sexta-feira, 15 de maio de 2020

Não vamos nos esquecer das "Quatro peças sacras" de Verdi domingo às 2 da tarde na Rede Minas

                                                                                    

Uma das últimas obras de Giuseppe Verdi, “Quatro peças sacras”, apresenta mais que uma magnífica melodia. Por trás das notas, um universo de curiosidades que revela grandes momentos históricos e personalidades. O concerto executado pela Orquestra Sinfônica Heliópolis, com regência do maestro Isaac Karabtchevsky, é exibido na íntegra, pela primeira vez, no programa Harmonia, da Rede Minas, neste domingo (17).

“Quatro peças sacras” traz as composições “Ave Maria”, “Stabat Mater”, “Laudi alla Vergine Maria” e “Te Deum”. A primeira, que tem o nome da mãe de Cristo, mostra em sua poesia musical e religiosa uma escala enigmática criada por Adolfo Crescentini. Esse compositor lançou, em 1888, na "Gazetta Musicale di Milano", um desafio para compositores criarem a harmonização de uma sequência de tons e notas. Verdi assumiu a disputa e o resultado foi essa obra genial.

O “Stabat Mater” também tem, em sua origem, um conteúdo recheado de melodias e singularidades. Embora não se saiba a origem do texto, ele foi atribuído a São Boaventura ou a Jacopone de Tobi, entre os séculos XI e XII. Em 1570, a letra utilizada em cultos foi proibida pelo Concílio de Trento e só retornou às igrejas em 1727. Depois de mais de 150 anos, o rito religioso ganha sonoridade com a composição de Verdi.

“Quatro peças sacras” ainda apresenta mais curiosidades. Verdi usou os versos do maior poeta italiano, Dante Alighieri, em “Laudi alla Vergine Maria”. O hino cristão “Te Deum” foi atribuído a diversos santos e ganhou a sonoridade através de grandes compositores da história, de Mozart a Verdi.

Apresentado pelo jornalista Clóvis Ribeiro, o Harmonia com o concerto “Quatro peças sacras”, de Giuseppe Verdi, vai ao ar no próximo domingo (17/05), às 14h, pela Rede Minas. O programa também pode ser visto, no mesmo horário, no site da emissora: redeminas.tv.

(Com Tatiana Coutinho/Rede Minas)

Associação chinesa vai premiar jornalistas por microvídeos e fotos sobre a pandemia


                                                                     
No final de 2018, a FENAJ - Federação Nacional dos Jornalistas - assinou um convênio de cooperação com a ACJA – All-China Journalists Association, para o intercâmbio de informações com os jornalistas chineses sobre a iniciativa econômica e cultural da China, chamada de Nova Rota da Seda.

Em outubro de 2019, foi criada a Plataforma de Cooperação de Jornalistas da Rota da Seda, com uma estrutura formal para organizar a troca de informações e as atividades de intercâmbio. Nesse sentido, uma atividade foi proposta para cooperar com o site da CRI – Rádio Intercontinental da China, chamada de “Espírito Indomável”.

Em que consiste?

A FENAJ, como membro formal dessa Plataforma convoca os jornalistas brasileiros a enviar microvídeos, de preferência de até 1 minuto de duração, e também fotografias, mostrando os esforços, o panorama e os possíveis resultados na luta contra a pandemia do COVID-19. Mostrar a valentia, o otimismo, a ajuda mútua e o grande amor entre os seres humanos. Incluindo o trabalho dos profissionais de imprensa.

Os vencedores – autor e entidade organizadora mais ativa – ganharão uma viagem à China.

Os materiais devem ser enviados à FENAJ, pelo e-mail fenaj@fenaj.org.br, até o dia 31 de maio.
Especificações técnicas dos materiais:

1. Os microvídeos deverão estar em formato MP4. Podem ser em versão horizontal ou vertical. Os vídeos de até 1 minuto terão preferência.

2. As fotos devem estar em formato JPG, com uma breve descrição em inglês.


quinta-feira, 14 de maio de 2020

Eleições no Sindicato dos Jornalistas serão dias 27, 28 e 29 de maio


Jornais cortam salários e jornadas durante pandemia

                                                                                                     Sérgio Lima/PODER 360
                                                Jornais impressos expostos na banca da rodoviária

Funcionários da Folha de S.Paulo concordaram, na 3ª feira (12.mai.2020), com a redução de 25% do salário e da jornada de trabalho. A diminuição, que valerá por 3 meses a partir de junho, afeta repórteres, fotógrafos e editores em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Em sua proposta, a Folha promete auxílio alimentação de R$ 150 por mês, além de reembolso de gastos extras com o trabalho remoto; estabilidade de emprego por até 1 ano –profissionais demitidos nesse período terão direito a indenização de 70% sobre os ordenados restantes; e manutenção do plano de saúde até 31 de dezembro, mesmo em caso de demissão. Procurado, o jornal afirmou que a redução não atinge funcionários do portal de internet UOL, que também integra o Grupo Folha.

A Folha, jornal de maior influência no país e que completa 100 anos em 2021, foi a última grande publicação a anunciar esse tipo de acordo com seus profissionais. Outros grandes veículos da mídia jornalística já haviam adotados medidas de cortes de gastos por causa dos efeitos da pandemia de coronavírus.

A direção do jornal Correio Braziliense, que pertence ao Grupo Diários Associados, decidiu também na 3ª feira (12.mai) cortar 25% do salário de parte dos jornalistas, diagramadores, designers, fotógrafos e funcionários do setor administrativo. 

Segundo apurou o Poder360, as reduções não afetarão os contracheques dos repórteres que atuam diretamente nas coberturas de economia, política nacional e no jornalismo local.

Por causa da medida, os profissionais do Correio Braziliense fizeram uma assembleia virtual e decidiram paralisar as atividades: alegam que os salários de abril ainda não foram quitados integralmente e pedem melhores condições de trabalho. 

Os funcionários do jornal realizarão nova assembleia). A empresa não havia se manifestado publicamente sobre os cortes quando este texto foi concluído.

Pelo menos 15 outras empresas de jornalismo decidiram cortar salários e jornadas de trabalho durante a pandemia. Também houve casos de demissões. Leia infográfico preparado pelo Poder360 sobre assunto:

                                                                               

Na avaliação de presidente do SJSP (Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo), Paulo Zocchi, a hipótese de redução de salário num momento de crise pode impactar negativamente a qualidade do trabalho jornalístico. 

“Para cumprir a função essencial de informar a população neste momento de calamidade pública, os jornalistas não têm poupado esforços. Há profissionais colocando-se em situação de risco ampliado de contágio (risco para si mesmos e para as suas famílias), durante a cobertura da pandemia”, diz.

PREVISÃO LEGAL

A MP 936, de 1º de abril, que institui o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, apresenta medidas trabalhistas alternativas durante a pandemia. O texto estabelece a redução de até 70% do salário dos funcionários, com redução paralela da jornada de trabalho, por até 3 meses. 

De acordo com a medida provisória, as reduções de salários podem ser de 25%, 50% ou 70%. Em alguns dos casos, a mudança pode ser feita por negociação individual, sem a participação do sindicato ao qual o empregado está vinculado.

Quando o corte for de 25%, a alteração pode ser realizada por acordo individual entre o patrão e o empregado, independente da faixa salarial. Já nas reduções de 50% e 70% ou suspensão de contrato, os acordos individuais só poderão ser firmados com empregados que ganham menos de R$ 3.135 ou mais de R$ 12.202,12. Os trabalhadores que recebem de R$ 3.136 a R$ 12.202,11 só poderão ter seus contratos modificados por acordo ou convenção coletiva, com a participação do sindicato.

COMO FUNCIONA A JORNADA MENOR

Os veículos de comunicação adotam modelos diferentes para adaptar a equipe a uma jornada de trabalho em média 25% menor.

Os jornalistas já obedecem a uma legislação específica e mais favorável a essa categoria na comparação com várias outras. A regra determina jornadas de apenas 5 horas diárias e no máximo duas horas extras para colaboradores de empresas jornalísticas. 

Ou seja, os profissionais de imprensa só podem, de acordo com a lei, trabalhar até 7 horas por dia, de 2ª feira a sábado –42 horas por semana.

Essas regras estão na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), nos seus artigos 302 e 316, num capítulo específico chamado “Dos Jornalistas Profissionais”.

A maioria das empresas antes da pandemia de covid-19 adotava 1 sistema de trabalho de cerca de 8 horas por dia,  mas apenas de 2ª a 6ª feira e com folgas nos fins de semana. 

As equipes de jornalistas que trabalhavam em plantões aos sábados e domingos ganhavam folgas para serem gozadas ao longo da semana subsequente ou aumentavam seus saldos em bancos de horas –e essas horas eram usadas em datas posteriores acertadas com as direções dos veículos.

Segundo apurou o Poder360, a adaptação da redução de salários e de jornadas de trabalho tem variado entre os jornais.

Alguns veículos têm simplesmente reduzido a jornada de seus jornalistas para 4 dias por semana. Por exemplo, o profissional trabalha de 2ª a 5ª feira e folga na 6ª feira, sábado e domingo.

Outros têm preferido manter o sistema como está atualmente e concedem folgas emendadas de 6 a 7 dias por mês para os jornalistas que tiveram o corte de 25% no salário e na jornada.

Em geral, esses acordos têm sido realizados com o acompanhamento de sindicatos locais. Sem a adoção dessas medidas, vários jornais teriam de ter cortado postos de trabalho em suas Redações.

O jornal digital Poder360 não adotou até o momento nenhum tipo de medida para reduzir salários de seus profissionais.

CNN É ACUSADA DE IRREGULARIDADES

A CNN Brasil, que estreou no país em março, é alvo de acusações sobre possíveis irregularidades na contratação de repórteres cinematográficos. Além disso, o canal de notícias estaria ignorando as normas sobre escalas de plantões –que estipulam 1 dia de folga a cada 6 trabalhados– e o pagamento de horas extras.

O chefe de Redação da emissora em Brasília, Roberto Munhoz, declarou que a empresa pretendia seguir um esquema em que para cada 12 dias trabalhados seriam concedidos 2 dias de folga, conforme a regra legal que é adotada em São Paulo para a categoria dos jornalistas.

Segundo o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, o regime é ilegal em Brasília. “O SJPDF compreende essa jornada como ilegal, uma vez que contraria o artigo 307 da CLT que garante 1 dia de folga a cada 6 trabalhados a todos os jornalistas”, disse em nota.

Esta reportagem foi produzida pelo estagiário Weudson Ribeiro sob supervisão do secretário de Redação Douglas Pereira.

Informações deste post foram publicadas antes pelo Drive, com exclusividade. A newsletter é produzida para assinantes pela equipe de jornalistas do Poder360

quarta-feira, 13 de maio de 2020

GRANDES VERDADES AQUI




"A questão da fome na sociedade moderna é resultado e condição estruturante de um sistema econômico, social e político de produção coletiva dos bens, produtos e riqueza, mas de apropriação privada e que, a partir disso, é organizado em classes sociais antagônicas."


Kathiuça Bertollo (*)

Acerca da questão da fome: onde estávamos nos ‘dias de normalidade’ que ‘não a víamos’? Esta situação sub-humana sempre esteve ao nosso lado, sob nossos olhos. Precisa ser enfrentada com radicalidade, a partir do que a oriunda. Ações pontuais apenas mitigam essa questão histórico-estrutural de nossa existência enquanto classe trabalhadora sob os marcos do capitalismo.

A questão da fome na sociedade moderna é resultado e condição estruturante de um sistema econômico, social e político de produção coletiva dos bens, produtos e riqueza, mas de apropriação privada e que, a partir disso, é organizado em classes sociais antagônicas. De um lado, a classe trabalhadora que produz a riqueza, porém, não se apropria dela; de outro a burguesia, que detém e controla todo o processo produtivo e a riqueza gerada através da exploração da força de trabalho.

Conforme relatório publicado pela Oxfam (2017, p.11), “o 1% mais rico da população mundial possui a mesma riqueza que os outros 99%, e apenas oito bilionários possuem o mesmo que a metade mais pobre da população no planeta. Por outro lado, a pobreza é realidade de mais de 700 milhões de pessoas no mundo”.

Essa é a estrutura basilar do capitalismo, sistema que orienta e aprisiona a existência do gênero humano, que marca e tolhe a vida de milhões de pessoas ao redor do globo, que os reduz à bestialidade, à uma vida sem qualquer possibilidade de plena realização dos sentidos, mesmo os mais elementares. Que impõe o pauperismo, a violência, a negação, a miséria, a fome, a ‘morte em vida’.

Considerando que o Brasil é um dos países com maior concentração de renda e desigualdade do mundo, objetivamos, nas linhas que seguem, apresentar uma reflexão acerca da fome, da fome em tempos de pandemia da COVID-19, das respostas do Estado via políticas sociais e da solidariedade de classe. 

Para tanto explicitaremos um dia na vida de quem tem fome. Situação muito fortemente retratada por Maria Carolina de Jesus em sua célebre (e também rechaçada) obra ‘Quarto de despejo: Diário de uma favelada’ (1960, p.35- 36- 37), reconhecendo que o que a autora retrata abre a possibilidade de debater a questão racial, de gênero, geracional, habitacional, trabalho e renda, dentre outras, no entanto, por reconhecer a importância e complexidade destas e que podem ser melhor abordadas em outro texto, optaremos pelo recorte de temáticas inicialmente apresentado.

“21 de maio – Passei uma noite horrível. Sonhei que eu residia numa casa residível, tinha banheiro, cozinha, copa e até quarto de criada. Eu ia festejar o aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu ia comprar-lhe umas panelinhas que há muito ela vive pedindo. Porque eu estava em condições de comprar. Sentei na mesa para comer. A toalha era alva ao lírio. Eu comia bife, pão com manteiga, batata frita e salada. Quando fui pegar outro bife despertei. Que realidade amarga! Eu não residia na cidade. Estava na favela. Na lama, as margens do Tietê. E com 9 cruzeiros apenas. Não tenho açúcar porque ontem eu saí e os meninos comeram o pouco que eu tinha.

…Quem deve dirigir é quem tem capacidade. Quem tem dó e amizade ao povo. Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é fome, a dor, e a aflição do pobre. Se a maioria revoltar-se, o que pode fazer a minoria? Eu estou ao lado do pobre, que é o braço. Braço desnutrido. Precisamos livrar o paiz dos políticos açambarcadores.

Eu ontem comi aquele macarrão do lixo com receio de morrer, porque em 1953 eu vendia ferro lá no Zinho. Havia um pretinho bonitinho. Ele ia vender ferro lá no Zinho. Ele era jovem e dizia que quem deve catar papel são os velhos. Um dia eu ia vender ferro quando parei na Avenida Bom Jardim. No lixão, como é denominado o local. Os lixeiros haviam jogado carne no lixo. E ele escolhia uns pedaços: Disse-me:

-Leva, Carolina. Dá para comer.

Deu-me uns pedaços. Para não maguá-lo aceitei. Procurei convencê-lo a não comer aquela carne. Para comer os pães duros ruídos pelos ratos. Ele disse-me que não. Que há dois dias não comia. Acendeu o fogo e assou a carne. A fome era tanta que ele não poude deixar assar a carne. Esquentou-a e comeu. Para não presenciar aquele quadro, saí pensando: faz de conta que eu não presenciei esta cena. Isto não pode ser real num paiz tão fértil igual ao meu. Revoltei contra o tal Serviço Social que diz ter sido criado para reajustar os desajustados, mas não toma conhecimento da existência infausta dos marginais. Vendi os ferros no Zinho e voltei para o quintal de São Paulo, a favela.

No outro dia encontraram o pretinho morto. Os dedos do céu pé abriram. O espaço era de vinte centímetros. Ele aumentou-se como se fosse de borracha. Os dedos do pé parecia leque. Não trazia documentos. Foi sepultado como um Zé qualquer. Ninguém procurou saber o seu nome. Marginal não tem nome.

…De quatro em quatro anos muda-se os políticos e não soluciona a fome, que tem a matriz nas favelas e as sucursais nos lares dos operários.

…Quando eu fui buscar agua vi uma infeliz caída perto da torneira porque ontem dormiu sem jantar. É que ela está desnutrida. Os médicos que nós temos na política sabem disso.

… Agora eu vou na casa da Dona Julita trabalhar para ela. Fui catando papel. O senhor Samuel pesou. Recebi 12 cruzeiros. Subi a Avenida Tiradentes catando papel. Cheguei na Rua Frei Antonio Santana de Galvão 17, trabalhar para a Dona Julita. Ela disse-me para eu não iludir com homens que eu posso arranjar outro filho e que os homens não contribui para criar o filho. Sorri e pensei: em relação aos homens, eu tenho experiências amargas. Já estou na maturidade, quadra que o censo já criou raízes.

… Achei um cará no lixo, uma batata doce e uma batata solsa. Cheguei na favela os meus meninos estavam roendo um pedaço de pão duro. Pensei: para comer estes pães era preciso que eles tivessem dentes elétricos.

Não tinha gordura. Puis a carne no fogo com uns tomates que eu catei lá na Fabrica Peixe. Puis o cará e a batata. E agua. Assim que ferveu eu puis o macarrão que os meninos cataram no lixo. Os favelados aos poucos estão convencendo-se que para viver precisam imitar os corvos. Eu não vejo eficiência no Serviço Social em relação ao favelado. Amanhã não vou ter pão. Vou cozinhar a batata doce.”

O brado da autora realizado na década de 1960 e a realidade em 2020 tem muitas similaridades.

Adentramos o ano de 2020 vivenciando uma pandemia, a vida de milhares de pessoas foi suprimida por uma doença ainda sem cura. No dia 07 de maio se contabilizavam mais de 3,7 milhões de pessoas infectadas e 264.000 mortes no mundo. No Brasil, um dos países com mais mortes confirmadas, ao menos 8.536 pessoas morreram até esta data. No dia seguinte (08-05), já se ultrapassava a marca de 10 mil mortos, mais precisamente 10.222, sabendo que este número é infinitamente maior devido a subnotificação e falta de exames.

Importante evidenciar que em função da pandemia o Congresso Nacional, por meio do DECRETO LEGISLATIVO nº 6, de 20 de março de 2020, reconheceu e decretou estado de calamidade pública no país até o final deste ano.

Sem saber até quando este cenário desolador se manterá, o que temos como certo é que o período pós pandemia já se anuncia como um cenário de degradação e destruição societária e humana. Este panorama não é resultado de qualquer pessimismo da razão, é pura e simplesmente consequência de um sistema que controla as esferas da produção e da reprodução social priorizando a economia e o lucro em detrimento da vida. 

Melhor dizendo, o capitalismo tem as crises como uma condição estruturante de sua perpetuação e para superá-las o capital precisa criar mecanismos para retomar as taxas de lucro, com isso passa a valer a seguinte premissa no contexto da luta de classes (agora agravada e explicitada com a pandemia): Para a burguesia, a vida da classe trabalhadora é uma mercadoria descartável. Para a classe trabalhadora, a vida é o único bem que se possui!

O capitalismo submete cotidianamente a classe trabalhadora à ‘morte em vida’, seja pela negação de saúde, alimentação, habitação, lazer, educação, saneamento básico, etc. situação que se agrava diária e amplamente, que salta à vista e exige respostas.

No Brasil, a construção das respostas às demandas imediatas e urgentes de sobrevivência sempre se deu muito fortemente marcada pelo viés caritativo, paliativo, seletivo, fragmentado, primeiro-damista e conservador. Um exemplo foi o Programa Comunidade Solidária implantado no governo de FHC e coordenado pela então primeira dama do país, Ruth Cardoso. Essa foi a referência que orientou as intervenções estatais no campo social entre os anos de 1995 a 2002.

O atendimento e a garantia de sobrevivência da população através da perspectiva dos direitos e das políticas sociais, legal e normativamente reconhecidas pelo Estado via leis orgânicas, financiamento e sistemas, tais quais o SUS no âmbito da política de saúde e o SUAS no âmbito da assistência social, são resultados de árdua e permanente luta político-classista dos sujeitos sociais e coletivos do país.

No âmbito da assistência social as respostas à questão da fome se dão via programas e projetos sociais e benefícios eventuais. A LOAS (1993) estabelece em seu art.22 que “Entendem-se por benefícios eventuais as provisões suplementares e provisórias que integram organicamente as garantias do Suas e são prestadas aos cidadãos e às famílias em virtude de nascimento, morte, situações de vulnerabilidade temporária e de calamidade pública”. É dentro desta delimitação que auxílios como ‘cestas básicas’ são ofertados. Esta historicamente tem sido a resposta imediata à demanda da fome por parte do Estado brasileiro.

Ressalta-se que a política de assistência social não possui um caráter universal de acesso, é destinada ‘a quem dela necessitar’ e constantemente sofre ofensivas, tentativas de reimplantação da premissa da solidariedade filantrópica em detrimento à perspectiva de direito social e dever do Estado. 

Exemplos disso: no governo Temer a criação do Programa Criança Feliz, que tinha a então primeira dama Marcela Temer como ‘madrinha’, figura decorativa e que imprimia um caráter personalista à ação; e no governo Bolsonaro, sob o comando de figuras como Damares, Osmar Terra, Onyx Lorenzoni e Michele Bolsonaro, o obscurantismo, o primeiro-damismo, a caridade, a filantropia e a incompetência são novamente emplacados carregando e reproduzindo a marca central desde governo, que demonstra ter em todas as áreas de atuação, não somente na social, um alinhamento aos interesses do Capital e seus expoentes em detrimento do atendimento das demandas da classe trabalhadora, da população pauperizada do país.

Sob estas premissas, a resposta do governo federal à questão da fome, do desemprego e demais incertezas, negações e violências na vida da população brasileira em tempos de pandemia da COVID-19 foi, após pressão do Congresso Nacional, de movimentos sociais, entidades sindicais e da própria população que vivencia os dramas sociais e econômicos de modo mais agravado a cada dia, a liberação de um auxílio emergencial no valor de R$ 600,00 por três meses.

Aponta-se para o caráter extremamente limitado desse auxílio, seja pelo valor que é repassado, seja pelo tempo que será ofertado, seja pelas regras e burocracia para acessá-lo, mas principalmente, por se tratar de ação isolada, desarticulada de qualquer perspectiva de atendimento universal às demandas da população brasileira, dentre estas, a prioritária que é sanar a fome. 

Ou seja, os mecanismo de impedimento e a demora no acesso a este auxílio emergencial são elementos próprios da política genocida desencadeada pelo governo Bolsonaro sobre a classe trabalhadora brasileira. A política econômica se sobrepõe à política social.

Tais ações explicitam o caráter estrutural e classista do Estado, de opção por um projeto societário que não é o mesmo pautado e defendido pela classe trabalhadora, é o da manutenção e perpetuação da ordem sob a hegemonia e domínio do capital. Caráter este já explicitado em 1848 por Marx e Engels quando afirmam que “O poder do estado moderno não passa de um comitê que administra os negócios comuns da classe burguesa como um todo”.

Tal afirmação deve ser inscrita e compreendida a partir das esferas da produção e da reprodução social e do contexto da luta de classes, caso contrário, ‘mata-se’ a história e a possibilidade de o gênero humano construí-la, modificá-la, permanecendo como verdade a afirmação de que o capitalismo é o patamar máximo de desenvolvimento e civilidade alcançado e possível para a humanidade. Absolutamente não é disso que se trata!

Neste atual contexto de crise do capital, que se agrava pela pandemia da COVID-19, a classe trabalhadora em seu conjunto e por meio de suas esferas organizativas precisa retomar, fortalecer e ampliar a atuação na construção de processos de tomada de consciência de classe, no tensionamento desta ordem societária que não permite sequer a existência biológica a todos os indivíduos que a compõe.

                                                                                            Käthe Kollwitz

A tarefa imediata e de impulsionamento desse contexto de resistência e luta é garantir a vida! E é preciso explicitar que as raízes dessa condição de ‘morte em vida’ são estruturantes do capitalismo, que neste sistema é somente este o lugar e condição relegados à classe trabalhadora, que é organizado e mantido pelas classes dominantes todo um aparato e conjunto de ações e ideias que se utiliza da religião, da mídia, da família, da moral e dos valores conservadores, etc, que objetiva negar e condicionar a aceitação desse limite que difere e antagoniza as classes sociais que o compõe.

Diante disso, as organizações classistas possuem responsabilidades, e dentre estas, pautar e realizar ‘ações de solidariedade’ no que se refere à garantia da vida, ao enfrentamento da fome, da política de genocídio e do extermínio em massa, questões estas de ocorrência cotidiana pelo capital com respaldo do Estado, e que agora em tempos de pandemia da COVID-19 estão muito fortemente agravadas.

O histórico de lutas, resistência e organização da classe trabalhadora brasileira tem vasto e relevante registro de ações a partir dessa perspectiva. São expressivas desde o período da escravidão, melhor dizendo, ainda no período da escravidão, [uma das páginas mais degradantes, irracionais e anti-humanas da existência do gênero humano e da história do nosso país], ações de solidariedade de classe, a exemplo dos levantes. 


A perspectiva de solidariedade deve ser inspirada nas formas de ajuda mútua, nas formas de resistência e organização que os quilombos assumiam, na luta pela superação daquele sistema social e econômico produtivo em que a vida humana era posse de outrem.

Devem se inspirar nas associações criadas no seio das categorias profissionais e instituídas desde os primórdios de sua constituição e consolidação enquanto tal, e portanto, sem maior respaldo de legislações e garantias por parte do Estado, tal qual como conhecemos e temos na atualidade, via direitos trabalhistas e previdenciários, via sistema de seguridade social e das políticas sociais, apesar do caráter seletivo e focalizado que portam e as constituem.

Não devem deixar de ser inspiradas também pelas experiências históricas de luta e busca de construção de outra ordem societária, verdadeiramente justa e igualitária, sem dominação e exploração de classe, sem opressões de gênero, de orientação sexual, de raça, sem violências e negações à classe trabalhadora.

Para tanto, e considerando a condição de capitalismo dependente, de superexploração da força de trabalho, o que impõe condições mais agravadas e árduas à sobrevivência da classe trabalhadora brasileira, as ações precisam ser organicamente vinculadas e oriundas da própria classe trabalhadora, do seu reconhecimento enquanto classe, isto é, possuir caráter político como cerne e orientador.

Não podem ser orientadas por viés caritativo, apelativo, assistencialista, emergencial, fragmentado e pontual de atuação em decorrência da gravidade da pandemia da COVID-19 e da amplitude que tem tomado, ou seja, não pode ser descolado de perspectivas mais amplas e tensionadoras dessa ordem econômico-social. Momentos de acirramento da própria existência humana tal qual este que estamos vivenciando pela pandemia, não são pontos fora da curva, são uma constante no capitalismo, e por isso precisam ser entendidos, enfrentados e superados a partir dos seus fundamentos.

A classe trabalhadora porta em suas mãos essa possibilidade histórica. Sem voluntarismos e espontaneísmos, sem ações mecanicistas seja individual ou de organizações classistas, mas também, sem desistência, com disposição e ânimo para a árdua tarefa de constituição e potencialização de ‘força social’ necessária para que seja possível não mais sentirmos e vivenciarmos a questão da fome, do medo, das violências e das negações, e sim vivermos plenamente nossos sentidos em coletividade, igualdade e liberdade.

(*) Kathiuça Bertollo é  docente do Curso de Serviço Social da UFOP

Diretora da ADUFOP

Militante do PCB em Mariana-MG

MG, 09 de maio de 2020.

Referências

BERTOLLO, Kathiuça. A CONTRADITÓRIA RELAÇÃO ENTRE TRABALHO E O DIREITO À ASSISTÊNCIA SOCIAL: Um estudo desde a perspectiva Latino-Americana da Dependência. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina, 2012.

BRASIL. DECRETO LEGISLATIVO nº 6, de 20 de março de 2020.

JESUS, Maria Carolina de. Quarto de despejo: Diário de uma favelada.1960.

MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. In: TRANSPADINI, Roberta; STEDILE, João Pedro (orgs). 1 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2005. (p. 137 a 180)

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/

OXFAM. A distância que nos une: um retrato das desigualdades brasileiras, 2017.

LUTA CONTRA O CORONAVÍRUS

Alex Falcó Chang/Juventud Rebelde

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Votação eletrônica do SJPMG será feita a toque de caixa

                                        

      Cadastro de jornalistas do sindicato está desatualizado

A Junta Eleitoral das eleições 2020 do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG) decidiu adotar a votação eletrônica por meio da internet no pleito deste ano. Com apenas 20 dias úteis, a contar da data da deliberação (4/5), a implementação do sistema de votação será feita a toque de caixa.

O pouco tempo para a implementação do sistema, que implica em prazos curtos para a adoção dos protocolos relacionados à votação eletrônica, foi uma das razões pelas quais a Oposição Sindical (Chapa 1) posicionou-se contrariamente a essa modalidade de voto. 

O fato de o cadastro de jornalistas sindicalizados estar desatualizado foi outra razão pela qual a Oposição Sindical foi contra o voto pela internet neste ano.

Uma alternativa ao voto eletrônico seria a prorrogação da gestão, como aprovado por 19 membros da diretoria do Sindicato ligados à Chapa 2 (que tem maioria absoluta na Junta Eleitoral) em votação realizada por Whatsapp no dia 14 de abril. Uma das justificativas para tal decisão da diretoria foi a crise do coronavírus, a mesma argumentação utilizada na defesa da votação eletrônica.

Não se trata aqui de incoerência, mas de uma opção política que fragiliza todo o processo eleitoral, seja pela implementação da votação eletrônica a toque de caixa, falta de uma base de dados atualizada com as informações do sindicalizados (e-mails, por exemplo) ou pela realização da eleição fora do prazo estatutário.

Oposição Sindical: Independente, Consciente e de Luta – Chapa 1