançada a nós, comunistas daquele tempo: unir o povo, com os operários na primeira linha, para derrubar a ditadura fascista e ganhar uma democracia avançada. 

Mas então descobri que Lenine, na luta contra o czarismo, punha as coisas em termos completamente diferentes. Nós proclamávamos aos antifascistas: “O que nos separa nada é, comparado com o que nos une” – Lenine acentuava a necessidade de “paralisar a instabilidade, a ambiguidade e a perfídia da burguesia democrática” (1). 

Nós dizíamos à classe operária que ela devia estar na vanguarda, como a mais esforçada e combativa – Lenine dizia: “Devemos ajudar o proletariado a elevar-se do papel passivo de motor ao papel activo de guia, a passar de defensor subalterno de uma liberdade truncada a defensor totalmente independente de uma liberdade completa, em proveito da classe operária” (2). 

Nós aliávamo-nos à pequena burguesia urbana, mais activa e politizada – Lenine dizia que os camponeses, alheados da política, incultos e famintos, é que eram o verdadeiro aliado do proletariado, porque ao exigir a terra criavam condições para subverter a ordem instituída. Nós resumíamos toda a nossa estratégia e a nossa táctica ao derrube do fascismo – Lenine dizia que “não se pode falar dos objectivos políticos imediatos enquanto não se esclarecerem as questões essenciais das tarefas do proletariado na nossa revolução (…), enquanto não se vir como se agrupam as classes e os partidos…” (3).

Numa palavra: nós procurávamos pôr de lado tudo o que dificultasse a unidade imediata – Lenine procurava pôr de lado tudo o que, na luta imediata, impedisse o papel dirigente do proletariado.

Que respondiam os dirigentes do PCP às nossas perplexidades? Que Lenine tivera certamente razão, fora o mais genial dos revolucionários, etc., mas que isto já não podia ser assim porque as novas condições exigiam dos comunistas uma capacidade muito maior de assumir como suas as reivindicações de todo o povo, unir todas as camadas não-monopolistas, unir a nação contra o fascismo e o imperialismo estrangeiro, construir amplas frentes de luta pela paz…

Só que esta justificação era coxa: onde mais do que na Rússia de 1905 era necessário ganhar todas as camadas da população para o derrube da autocracia, para o fim da servidão, para fazer transformações democráticas? E, no entanto, Lenine cuidara sempre em delimitar correntes no campo dos que lutavam pela liberdade, sem medo de afastar possíveis aliados; achava mesmo “indecente” o “medo de isolar o proletariado do povo pequeno-burguês” (4). Com essa orientação permitiu que, no ano de 17, o proletariado russo se agigantasse e partisse ao assalto do poder. O que mudara, afinal, para tornar inaplicável o modo leninista de fazer política?

A diferença não podia ser explicada pela mudança das condições. Fora a estratégia que mudara. Pouco a pouco, imperceptivelmente, o leninismo fora-se tornando imprestável para os partidos comunistas (e falo aqui sobretudo da Europa, que nos diz mais directamente respeito). 

À medida que se foram extinguindo as réplicas daquele tremendo abalo revolucionário que sacudira a Rússia com a revolução dos sovietes, os comunistas, por muito que admirassem os bolcheviques, não vendo como próxima a instauração da ditadura do proletariado, acossados por um clima social desfavorável, receosos do isolamento, consideraram inaplicável a demarcação leninista entre as posições do proletariado e as da burguesia democrática.
Assim, enquanto se proclamava sem descanso a validade universal do leninismo, este foi sendo soterrado sob uma sucessão de revisões, em camadas sobrepostas.

A primeira foi a chamada política das frentes populares, adoptada no 7.º Congresso da Internacional Comunista, em meados dos anos 30, com o argumento de que “no tempo de Lenine não existia o terrorismo fascista”. Não que as frentes antifascistas, em si, tivessem algo de mal. O mal era dirigirem-se os esforços de aliança para a burguesia e não para os pobres da cidade e do campo, pensar que o preço a pagar pela frente era bajular os social-democratas, calar os objectivos próprios dos comunistas, adoptar uma linguagem progressista nebulosa, conceber a luta contra o fascismo como a fusão das posições de classe contraditórias numa corrente democrática comum.

Anos mais tarde, em plena guerra mundial, novo passo: a Internacional Comunista foi dissolvida “porque os partidos já estavam temperados e maduros” – na realidade porque as potências ocidentais exigiam o fim da Internacional para abrir a segunda frente contra Hitler. A dissolução da IC – aliás, já agonizante por ter sido rebaixada a instrumento da política externa da URSS – levantou os últimos obstáculos à dispersão oportunista que empurrava cada partido a moldar-se às condições impostas pela burguesia do seu país.

Após a guerra, veio a teoria das revoluções “democrático-populares”, meias revoluções de um tipo novo, que não instauravam nem a ditadura do proletariado sobre a burguesia, nem a ditadura da burguesia sobre o proletariado – “porque agora, com o poderio da União Soviética, já é possível uma ampla aliança das classes antimonopolistas”. Para além dos abortos de capitalismo burocrático a que deu lugar na Europa de Leste, esta teoria serviu para afundar mais ainda os partidos europeus na prática da colaboração de classes.
                                                                
Por fim, no 20º Congresso do PCUS, em 1956, invocou-se mais uma vez a nova situação internacional como argumento para a revisão kruchovista: “Lenine estava certo na sua época, mas no seu tempo não havia armas atómicas”. E portanto os comunistas deviam abdicar de objectivos revolucionários a bem da coexistência pacífica, ganhar a aliança com os social-democratas à custa do compromisso de uma mirífica “passagem pacífica ao socialismo”, meter no limbo o conceito maldito da “ditadura do proletariado” que matava à nascença qualquer veleidade de aliança porque a burguesia democrática não o tolerava (e com boas razões!).

Se olharmos na sua sequência esta série de “actualizações” – e há nela uma linha de continuidade que passa dos stalinistas para os anti-stalinistas –, vemos que se tratou de uma revisão estratégica. Lenine cuidava permanentemente de libertar os interesses a longo prazo do proletariado da ganga “democrática” geral em que sempre se encontram soterrados, justamente porque apontava para o alvo da revolução proletária. O “leninismo” reciclado que lhe sucedeu precisava de dissolver os objectivos proletários na política democrática “de todo o povo” justamente porque adoptara como meta a introdução gradual de reformas democratizantes no regime burguês.

Nada parecia, porém, mais distante do oportunismo do que a intransigência exibida pelos PC europeus dos anos 50. Perseguidos e caluniados pelas suas burguesias, eles defendiam a pé firme a “pátria do socialismo”, lutavam contra o imperialismo, mantinham acesa a luta contra a social-democracia, defendiam a independência e unidade do partido. De tal modo que a sua luta parecia até por vezes assumir um radicalismo maior que nos tempos de Lenine.

Com uma diferença de fundo, contudo. O empenhamento de Lenine em distinguir e separar os interesses do proletariado dos das classes intermédias fora abandonado para dar lugar à luta do “campo da paz e da democracia” contra o grande capital e o imperialismo – capaz de englobar num movimento conjunto a pequena burguesia e o proletariado. 

O combate ao imperialismo, para se tornar aceitável a todos, passou de anticapitalista e revolucionário a democrático-humanista-pacifista. A crítica aos partidos social-democratas transformou-se na denúncia dos manejos das suas cliques – só negando base social à social-democracia se podia manter de pé o mito da unidade de interesses entre proletariado e pequena burguesia. 

A disputa da hegemonia proletária no movimento democrático foi substituída pela proclamação do “papel dirigente do partido” – e com esta transferência trocou-se a luta política em campo aberto pelo manobrismo sem princípios. A luta interna nos partidos degenerou na caça aos “renegados, sabotadores e provocadores”, acabando por instituir um unanimismo gerador de podridão – porque reconhecer que a pequena burguesia tentava ganhar o partido por dentro poria em causa a “unidade popular”.

A ideologia “unitária” esterilizou o movimento comunista. Quanto mais cedências os partidos faziam na sua linha política à pressão burguesa democrática, na ambição de ganhar espaço na “grande massa da população”, mais o proletariado era reduzido à reivindicação económica e se apagava na cena política, mais os partidos trocavam a polémica viva pela solene enunciação de dogmas, mais autorizados se consideravam, como indiscutida “vanguarda”, a todas as manobras.

Na esperança obtusa de virem a ser reconhecidos como os melhores defensores dos interesses de toda a nação, os partidos comunistas sacrificaram a identidade política do proletariado. Repetiram, com outra linguagem e noutras condições, a deriva oportunista que Lenine apontara aos antigos social-democratas: “Renúncia às posições de classe e à luta de classes por receio de não influenciar ‘a grande massa da população’ (leia-se: a pequena burguesia)” (5).

E como na luta de classes não há espaços vazios, esta magnânima abdicação dos interesses próprios e exclusivos do proletariado redundou na ocupação dos partidos pela ideologia e pelos objectivos políticos da pequena burguesia. Os partidos comunistas foram tomados pelas fracções radicais da nova pequena burguesia assalariada, em crescimento acelerado por toda a Europa, interessada em regatear espaço junto da burguesia dominante usando como suas armas a luta do proletariado (devidamente depurada de objectivos revolucionários) e o apoio ao regime da URSS, o temido rival do imperialismo. Assim o proletariado se tornou o servente do movimento democrático burguês, sob o emblema da foice e do martelo.

Não é agora o momento de fazer o historial das posições reformistas, eleitoralistas, chauvinistas assumidas pelos partidos comunistas europeus, mesmo no mais aceso da sua resistência à “Guerra fria”. Os tons radicais e a terminologia “marxista” com que se ocultavam, juntos com a imagem “socialista” da URSS, permitiram que se arrastasse por decénios o seu apodrecimento. Foi só quando, a partir dos anos 60, a classe governante “soviética” iniciou os primeiros passos para negociar com o imperialismo a sua reconversão ao capitalismo privado, que os aparelhos dos partidos europeus, já corrompidos até à medula, consideraram esgotada a opção “leninista” e se puseram também à procura de uma via de capitulação. 

Seguiu-se logicamente a renegação aberta do leninismo e o dar a mão à palmatória da social-democracia: Lenine tinha sido “maximalista”, porque queria levar tudo longe de mais; “jacobino”, porque estava obcecado pela conquista do poder; “redutor” e “sectário”, porque afastava os aliados; “fraccionista”, porque criava contínuas guerras dentro do partido…

Assim o leninismo se transformou em antileninismo, à sombra dos vivas a Lenine.

E na pequena corrente que hoje aqui e além retoma a bandeira do leninismo? Eu creio que a defesa que fazemos da politica leninista ainda é dúbia, reticente e muitas vezes mais formal do que real. Criou-se um certo consenso de que as ideias políticas de Lenine teriam envelhecido irremediavelmente perante as transformações sociais profundas do último século. 

A demarcação de interesses entre proletariado e pequena burguesia em que o leninismo apostou, hoje já não seria operativa nas nossas sociedades avançadas, em que se diluíram as antigas fronteiras entre proletários miseráveis e proprietários opulentos, e a esmagadora massa da população assalariada defronta o “punhado de monopolistas sem pátria”. Há uma opinião generalizada, embora nem sempre claramente articulada, de que a linguagem de classe rigorosa pode ser muito útil para estudos de marxismo mas na política prática não funciona, conduz ao doutrinarismo, ao obreirismo, ao isolamento.

Esquece-se porém que as transformações sociais profundíssimas que as metrópoles capitalistas vêm atravessando não atenuam mas agudizam o seu antagonismo essencial, entre produtores e apropriadores de mais-valia, ao fazerem proliferar as camadas assalariadas auxiliares da extracção de mais-valia ou puramente parasitárias. 

A imagem “popular” e facilmente aceite de um antagonismo universal entre os magnates capitalistas e “os mais de 90 por cento da população reduzidos ao trabalho assalariado” esquece a complexa e vastíssima rede de camadas intermédias que beneficiam, em maior ou menor medida, de suplementos da mais–valia, distribuídos pela classe dominante para garantir a eficácia e estabilidade do seu sistema de exploração. Lenine, já no seu tempo, dava-se ao trabalho de desfibrar, no espaço entre o proletariado e a burguesia, as posições de semiproletários, pequeno-burgueses, semi-pequeno-burgueses, aristocracia operária, burocracia operária, etc. É esse imenso trabalho de demarcação política e ideológica que falta realizar nas condições actuais, para que volte a emergir a identidade do proletariado.

Querer formular uma estratégia e uma táctica de luta do proletariado pelo fim do capitalismo sem tomar em conta aquilo que distingue o proletariado de todas as outras classes e camadas, pode proporcionar todos os êxitos e vantagens políticas que se queiram – mas conduz de certeza ao desastre quando chegar o momento em que os diferentes interesses das classes saem da relativa indefinição ou adormecimento dos períodos de paz social e se revelam brutalmente à luz o dia –, quando se entra em crise revolucionária. Aí, torna-se antagónica a postura dos que precisam de abolir o sistema capitalista e dos que simplesmente querem regatear melhores posições dentro do sistema e à custa dos de baixo. Vimo-lo claramente, nós, comunistas portugueses, durante a crise revolucionária de 1974-75.

A ideologia democrática pode proporcionar – e proporciona de facto – popularidade, êxitos eleitorais, vantagens, mas, quando chega a hora da verdade, revela a sua natureza antiproletária. Aí, o proletariado que ao longo dos anos anteriores de escaramuças não ganhou têmpera política e ideológica e se habituou a servir de auxiliar da burguesia será incapaz de fazer prevalecer os seus interesses. Foi o que também constatámos dolorosamente em Portugal no Outono de 75.

Aprendamos com Lenine que a conquista de alianças de classe não é a troca dos objectivos do proletariado por imaginárias metas não-revolucionárias, capazes de seduzir a pequena burguesia; nem é a troca da voz independente e exigente do proletariado pelos discursos unitário-diplomáticos que agradam a todos e nada esclarecem – é armar o proletariado com a capacidade de arrastar atrás de si as camadas vacilantes.
Aprendamos com Lenine que criticar os sectores burgueses que ficam contíguos ao proletariado não prejudica a luta contra o inimigo principal, reforça-a. De facto, como se pode dar real poder ofensivo à luta das massas contra a actual onda de pilhagem e terror lançada pela burguesia, com debilidades pequeno-burguesas como a “justa retribuição do trabalho”, a “altermundialização”, o “Estado de direito democrático”, o “respeito pelos direitos humanos”, a “Europa social”, a “luta por um mundo melhor”, se não mostrarmos diariamente ao proletariado o sinal de classe pequeno-burguês das propostas conciliadoras, reformistas, pacifistas, alienantes que diariamente lhe são apresentadas? Sem a hegemonia da política proletária dentro dele, esses movimentos, por muito positivos que sejam os seus impulsos espontâneos, degeneram continuamente em sonhos patetas de humanizar e domesticar o capitalismo.

Há quem estude o leninismo em busca de fórmulas que nos dêem a receita mágica para o êxito. Tais fórmulas não existem. O mundo muda continuamente e decorar fórmulas é o caminho mais certo para nos perdermos. Uma só linha de rumo extraio do leninismo: distinguir continuamente os interesses políticos do proletariado dos da pequena burguesia; ver tudo pelos olhos da única classe que está interessada na liquidação até ao fim do capitalismo, na expropriação da burguesia. Desde que tenhamos essa linha sempre presente encontramos as respostas políticas de cada dia. Pelo menos foi isto que eu aprendi do leninismo.

(*) Este artigo foi apresentado, em forma abreviada, nas VIII Jornadas Independentistas Galegas, dedicadas ao “80.º aniversário de Lenine”, no dia 6 de Maio, em Compostela. Ver notícia noutro lugar desta revista.

(1) Lenine, Duas tácticas da social-democracia na revolução democrática, ed. Estampa, Lisboa, 1975, p. 10.

(2) Lenine, Oeuvres, ed. du Progrès, Moscovo, 1977. Tomo 12, p. 505.

(3) Id., p. 126.

(4) “A propósito da revolução nacional”, Maio de 1907. Oeuvres, tomo 12, p. 409.

(5) “A situação e as tarefas da Internacional Socialista”, Novembro de 1914. Oeuvres, 1973, tomo 21, pp. 29-30.



KILLARY E AS ELEIÇÕES ESTADO-UNIDENSES

                                                                          
Os EUA estão divididos.   De um lado estão os que querem preservar o Império mesmo à custa do seu país – são os neocons.  Do outro lado estão os querem salvar os EUA ainda que seja à custa da perda da sua hegemonia imperial. 

A representante dos primeiros é a sanguinária e corrupta Hillary Clinton, responsáveis por incontáveis mortes de civis no Iraque, na Líbia, na Somália, no Iémen e na antiga Jugoslávia (em 1999 apoiou o seu marido na guerra de agressão da NATO). 

Ela é a mulher que, tal como uma ave carniceira, deu uma gargalhada ao saber do assassinato de Kadafi ("Viemos, vimos e matámos", berrou ela).   A sua eventual vitória significará uma alta probabilidade de guerra nuclear. 

O outro candidato, Trump, é o que aceita o retorno a um mundo multipolar a fim de salvar da derrocada o seu próprio país – uma derrocada económica, financeira, monetária, política e moral.   

Apesar da sua vulgaridade, grosseria e algumas ideias tolas ele é certamente o candidato que dá mais garantias à paz mundial e à maioria do povo estado-unidense.   Se estas eleições não forem mais roubadas do que de costume Trump poderá vencer. 

Ter ou não um planeta coberto de cinzas radioactivas depende dos resultados de 8 de Novembro

(Transcrito de resistir.info)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Por dentro do governo invisível: Guerra, Propaganda, Clinton&Trump

                                                                             
John Pilger, Global Research, tradução do Coletivo Vila Vudu 

O jornalista norte-americano Edward Bernays é frequentemente apresentado como inventor da propaganda moderna.

Sobrinho de Sigmund Freud, foi Bernays quem cunhou a expressão "relações públicas", eufemismo para o jornalismo de boatos e mentiras, para burlar eleitores e consumidores.

Em 1929, Bernays persuadiu as feministas a promover o consumo de cigarros pelas mulheres, com um carro que desfilou no Desfile da Páscoa em NY, naquele ano – comportamento então considerado avançadíssimo e de igualdade entre homens e mulheres. 

Uma militante feminista, Ruth Booth, declarou "Mulheres! Acendam outra tocha da liberdade! Derrubem mais um tabu sexista!" A influência de Bernays foi muito além da publicidade. Seu mais retumbante sucesso de publicidade foi ter convencido os norte-americanos a mergulhar no massacre que foi a "1ª Guerra Mundial".

O segredo, disse ele, estava em fazer "a engenharia do consenso" [ing. "engineering the consent"], construir o consenso dentro da opinião pública, de modo a "controlar e dirigir [a opinião pública] como você deseje, sem que homens e mulheres saibam que estão sendo dirigidos".

Para Bernays, esse é "o verdadeiro poder governante em nossa sociedade"; deu-lhe o nome de "governo invisível".

Jamais o governo invisível teve mais poder do que hoje, e jamais foi menos estudado e mais mal compreendido. Em minha carreira de jornalista e cineasta, jamais vivi momento ou circunstância em que a propaganda estivesse tão intrometida na vida de homens, mulheres e crianças como está hoje; e jamais vivi momento em que menos se trabalhasse a favor da verdade e contra a propaganda.

Imagine duas cidades. Ambas sitiadas pelas forças do governo daquele país. Ambas ocupadas por fanáticos que cometem atrocidades terríveis, como degolar gente, por exemplo. Mas há uma diferença vital. Num dos sítios, os soldados do governo são descritos como libertadores pelos jornalistas ocidentais que viajam com a tropa e que narram batalhas e ataques aéreos sempre gloriosos, como cenas de um filme arrasa-quarteirões. E lá estão as primeiras páginas dos jornais, com aqueles heróis fazendo o "V" da Vitória. Praticamente é como se nem houvesse mortos.

Na outra cidade – em país próximo – está acontecendo precisamente a mesma coisa. Forças do governo estão sitiando uma cidade controlada pela mesma ninhada de fanáticos. Uma diferença é que esses fanáticos são apoiados, financiados, alimentados e armados por "nós" (por EUA e Grã-Bretanha). Os terroristas mantêm até um centro 'de mídia' equipado e sustentado por britânicos e norte-americanos. Outra diferença é que os soldados do governo que sitiam essa outra cidade são "os bandidos", condenados por atacar e bombardear a cidade – exatamente o que fazem os soldados "mocinhos", os soldados "do bem", na primeira cidade.

Confuso? Menos do que parece. Esse é o duplo-padrão básico, a própria essência da propaganda. Falo, claro, do sítio à cidade de Mosul, pelas forças do Iraque, apoiadas e financiadas por EUA e Grã-Bretanha; e do sítio à cidade de Aleppo ocupada por terroristas, que está sob ataque de forças do governo sírio apoiadas pela Rússia. O sítio de Mosul é "do bem". O sítio de Aleppo, de resistência contra terroristas invasores... é "do mal".

Muito menos noticiado é que nenhuma dessas duas cidades estaria hoje ocupada por fanáticos nem estaria sendo devastada pela guerra, se Grã-Bretanha e EUA não tivessem invadido o Iraque em 2003. Essa empreitada criminosa foi construída sobre mentiras em tudo semelhantes à propaganda, a mesma propaganda que agora distorce nossa capacidade para compreender a guerra na Síria.

Sem os ensurdecedores tambores batidos pela propaganda travestida como se fosse jornalismo, os monstros do ISIS e da Al-Qaeda e Frente al-Nusra e o resto da gangue jihadista talvez nem existisse; e talvez o povo sírio não estivesse obrigado hoje a lutar para salvar a própria vida.

Alguns talvez lembrem uma série de matérias da BBC em 2003, em que os jornalistas viravam-se para as câmeras de 'informavam' que Blair afinal estaria "vingado" pelo que, na verdade, foi o maior crime do século. As redes de TV nos EUA produziram o mesmo truque para validar o que George W. Bush fazia. Fox News mostrou Henry Kissinger para reforçar as tolices que Colin Powell inventava e repetia. No mesmo ano, logo depois da invasão, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, renomado jornalista norte-americano de investigação. Perguntei a ele: "O que teria acontecido se a 'imprensa mais livre do mundo' tivesse realmente denunciado como propaganda o que, todos sabiam, não passava de propaganda pró-guerra?"

Lewis respondeu que, se os jornalistas tivessem cumprido o dever deles, "pode-se dizer, com boa chance de acertar, que os EUA não teriam invadido o Iraque e não haveria guerra naquele país".

Foi declaração chocante, mas apoiada por outros jornalistas famosos aos quais fiz a mesma pergunta – Dan Rather da CBS, David Rose do Observer e jornalistas e produtores na BBC, que pediram para não ser identificados. Em outras palavras, se os jornalistas tivessem feito jornalismo, se tivessem investigado o que não passava de propaganda, em vez de repetir e amplificar a propaganda sem qualquer investigação, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças estariam vivos, e não haveria ISIS, nem Aleppo nem Mosul estariam sitiadas. Não teria havido o atentado no Metrô de Londres dia 7/7/2005. Não haveria tsunamis de refugiados; não haveria esses campos miseráveis, de concentração de refugiados.

Quando atrocidade terrorista aconteceu em Paris, novembro passado, o presidente François Hollande imediatamente mandou aviões para bombardearem a Síria! E daí brotou mais terrorismo, que gerou, como se previa que gerasse, efeito direito das bombas de Hollande, que a França também já estava "em guerra", "sem perdão". A violência de Estado e a violência jihadista alimentam uma a outra: eis a única verdade que nenhum líder nacional tem coragem de reconhecer.

"Quando a verdade é substituída pelo silêncio" – disse Yevtushenko, dissidente do governo soviético – "o silêncio é mentira."

O ataque contra o Iraque, o ataque contra a Líbia, o ataque contra a Síria aconteceram porque o governante, em cada um desses países, não era fantoche e vassalo do ocidente. A folha corrida de infrações aos direitos humanos, de um Saddam ou de um Gaddafi não teve importância alguma, para as potências atacantes. Grave, nos dois casos, foi que esses governantes resistiram contra obedecer ordens e entregar a empresas norte-americanas o controle dos destinos do país deles.

O mesmo destino teria Slobodan Milosevic, desde o momento em que se recusou a assinar um "acordo" pelo qual entregaria a Sérvia à ocupação, para ser convertida à economia de mercado. O povo da Sérvia foi bombardeado, Milosevic foi acusado e processado no Tribunal de Haia. Não se tolera independência nessa escala. Como WikiLeaks revelou, o presidente Bashar al-Assad da Síria só foi atacado depois que não aceitou, em 2009, que se construísse um oleoduto que atravessaria o país dele, do Qatar até a Europa.

A partir desse momento, a CIA planejou a destruição do governo da Síria, usando como arma seus fanáticos jihadistas – os mesmos que, hoje, estão cercando civis inocentes em Mosul e no leste de Aleppo. Por que nada disso jamais foi tema dos 'noticiários'? Um ex-funcionário do Ministério de Relações Exterior (Foreign Office) da Grã-Bretanha, Carne Ross, responsável por operar as sanções contra o Irã, respondeu-me: "Nós fornecíamos factoides inócuos aos jornalistas, depois de 'desinfetados' pela inteligência. Ou nada dizíamos. Funcionou assim."

O cliente medieval do ocidente, a Arábia Saudita – a quem EUA e Grã-Bretanha vendem bilhões de dólares em armas – está hoje destruindo o Iêmen, país tão pobre que, nos melhores tempos, 50% das crianças sofrem de subnutrição. Procurem no YouTube e verão o tipo de bombas gigantes – "nossas bombas" – que os sauditas lançam contra vilas miseráveis e contra casamentos e funerais. As explosões são equivalentes à de pequenas bombas atômicas. Os operadores de canhões e armas trabalham lado a lado com especialistas britânicos. Nada disso jamais foi 'notícia', nos 'noticiários' noturnos.
                                             
A propaganda é mais efetiva quando o consenso é construído por gente de fina educação – Oxford, Cambridge, Harvard, Columbia – com carreira no 'jornalismo' da BBC, do Guardian, do New York Times, do Washington Post. Essas organizações são conhecidas como "a imprensa liberal". Se autoapresentam como tribunas progressistas, cheias de luzes 'críticas', a serviço da mais recomendável visão de mundo dos mais progressistas: são contra o racismo, a favor do feminismo e dos grupos LGBT. E belicistas ferozes.

Ao mesmo tempo em que falam na defesa de causas feministas, apoiam os grupos e guerras mais violentos, que negam todos os direitos a incontável número de mulheres, inclusive o direito à vida.

Em 2011, a Líbia, então um estado moderno, foi destruída até ser convertida num monte de ruínas, sob o pretexto de que Muammar Gaddafi estaria cometendo genocídio contra o próprio povo. A 'notícia' esteve em todos os 'noticiários' em todo o mundo, incansavelmente. Sempre sem prova alguma. Sempre foi mentira.

Na verdade, Grã-Bretanha, Europa e EUA queriam o que gostam de chamar de "mudança de regime" – codinome 'jornalístico' para "golpe para derrubar governo e estado não 'cordatos'" – na Líbia, o maior produtor de petróleo do continente africano. A influência de Gaddafi no continente e, sobretudo, a independência de um governo altamente popular no próprio país, eram forças que não podiam ser toleradas. Então Gaddafi foi assassinado por loucos fanáticos, apoiados e armados por EUA, Grã-Bretanha e França. Hillary Clinton festejou rindo, diante das câmeras a morte de Muamar Gaddafi, amado de seu povo: "Viemos, vimos, ele morreu!"

A destruição da Líbia foi um triunfo da 'mídia-empresa'. Com os tambores da guerra já soando no ar, Jonathan Freedland escreveu no Guardian: "Embora os riscos seja bem reais, há argumentos de muito peso a favor da intervenção". Intervenção é terminologia de salão de chá do Guardian, cujo significado real, para a Líbia, foi morte e destruição.

Segundo os próprios registros oficiais da organização, a OTAN disparou 9.700 "missões de ataque" contra a Líbia, das quais mais de 1/3 visaram alvos civis. Usaram mísseis com ogivas de urânio. Basta examinar as imagens das ruínas de Misurata e Sirte, e as covas coletivas encontradas pela Cruz Vermelha. O relatório da Unicef registra que "a maior parte das crianças mortas tinham idade inferior a 10 anos". Consequência direta dessa 'ação', Sirte tornou-se capital do ISIS.

A Ucrânia é outro triunfo da mídia-empresa. Jornais respeitáveis como liberais, como New York Times, Washington Post e o Guardian e emissoras líderes mundiais de TV e rádio, como BBC, NBC, CBS, CNN tiveram papel decisivo na operação de propaganda para condicionar o público telespectador e radioaudiente a aceitar uma nova e muito perigosa guerra fria. Todas essas empresas distorceram a verdade dos eventos na Ucrânia, apresentados como atos malignos cometidos pela Rússia. Só mentiras. O golpe na Ucrânia em 2014 foi trabalho dos EUA, auxiliados pela Alemanha e pela OTAN.

Essa inversão da realidade é tão pervasiva, que nada se vê-ouve-lê em veículos da mídia-empresa sobre as provocações militares dos EUA, contra a Rússia. Nada é notícia. Todos os fatos são suprimidos e ocultados por trás de uma campanha de implantar o medo como só vi no tempo de minha juventude, na primeira guerra fria. Mais uma vez, os 'vermelhos' estão chegando, os Ruskies vão pegar vocês, comandados por um neo-Stálin, que é como a revista The Economist mostra Putin, o monstro.

A ocultação da verdade sobre a Ucrânia é um dos mais impressionantes bloqueios de noticiário de que consigo lembrar. Os fascistas autores do golpe em Kiev são da mesma ninhada dos que apoiaram a invasão nazista contra a União Soviética em 1941. De todos os governantes que sabem do neocrescimento do neoantissemitismo neofascista na Europa, só o presidente Vladimir Putin tem dado repetidos sinais de alerta. Mas é Vladimir Putin, e Vladimir Putin não conta.

Muitos na mídia ocidental trabalharam muito para apresentar a população de russos étnicos falantes de russo da Ucrânia como se fossem 'estrangeiros' no próprio país, como agentes de Moscou, praticamente nunca como ucranianos desejando uma federação dentro da Ucrânia e como cidadãos ucranianos resistindo contra golpe orquestrado do exterior contra o governo que os próprios ucranianos elegeram.
                                                             
Pode-se dizer que há quase uma joie d’esprit de reunião de escola de belicistas. Os batedores de tambor do Washington Post incitando à guerra com a Rússia são os mesmos redatores de editoriais que publicaram a mentira de que Saddam Hussein teria (não tinha) armas de destruição em massa.

Para a maioria de nós, a campanha presidencial nos EUA é show midiático freak, no qual Donald Trump é o arquivilão. Mas Trump é amaldiçoado por todos os poderosos nos EUA por motivos que pouco têm a ver com o comportamento e as opiniões esdrúxulas do candidato. Para o governo invisível em Washington, o imprevisível Trump é um obstáculo ao projeto dos EUA para o século 21: manter a hegemonia e a dominação pelos EUA no mundo e subjugar a Rússia e, se possível, também a China.

Para os militaristas em Washington, o real problema com Trump é que, em seus momentos de lucidez, ele não dá sinais de desejar guerra contra a Rússia; diz que quer conversar com o presidente russo, não fazer guerra contra ele; diz que quer conversar com o presidente da China. No primeiro debate com Hillary Clinton, Trump prometeu que não será o primeiro a usar armas atômicas em seja qual for o conflito. Disse que "Com certeza não dispararei o primeiro ataque. Se a alternativa nuclear acontece, acabou-se." Como se fosse novidade.

Estaria falando a sério? Quem sabe? Trump muito frequentemente se contradiz ele mesmo. Mas o que está bem claro é que Trump é considerado grave ameaça ao status quo mantido pela vasta máquina da segurança nacional que governa os EUA, não importa quem esteja na Casa Branca. A CIA o quer derrotado. O Pentágono o quer derrotado. A mídia o quer derrotado. Até o próprio partido de Trump o quer derrotado. O homem é uma ameaça aos governantes do mundo – diferente de Clinton que não deixa dúvidas de que, sim, está pronta a declarar guerra a duas superpotências atômicas, Rússia e China.

Clinton conhece a receita, do que ela própria não se cansa de vangloriar-se. O currículo dela é assustadora prova do que ela é capaz. Como senadora, apoiou o banho de sangue no Iraque. Quando concorreu contra Obama em 2008, ela ameaçou "obliterar totalmente" o Irã. Como secretária de Estado, participou dos planos secretos e ilegais para destruir os governos da Líbia e de Honduras e pôs em andamento a possibilidade de confronto com a China. Agora, só fala de uma Zona Aérea de Exclusão que ela quer ver implantada sobre a Síria – provocação de guerra direta contra a Rússia. Clinton pode bem vir a ser a mais perigosa presidente dos EUA que vi chegar ao poder durante toda minha vida – título para o qual a competição é duríssima.

Sem um fiapo de prova, Clinton pôs-se a acusar a Rússia de apoiar Trump e de ter hackeado seus emails. Divulgados por WikiLeaks, esses emails revelam que tudo que Clinton diz no privado, em discursos e "palestras" compradas por ricos e poderosos é o exato oposto do que ela diz publicamente. Por isso é tão furiosamente importante silenciar e ameaçar Julian Assange. Como editor de WikiLeaks, Assange conhece a verdade. E deixem-me esclarecer desde já e tranquilizar os muitos que se preocupam: Assange está bem; e WikiLeaks está operando a pleno vapor.

Hoje, o maior corpo de guerra liderado pelos EUA desde a 2ª Guerra Mundial está em ação – no Cáucaso e no leste da Europa, na fronteira com a Rússia e na Ásia e no Pacífico, onde o alvo é a China. Tenham em mente essa informação, quando o circo eleitoral alcançar o clímax, dia 8 de novembro. Se Clinton vencer, um coro de comentaristas beócios celebrará a coroação dela como se fosse passo gigantesco na libertação das mulheres. Nenhum deles falará das vítimas de Hillary Clinton: mulheres sírias, mulheres iraquiana, mulheres líbias. Nenhum deles mencionará os exercícios de defesa civil em andamento na Rússia – para provocar a Rússia. Nenhum deles fará qualquer referência às "tochas da liberdade" de Edward Bernay.

O porta-voz de George Bush chamou as mídia-empresas, certa vez, de "possibilitadores cúmplices".

Vindo de alto funcionário de governo cujas mentiras, possibilitadas pelas mídia-empresas, causaram todo aquele sofrimento, essa designação é como um aviso da história.

Em 1946, o acusador no Tribunal de Nuremberg disse, falando da mídia-empresa alemã: "Antes de qualquer grande agressão, eles iniciavam uma campanha pela mídia, planejada para enfraquecer as vítimas e preparar psicologicamente o povo alemão para o ataque que viria. No sistema de propaganda, os veículos diários das mídia-empresas, jornais e rádios, sempre foram as armas mais decisivas e mais mortais."

(Com o Diário Liberdade)

domingo, 30 de outubro de 2016

Aluno de doutorado é impedido de dar aulas em universidade da Alemanha por ser comunista

                                                           

Decreto de 1972 determina que aspirantes a cargos públicos filiados a partidos devem pedir autorização para serviço secreto alemão para evitar 'extremismos'
      
Kerem Schamberger, de 30 anos, formado em comunicação e aluno de doutorado na Universidade Ludwig-Maximilian (LMU, sigla em alemão), em Munique (Alemanha), está sendo impedido de lecionar na mesma instituição por ser comunista.

De acordo com um decreto de 1972, todos os funcionários do serviço público do país devem passar por uma averiguação do Estado para evitar 'radicalismos', de modo que, para trabalhar no setor, membros de partidos precisam apresentar um pedido de aprovação para o serviço secreto alemão.

Shamberger, além de filiado, é o porta-voz em Munique do Partido Comunista Alemão, o DKP. Ele também já foi porta-voz da Juventude Trabalhadora Socialista Alemã, apoiou o grupo Juventude Vermelha e a Associação das Vítimas do Regime Nazista – Federação dos Antifascistas e das Antifascistas, todos vigiados pelo Departamento Federal de Proteção da Constituição, que os classifica como extremistas.

A LMU pediu em julho autorização para que Shamberger pudesse lecionar — exigência para todos os alunos de doutorado —, mas ainda não obteve resposta.

Para ele, ser impedido de lecionar é anticonstitucional, visto que a Carta Magna alemã garante a livre escolha de uma profissão. Ao jornal diário Süddeutsche Zeitung, Shamberger afirmou, no último dia 21, que a situação pela qual ele está passando contribui para “demonizar os comunistas” e que é uma forma de intimidação para aqueles que pensam em se filiar ao DKP.

“Conheço jovens que queriam entrar para o partido, mas que pensam duas, três vezes antes porque sabem as consequências que isso pode ter caso queiram fazer carreira no setor público”, disse.

À imprensa, as autoridades disseram que não podem dar detalhes do caso por questões de privacidade . A LMU e o orientador de Shamberger, Michael Meyen, já declararam apoio ao doutorando.

O chamado “Decreto dos Radicais” foi criado em 1972 durante o governo do chanceler Willy Brandt (1969 – 1974) e especifica que a fidelidade à ordem constitucional deve ser um requisito para trabalhar no setor público. A intenção, porém, quando o decreto foi criado, era principalmente acabar com a influência do comunismo na então Alemanha Ocidental.

Desde que a lei foi criada até 1991, cerca de 1,4 milhão de pessoas passaram pelo processo pelo qual Shamberger está passando agora. Só este ano, entre janeiro e agosto, 537 candidatos passaram pela checagem.

Atualmente, apesar de o decreto ainda vigorar, cada Estado do país o aplica de maneira diferente. Além disso, são cada vez mais raros os casos em que pessoas são impedidas de ocuparem cargos públicos por causa de suas filiações.

(Com Opera Mundi)

Anita Prestes lança livro sobre o pai, Luiz Carlos Prestes, na III Bienal do Livro de Brasília

                                                                    

                (Entrevista concedida ao Correio Braziliense)

A escritora nasceu em privilegiado ninho político, sendo filha de Luiz Carlos Prestes e de Olga Benario


Levando em conta que cada momento histórico tem características particulares, a escritora Anita Leocadia Prestes é precavida o suficiente para não tecer comparações quando o tema cerca a atual crise política nacional. Nascida em privilegiado ninho político — filha de Luiz Carlos Prestes e de Olga Benario –, Anita registra muitas certezas na obra Luiz Carlos Prestes – Um comunista brasileiro, com lançamento às 11h de hoje, no Auditório Manoel de Barros do Estádio Nacional Mané Garrincha, com sessão de autógrafos prevista para depois de um debate no local. O evento integra a III Bienal Brasil do Livro e da Leitura.

Pesquisas em atas de reuniões do Partido Comunista, manuscritos em correspondências pessoais, dados de autocrítica e os bastidores da relação do pai com o partidão, levaram a autora, presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes e professora do programa de pós-graduação em História Comparada da UFRJ, a certezas, numa conjuntura que a coloca em evidência ainda mais ressaltada, dada a indicação ao Prêmio Jabuti.

Assistente privilegiada do pai, com mais de 30 anos aplicados numa carreira e proximidade invejáveis, Anita Leocadia, aos 79 anos, refuta qualquer descrença paterna no Brasil, mesmo com legados duros para o revolucionário destratado tanto a ponto da abraçar a clandestinidade. “Prestes possuía o otimismo da vontade, considerando que nosso povo encontraria o seu caminho da emancipação social e nacional”, pontua a escritora, ao Correio.

Preservar a história dos pais, por meio do instituto mencionado, leva a doutora em história social ao reforço da militância de ex-exilada que se especializou em economia e filosofia na antiga União Soviética. “No site do instituto, abordamos temas atuais do ponto de vista das posições marxistas”, explica. 

Longe do esfacelamento do bem comum proposto na sociedade absorta em consumo e individualidade, Anita Leocadia não pestaneja, ao defender visões pessoais. “As ideias comunistas têm uma base científica revelada por Karl Marx em sua obra, principalmente em seu livro O capital. Portanto, continuam válidas e devem ser divulgadas e aplicadas de maneira criativa e não como dogmas”, observa.

Entrevista // Anita Leocadia Prestes

Luiz Carlos Prestes teve imperfeições? Qual foi o maior pecado estratégico, no campo político?

Quando convencido do fracasso de uma determinada posição política, Prestes jamais vacilou em rever os erros políticos cometidos por ele e pelo PCB, partido do qual foi secretário-geral durante quase 40 anos. A partir dos anos 1970, Prestes passou a considerar que os principais erros cometidos pela direção do PCB foram de caráter estratégico, ou seja, a orientação política, que se mostrou errônea, de postular que no Brasil seria necessária uma revolução nacional libertadora como primeira etapa para a realização da revolução socialista.

O audiovisual se enamorou das reproduções das figuras dos seus pais. Quando a senhora assiste às produções, o que percebe de mais fantasioso e em que qualidade as obras se aproximaram da realidade?

Penso que, entre os filmes existentes sobre meus pais, o melhor ainda é o filme Olga, pois manteve algum compromisso com a verdade. O que não se deu, por exemplo, com o filme O Velho, que não passa de uma falsificação da história ao denegrir a imagem dos meus pais e dos comunistas.

Getúlio Vargas, sob algum prisma na ação do governo, é digno de alguma ínfima admiração?

Não penso que Getúlio Vargas mereça admiração dos trabalhadores, dos explorados e dos oprimidos. Creio que é necessário analisar sua atuação política dentro do contexto da época. Ele representou os interesses de determinados setores das classes dominantes do Brasil no período em que viveu.

Ao criar o livro, uma segura fonte de referência para qualquer brasileiro, qual o maior desafio?

Como digo na apresentação da obra, não tive a pretensão de produzir a biografia definitiva de Luiz Carlos Prestes, porque na história e na historiografia não existe nada definitivo. Novos documentos podem surgir e transformar a interpretação dos fatos. Também não há a pretensão de revelar a grande e única verdade sobre o célebre Cavaleiro da Esperança. Como toda biografia, é um recorte da vida do biografado.

FONTE: Correio Braziliense

(Com Prestes a Ressurgir)

Nota da Frente Nacional de Luta da Classe Trabalhadora (FNCLT)

                                                           
                     Em defesa da Revolução Bolivariana
A Frente Nacional de Luta da Classe Trabalhadora (FNLCT) repudia categoricamente o irresponsável chamado à “greve nacional” feito pela direita pró-imperialista e pela oligarquia apátrida, no marco do plano de guerra não convencional contra o povo venezuelano, dirigido pelo Comando Sul dos Estados Unidos com a finalidade de derrubar o Governo nacional e destituir o processo bolivariano de mudanças.

Ante o aumento do confronto político determinado pela pretensão recolonizadora do imperialismo norte-americano, faz-se necessário que a classe operária e o povo trabalhador da cidade e do campo lutem e trabalhem intensamente para defender a soberania nacional e as conquistas democráticas, aprofundando o processo revolucionário.

A agressão multifacetada contra nosso povo deve ser derrotada com mais e melhor revolução. Toda entidade de trabalho ou atividade laboral que pretenda ser paralisada ou sabotada pelo patronato e a extrema direita, deve ser tomada sob o controle das e dos trabalhadores. Porém, também é preciso exigir do Governo maior coerência entre o dizer e o fazer, maior compromisso com os interesses da classe operária e do povo trabalhador para derrotar os grupos monopólicos, os especuladores e a burocracia corrupta.

Pela derrota do plano desestabilizador!
Pelo aprofundamento da Revolução!

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

sábado, 29 de outubro de 2016

Como funciona a máquina de propaganda do Ocidente

                                                                     

Nikolai Starikov

1. O seu princípio fundamental é a fragmentação. Isto pode parecer estranho, mas a fragmentação é o fundamento supremo da lavagem ao cérebro ocidental. 

Não é segredo que o sistema de ensino nas "democracias avançadas" está concebido de forma a criar artificialmente uma visão muito estreita do mundo. Em contrapartida, o sistema escolar soviético tenta criar uma visão abrangente do mundo, mesmo entre os alunos mais preguiçosos, enchendo-lhes a cabeça com alta matemática, física, química e astronomia, por mais improvável que seja eles virem a usar todos esses conhecimentos. A compreensão da forma como o mundo está interligado, a causa e o efeito, e a capacidade de juntar tudo e analisar diversos factos, chama-se "pensamento analítico". É o primeiro passo para a criatividade. 

Todas estas coisas desapareceram do sistema de ensino ocidental. O nosso país tentou adotar este sistema, numa "reforma do ensino", que tem um objetivo claro: a fragmentação da sociedade, não apenas em classes, mas em castas. A casta dirigente recebe um ensino clássico em escolas privilegiadas, as Cambridges e Eatons, em que se ensina uma visão abrangente do mundo e em que são forjados os futuros líderes e as elites do mundo ocidental. 

Todos os restantes recebem um "sistema de ensino avançado" que, na prática, aboliu os trabalhos de casa, e os estudantes acabam por quase nem saber ler. Quem quer que tenha frequentado a escola na URSS e conheça as escolas ocidentais poderá dizer como o programa na União Soviética era muito mais sólido. Os nossos estudantes do liceu resolviam problemas que os ocidentais estudavam na faculdade. 

A ênfase neste sistema de ensino no Ocidente não acontece por acaso. 

A fragmentação da consciência e a falta de uma visão abrangente do mundo são características da percepção da realidade de uma criança. Afinal, as crianças vivem no seu mundo, um mundo de jogos, de contos de fadas e de sonhos. Acabam por desenvolver uma visão adulta do mundo, com base na experiência, observando o que os rodeia segundo o que é a realidade. 

2. O objetivo do sistema de ensino ocidental é criar crianças. Crianças crescidas. Os únicos adultos no sistema são os formados nas universidades de elite que recebem um ensino a sério. Daí, a ingenuidade espantosa dos ocidentais que caem facilmente em todo o tipo de absurdos, se lhos repetirem na TV. Por exemplo, a ideia de que os EUA são um farol de liberdade e democracia para todo o mundo, que, em vez de defenderem os seus interesses, apenas procuram disseminar uma "liberdade" bastante nebulosa. 

Uma criança é fácil de convencer – o segredo é repetir-lhe uma história com convicção e energia. A máquina da informação ocidental é convincente porque regurgita o mesmo ponto de vista por toda a parte: não se apresenta outro ponto de vista. Ocorre o mesmo efeito, quando uma criança faz a mesma pergunta, primeiro à mãe, depois ao pai e, finalmente à avó. Perante a mesma resposta, convence-se que assim deve ser. 

3. As crianças adoram brincar e divertir-se e a civilização ocidental moderna amplia a brincadeira e o divertimento eternamente. Há milhares de jogos e centenas de aplicações para jogos. Há filmes, livros, redes e locais especiais para jogar. Faz-se tudo para garantir que os adultos brinquem tanto quanto queiram. Será importante para a sociedade e para a humanidade, no seu todo, que as pessoas brinquem assim tanto? 

Qual é o objetivo da brincadeira para a espécie humana? Não se prevê qualquer benefício. Mas é conveniente poder governar indivíduos que só querem divertir-se, como crianças. Esta tendência leva à imaturidade. As pessoas não querem ter filhos – não admira, já que as crianças não constituem família nem procriam. É-lhes desnecessário. Ter uma família e criar filhos nossos geralmente deixa pouco tempo livre para os jogos e para o "divertimento". 

Estas três características da civilização ocidental estão por trás da estratégia usada para manipular o Zé Povinho. 

Colocam-se com êxito, na cabeça dele, pensamentos coloridos e fragmentados. Este Zé Povinho, homem-criança, o ocidental médio, não tem uma compreensão real do que acontece e está plenamente disposto a acreditar numa história, se ela for bastante colorida e repetida bastantes vezes. 

Então, como distinguir uma manipulação de uma apresentação honesta dos factos? 

    1. Os manipuladores vão apelar às nossas emoções, usando os sentimentos – e uma quantidade mínima de factos – para criar uma impressão falsa. 
     2. Os manipuladores vão apresentar os factos na sequência errada, violando a lógica, invertendo a causa e efeito. Vão mostrar, invariavelmente, um fragmento do que está a acontecer, mas nunca o quadro completo. 

Reparem como as campanhas dos meios de comunicação ocidentais, assim como as dos nossos liberais pró-ocidentais, que estão ligados ao Ocidente por um cordão umbilical invisível, são sempre fragmentadas e emotivas. 

Em agosto de 2008, "eram todos georgianos". Noutra altura, estavam a lutar contra a "tirania de Saddam Hussein". Uns anos depois, "reinava grande liberdade na Ucrânia", quando queimaram e apedrejaram a força policial desarmada "Berkut". Depois, de repente, estão cheios de preocupações quanto ao destino de Alepo, embora ainda ontem, não se preocupassem minimamente com o destino de Donetsk ou de Damasco e de Homs. A seguir, metem os pés pelas mãos quanto a "Putin a envenenar Litvinenko com polónio", e ninguém se preocupa em saber se isto foi verdade – um método assim certamente já teria envenenado mais de uma pessoa, possivelmente toda a cidade de Londres. 

Colocam um pequeno fragmento de informações na boca do Zé Povinho ocidental, um homem-criança, e embrulham-no numa bela imagem televisiva. A imagem mostra camiões queimados, mas uma total ausência de crateras de bombas. Todos os que veem acreditam que a imagem mostra o resultado de um ataque da força aérea russa a uma coluna humanitária. Ninguém denuncia o facto de que, se a coluna tivesse sido realmente atingida por bombas aéreas, os camiões não se tinham incendiado, teriam sido pulverizados. Mas a imagem é a cores vivas e tão convincente! 

Quem é o culpado pelo dilúvio de refugiados na Europa? Obviamente, os dirigentes europeus que abriram as comportas do continente a milhões de refugiados, principalmente do Afeganistão e de outros países do Médio Oriente. Mas o que é que diz a máquina de propaganda ocidental? A inundação de refugiados é culpa da Rússia, porque esta dificulta o derrube de Assad. Se a Rússia não tivesse interferido, a guerra já estaria acabada e ninguém teria que fugir para a Europa. 

A mentira não é apenas uma mentira óbvia, é uma dupla mentira: Se anseiam pela paz na Síria, não apoiem quem a violou – ou seja, a "oposição". Há seis anos, não havia refugiados sírios rumo à Europa, embora Bashar al-Assad estivesse vivo e saudável como seu dirigente. As ações da Rússia destinam-se a repor esse status quo anterior à guerra. Mas a Rússia está a ser acusada pelo derramamento de sangue e pela destruição da Síria e também pelo facto de uns 100 mil refugiados terem ido parar à Alemanha. 

Quando o Pentágono ou o Departamento de Estado, muito a sério, referenciam "provas do Facebook", não estão a gozar nem a ser desonestos. Também eles foram educados PARA ISSO. É por isso que alguns deles acreditam genuinamente que essas informações são verdadeiras. Evidentemente, os adultos, a mamã e o papá nunca mentiriam ao seu filhinho, não é? Portanto, a criança acredita genuinamente que, se se recusar a comer a sopa, aparecerá um papão assustador, zangado com a sua falta de apetite – com todas as consequências. 

A criança nem sequer concebe a ideia de que não existe nenhum papão e que a mãe o inventou, para atingir o seu objetivo prático (alimentar a criança relutante). Um ocidental não pode acreditar que o filme sobre "ataques russos a uma coluna humanitária" possa ter sido fabricado, ou que o MI-6 possa ter envenenado Litvinenko com sais de tálio, ou que os meios de comunicação ocidentais desçam tão baixo como a mostrar "motins em Moscovo" com palmeiras ao fundo (porque, na realidade, a cena passa-se com motins em Atenas). Têm a certeza que um "país civilizado" nunca entraria numa falsificação destas? 

Assim, agora o Ocidente e a Quinta Coluna na Rússia "são residentes de Alepo" ("Je suis Aleppo!"), apesar de nenhum deles se importar com a Síria em geral e com Alepo em particular. Só que, agora, os projetores do circo de informações ocidentais estão virados para aquele lado. Portanto, toda a gente olha obedientemente naquela direção, observando apenas o que lhe mostram. 

Mas não se preocupem, daqui a nada vão esquecer tudo sobre Alepo. Vão mostrar-lhes e contar-lhes um conto assustador, novinho em folha, e o infantil Zé Povinho vai acreditar nisso. Vão começar a preocupar-se com alguém ou com qualquer coisa… até que a máquina de propaganda ponha em destaque outros factos, noutro país, deixando de noticiar a tragédia de Donbas ou das diversas cidades da Síria, ou do Iémen, ou de centenas de outros locais do planeta, cujas tragédias diárias recebem dos meios de comunicação ocidentais apenas um frio encolher de ombros. 

15/outubro/2016
O original encontra-se no blogue de Nikolai Starikov e a versão em inglês em 
russia-insider.com/en/politics/how-western-propaganda-machine-works/ri17016 
Tradução de Margarida Ferreira. 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .