quarta-feira, 22 de março de 2017

Sobre a força económica e militar da Grécia, análise do KKE

                                                                                
Rizospastis

Pelo seu interesse documental, publicamos um texto do órgão central do KKE sobre aspectos relativos às Teses do seu próximo XX Congresso.

Segundo o Programa do Partido: “O capitalismo grego está na fase imperialista do seu desenvolvimento, numa posição intermédia no sistema imperialista internacional, com fortes dependências desiguais em relação aos EUA e à União Europeia. (...)”

Depois da eclosão da crise deteriorou-se a posição da economia capitalista grega no quadro da zona euro e da UE e em geral no quadro da pirâmide imperialista internacional, o que não invalida o facto de a incorporação da Grécia na CEE e na UE ter servido os sectores mais dinâmicos do capital monopolista nacional e ter contribuído para o fortalecimento do seu poder político.

A participação da Grécia na NATO, a dependência político-económica e político-militar da UE e EUA limitam o espaço para a burguesia da Grécia manobrar de forma independente, uma vez que todas as relações de aliança do capital se regem pelo antagonismo, a desigualdade e, consequentemente, pela posição vantajosa do mais forte; formam-se como relações de interdependência desigual.

As contradições inter-burguesas não invalidam até agora a opção estratégica de incorporação na NATO e na UE embora a participação na zona euro se desenvolva de forma contraditória, enquanto ao mesmo tempo se reforça a tendência para o fortalecimento das relações com outros centros (EUA, Rússia, China).

A avaliação do poder económico de um Estado é uma tarefa difícil uma vez que deve tomar em conta uma série de factores relacionados tanto com a situação nacional como com as relações económicas com outras economias, mas além disso como estas se transformam no decurso do tempo. Entre estes factores incluem-se o volume, o valor e a estrutura geral da produção nacional, os níveis de acumulação de capital e seu desenvolvimento, as matérias-primas nacionais, o nível tecnológico e da produtividade do trabalho, a estrutura do capital e da classe operária, a relação entre importações e exportações de produtos e capitais, a utilização da sua posição geográfica etc.

Uma primeira avaliação geral pode fazer-se na base do PIB (que expressa o volume da produção) e do PIB per capita da economia (que está relacionado com a produtividade).

Na base das avaliações do FMI para o ano de 2016, a Grécia ocupa a 49ª posição em termos de PIB com 196 mil milhões de dólares, atrás de Portugal com 205 mil milhões de dólares (47ª), Vietnam com 200 mil milhões de dólares (48ª) e à frente da República Checa com 194 mil milhões de dólares (50ª) e Roménia com 187 mil milhões de dólares (51ª).

A Turquia ocupa a 18ª posição com 756 mil milhões de dólares e participa no grupo dos 20 Estados mais ricos do mundo (G-20). Com base nos dados de 2014, a Grécia estava na 44ª posição a nível mundial.

Na base do PIB per capita, que é o indicador da taxa média dos rendimentos dos habitantes de um Estado: a Grécia ocupa a 39ª posição com 18.000 dólares ao ano, atrás de Portugal com 19.100 dólares ao ano e à frente da República Checa (17.600 dólares ao ano) na 40ª posição. A Turquia está na 67ª posição com 9.200 dólares ao ano.

A avaliação exacta do poder militar de um país é igualmente complexa, determinada por uma serie de factores como é mencionado nas Teses do CC para o 20º Congresso, na Tese 8.

Segundo o Centro Internacional de Bona para a Conversão (BICC), a Grécia é o 10º país mais militarizado do mundo na base de um conjunto de indicadores (a despesa militar em relação ao PIB, a despesa militar em relação com a população, o armamento pesado etc.).

A Grécia tem 13 soldados activos por cada 1.000 habitantes, enquanto os demais países da União Europeia têm 2-3 e a Turquia 6,6. A Grécia tem estado, tanto antes da crise como nos dias de hoje, nas primeiras três posições entre os países da NATO em termos de gastos militares (em percentagem do PIB.)

O indicador combinado da página web Global Firepower trata de incluir alguns elementos que quantificam o conjunto das forças militares e classificam a Turquia na 8ª posição mundial, Israel na 16ª posição e a Grécia na 28ª posição. Todavia, no que diz respeito a aviões, armamento pesado e forças navais, a correlação de forças entre a Turquia e a Grécia é de 1,5 para 1 a 2 para 1.

Nota:No quadro do processo pré-congressual do 20º Congresso do KKE, o “Rizospastis” publica uma série de artigos em torno a questões ideológicas e políticas que aparecem nas Teses do Comité Central na coluna especial “Pergunta-resposta”.

(Com o Diário Liberdade)

A maré crescente do militarismo no século XXI – de Clinton a Bush, Obama e Trump

                                                                                   Cartum de Branco

 James Petras


O militarismo estadunidense expandiu-se exponencialmente ao longo das primeiras duas décadas do século XXI e foi adoptado tanto por presidentes democratas como republicanos. A histeria dos mass media em relação ao aumento dos gastos militares do presidente Trump ignora deliberadamente a vasta expansão do militarismo, em todas as suas facetas, sob o presidente Obama e os seus dois antecessores, os presidentes "Bill" Clinton e George Bush Jr. 

Neste ensaio compararemos e discutiremos a ascensão ininterrupta do militarismo ao longo dos últimos dezassete anos. Demonstraremos então que o militarismo é uma característica estrutural básica da inserção do imperialismo dos EU no sistema internacional. 

Militarismo 

Aumentos vastos em gastos militares têm sido uma constante, pouco importando que era o presidente dos Estados Unidos e pouco importando a retórica da sua campanha popular no sentido de reduzir o gasto militar em favor da economia interna. 

Sob "Bill" Clinton, o orçamento da guerra aumentou de US$302 mil milhões em 2000 para US$313 mil milhões em 2001. Sob o presidente George W. Bush (Jr.), a despesa militar saltou de US$357 mil milhões em 2001 para US$465 mil milhões em 2004 e US$621 mil milhões em 2008. Sob o presidente Obama (o "Candidato da Paz"), a despesa militar subiu de US$669 mil milhões em 2009 para US$711 mil milhões em 2011 e a seguir, aparentemente, declinou para US$596 mil milhões em 2017. Actualmente, o recém-empossado presidente Trump está a pedir que aumente para US$650 mil milhões em 2018. 

Vários esclarecimentos são necessários: o orçamento militar de Obama em 2017 excluiu despesas em vários departamentos do governo "relacionados com a defesa", incluindo um aumento de US$25 mil milhões para o programa de armas nucleares do Departamento da Energia. O total de Obama com gastos militares em 2017 eleva-se a US$623 mil milhões ou US$20 mil milhões menos do que a proposta de Trump. 

Além disso, a despesas militar de Obama com as Overseas Contingency Operations (OCO), as quais não estão listadas nas propostas de orçamento anual, incluíram o custo das guerras estadunidenses no Afeganistão, Iraque, Síria, Iémen, Líbia e numerosos outros países e dispararam durante o seu mandato. Na verdade, nos seus oito anos de mandato Obama excedeu os gastos militares de George W. Bush em mais de US$816 mil milhões. 

O proposto aumento em gastos militares do presidente Trump vem na sequência da trajectória de presidentes democratas – ao contrário das afirmações dos mass media. Claramente, tanto republicanos como democratas aumentaram maciçamente sua confiança nos militares estado-unidenses como força condutora do poder mundial. 

Enquanto o orçamento para 2017 de Obama incluía US$7,5 mil milhões para "operações ISIS" (um aumento de 50%) e US$8 mil milhões para ciber-guerra e (contra) terrorismo, o maior aumento era para aviões invisíveis ao radar (stealth), submarinos nucleares e porta-aviões, destinados claramente à Rússia, China e Irão. A Marinha e a Força Aérea obtiveram três quartos do orçamento. 

Sob Obama, a escalada armamentista dos EUA não foi dirigida contra "grupos terroristas" mas sim, ao invés, contra a Rússia e a China. Washington tenciona levar a Rússia à bancarrota – a fim de retornar ao estado de vassalagem da década anterior a Putin. A campanha feroz da CIA – Obama – e do Partido Republicano contra Trump baseia-se nas suas aberturas à Rússia. 

O ponto central do objectivo de há décadas dos EUA de dominação unipolar depende agora de despir Trump do seu poder assim como os seu nomeados, os quais, em parte ou na totalidade, são vistos como a minarem toda a estrutura do imperialismo estado-unidense conduzido pelos militares que tem sido buscada pelas quatro administrações anteriores. 

O aumento de Trump dos gastos militares destina-se aparentemente a ser uma "moeda de troca" no seu plano para expandir oportunidades económicas dos EUA – fazendo acordos com a Rússia, renegociando o comércio com a China, Extremo Oriente (Singapura, Formosa e Coreia do Sul) e com a Alemanha, todos os quais em conjunto compreendem o grosso do défice comercial anual dos EUA de um milhão de milhões (trillion) de dólares. 

Os repetidos revezes de Trump, a pressão constante sobre os seus nomeados e os danos infligidos pelos mass media sobre todos os aspectos da sua pessoa e vida pessoal, mesmo em meio de um aumento histórico generalizado no mercado de acções, indica uma divisão profunda entre oligarcas dos EUA sobre o poder e "quem governa". 

Nunca desde o início da II Guerra Mundial havíamos testemunhado clivagens fundamentais sobre política externa. Concepções anteriores de debates partidários estão ultrapassadas. A imprensa financeira (o Financial Times e o Wall Street Journal ) está abertamente alinhada com os militaristas, ao passo que os operadores (marketers) financeiros na Wall Street apoiam políticas internas de Trump favoráveis aos negócios assim como suas aberturas conciliatórias para com a Rússia e a China. 

A maior parte dos moinhos de propaganda, alcunhados como "think tanks", com seus estábulos de académicos, "peritos", editorialistas e ideólogos liberais e neoconservadores promove a agressão militar contra a Rússia. Enquanto isso, os media sociais populistas, bases apoiantes de Trump, indústrias manufactureiras internas e as Câmaras de Comércio do país pressionam por cortes fiscais e medidas proteccionistas. 

O Exército é favorável a Trump e prefere o seu conceito de guerras regionais para ganhos económicos. Em contraste, a Marinha e a Força Aérea, as quais beneficiaram-se significativamente com os enviesados orçamentos de guerra de Obama, prosseguem uma política de confrontações militares globais com a Rússia e a China e guerras múltiplas contra aliados seus, tais como o Irão, apesar da devastação que tal política provocará na economia interna.

O conceito de imperialismo de Donald Trump baseia-se na exportação de produtos e captura de mercados enquanto atrai o capital multinacional de volta para os EUA a fim de reinvestir seus lucros (actualmente mais de um milhão de milhões vem de além-mar) no mercado interno. 

Ele se opõe a alianças económicas e militares que têm agravado défices comerciais e dívida dos EUA em contraste com administrações anteriores de militaristas que aceitaram défices comerciais debilitantes e gastos desproporcionados dos EUA com intervenções militares, bases e sanções contra a Rússia e seus aliados. 

O objectivo do presidente Trump de fazer com que a Europa Ocidental pague uma fatia maior da NATO (e assim reduzir a dependência da Europa em relação à despesa militar estado-unidense) foi rejeitado por ambos partidos políticos. Cada um dos pequenos passos de Trump rumo à melhoria de relações com a Rússia despertou a ira dos imperialistas militaristas unipolares que controlam a liderança dos democratas e dos republicanos. 

O imperialismo militarista propôs algumas concessões tácticas a aliados da Rússia – os acordos instáveis com o Irão e o Líbano e os frágeis acordos de paz na Ucrânia. Ao mesmo tempo Washington está a expandir suas bases militares desde as regiões Nórdicas-Bálticas até a Ásia. E ameaça dar apoio a golpes militares no Brasil, Venezuela e Ucrânia. 

O propósito estratégico destes movimentos belicosos e cercar e destruir a Rússia como um potencial contra-peso independente à dominância global dos EUA. 

A política inicial do presidente Trump foi construir a "fortaleza América": Aumentar o orçamento militar, acumular poder policial e militar junto à fronteira mexicana e no interior dos Estados do Golfo ricos em petróleo. A agenda de Trump fortaleceria os militares na Ásia e alhures a fim de expandir a posição negocial dos EUA no plano económico em negociações bilaterais com o objectivo de ampliar seus mercados de exportação. 

Conclusão                                                                          Visual Capitalist

Os Estados Unidos estão a testemunhar uma confrontação mortal entre dois imperialismos nitidamente polarizados. 

O militarismo, a forma estabelecida do imperialismo estado-unidense, está profundamente arraigado dentro do aparelho de estado permanente. Isto inclui as 17 agências de inteligência, os departamentos de propaganda, a Força Aérea e a Marinha, bem como o sector de alta tecnologia e as elites comerciais capitalistas que se têm beneficiado de importações estrangeiras e do trabalho estrangeiro qualificado de baixo custo a expensas de trabalhadores dos EUA. 

Seu registo é de guerras desastrosas, mercados perdidos, salários em declínio, padrões de vida deteriorados e relocalização de empregos bem pagos no exterior. Na melhor das hipóteses, a única coisa que conseguiram foi assegurar a lealdade de uns poucos regimes vassalos fracos, a um enorme custo. 

A tentativa do regime Trump de modelar uma alternativa estratégica imperialista gira em torno de uma abordagem mais subtil. Ele procura utilizar poder militar para fortalecer o mercado de trabalho interno e assegurar apoio de massa à intervenção económica além-mar. 

Acima de tudo, Trump percebe que a Rússia não pode ser isolada dos seus mercados na Europa nem derrotada através de sanções. Isto leva-o a propor a negociação de um acordo global para negócios comerciais em grande escala, os quais favoreceriam bancos, petróleo, agricultura e indústrias refinadas dos EUA. 

Em segundo lugar, Trump apoia o "imperialismo social", pelo qual exportações dos EUA, com base em indústrias locais, trabalho e bancos dos EUA, levariam a salários mais altos e lucros para negócios e trabalhadores americanos. O imperialismo dos EUA não dependeria assim de custosas e fracassadas invasões militares, mas sim de "invasões" além-mar de indústrias e bancos dos EUA os quais retornariam seus lucros aos EUA para investimento e novo impulso ao mercado de acções já estimulado pelos seus planos declarados de desregulamentação e cortes fiscais. 

A transição do presidente Trump para este novo paradigma imperial enfrenta um adversário formidável o qual até agora teve êxito em bloquear a sua agenda e ameaça derrubar o seu regime. 

Desde o princípio, a falha de Trump em consolidar o poder do estado [foi] um erro que minou a sua administração. Apesar de a sua vitória eleitoral lhe ter dado o Gabinete da Presidência, o seu regime é apenas um aspecto do poder do estado, o qual é vulnerável à erosão e afastamento imediatos pelos ramos coercivos e legislativos independentes, decididos à sua morte política. Os outros ramos do governo estão cheios de remanescentes dos regimes Obama e anteriores – e estão profundamente comprometidos com o militarismo. 

Em segundo lugar, Trump fracassou na mobilização dos seus apoiantes da elite e da base de massa em torno de uma media alternativa. Seus "Tweets matinais" são um frágil contra-peso ao ataque concentrado dos mass media sobre a sua governação. 

Em terceiro lugar, apesar de Trump conseguir com êxito assegurar apoio internacional com o Japão e a Inglaterra, ele recuou da negociação com a Rússia – a qual será central para minar seus adversários imperiais. 

Em quarto lugar, Trump falhou em ligar suas políticas de imigração com um novo programa eficaz de emprego interno e falhou em revelar e capitalizar em relação às draconianas políticas anti-imigrantes sob a administração Obama, durante a qual milhões foram aprisionados e expulsos. 

Em quinto lugar, Trump deixou de esclarecer a ligação entre suas políticas económicas pró mercado e gastos militares e de como estão ligadas a um paradigma totalmente diferente. 

Em consequência, o êxito do assalto militarista liberal-neoconservador ao novo presidente colocou a sua estratégia central em retrocesso. Trump está sob sítio e na defensiva. Mesmo que sobreviva a este furioso ataque concentrado, sua concepção original de "refazer" a política imperial e interna americana está em estilhaços e os cacos misturar-se-ão no pior dos dois mundos. Sem a expansão de mercados além-mar para produtos americanos e um programa de empregos internos com êxito, as perspectivas para o presidente Donald Trump são reverter às guerras além-mar e abrir caminho a um colapso do mercado. 


O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/?p=2130 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Bloqueio económico de Porto Rico

                                                                      
 Jesús Dávila    

Porto Rico é gerido colonialmente pelos EUA desde finais do séc. XIX. A ilha caribenha tinha condições para desenvolver uma economia próspera, mas a situação de dependência colonial colocou-a à beira do colapso. Só desde a eclosão da actual crise geral do capitalismo o grande capital dos EUA levou de Porto Rico cerca de 330.000 milhões de dólares.

As empresas subsidiárias dos Estados Unidos continuam a retirar anualmente de Porto Rico 33 por cento da riqueza produzida no país, o que tem o efeito de bloquear efectivamente as tentativas de estabilização e recuperação económica, sem que a junta de controlo ou o governo anexionista tomem medidas para atalhar a situação.

Segundo decorre das contas sociais oficiais, essas corporações retiraram de Porto Rico em dez anos cerca de 330.000 milhões de dólares – desde que teve início a crise económica – e o montante aumenta em proporção com o produto interno bruto (PIB).

Mas o plano decretado pela junta de controlo designada por Washington para reger Porto Rico procura o empobrecimento sistemático das pessoas, com o objectivo declarado de que desse modo os porto-riquenhos produzirão mais riquezas que tornem o país atractivo para os investidores. A ter êxito, o que o plano da junta – que o governo anexionista reclama como fundamentalmente seu - conseguiria seria que aumentassem os lucros repatriados para os EUA.

Não se trata de um problema que tenha permanecido sempre igual durante todo o tempo sob a dominação dos EUA sobre esta pequena nação insular do nordeste do Caribe. Pelo contrário, durante os primeiros vinte anos do impulso económico autonomista – de 1950 a 1970- a relação entre investimento e repatriação de capitais era normal e notou-se na construção de um país que dava a aparência de prosperidade.

Uma situação um tanto similar das consequências da fuga de capitais registou-se na vizinha República Dominicana sob a ditadura de Rafael Leonidas Trujillo. O historiador Arturo Martínez Moya calculou que essa fuga de capitais, que de 1956 a 1961 chegou a acumular o equivalente a quase 20 por cento do produto interno bruto do último ano, “não foi pontual mas sim um processo que se desenvolveu com a crise política a nível internacional e local até precipitar a queda da ditadura de Trujillo”.

No caso de Porto Rico, o respeitado economista Francisco Catalá calcula que, ainda que o país tenha estado submetido à colonização directa dos EUA desde 1898, até 1970 a produção total de riqueza estava principalmente em mãos de empresários residentes, pelo que se verificava um certo nível de acumulação de capitais. Nas últimas três décadas do século passado isso mudou, com a apropriação crescente e directa por parte de investidores dos EUA.

Outro aspecto do problema é que essas mesmas corporações, que levam de imediato os lucros praticamente livres de impostos, se dedicaram além disso a emprestar dinheiro ao governo colonial mediante títulos no mercado de Wall Street, com o que se montou uma dívida que agora resulta impagável em resultado da indigência em que deixaram a economia de Porto Rico.

Mas o endividamento superior à capacidade de pagamento – que foi a política pública dos EUA na administração da colónia pelo menos desde 1900 e que provocou que já em 1917 a dívida de Porto Rico fosse o dobro do orçamento governamental – ultrapassou os níveis sustentáveis em 2012. Em 2014, Wall Street avaliou os títulos de Porto Rico no nível conhecido como “lixo”, mas a crise não afecta as corporações estado-unidenses.

O referido processo está amplamente documentado no Apêndice Estatístico do Relatório Económico ao Governador, preparado pela Junta de Planificação, que mostra a diferença entre o produto nacional bruto (a riqueza em mãos de residentes) e o produto interno bruto (a produção total de riquezas).

Segundo esse relatório, em 2007, ano em que eclodiu a crise, essa diferença foi de 28.882 milhões de dólares e no ano seguinte subiu para 30.936 milhões, 32.768 em 2009, 33.768 em 2010 e 34.661 em 2011. Uma leve melhoria económica foi acompanhada por uma leve baixa também na fuga de capitais, com 33.479 milhões em 2012, mas de imediato retomou o sentido ascendente com 33.506 em 2013 e 33.648 em 2014 e, embora em 2015 tenha sido de 33.578, a projecção para 2016 foi de 34.900.

Como era de se esperar, a saída para os EUA de praticamente todos os lucros reflectiu-se em que o investimento interno de capital fixo tenha evidenciado uma tendência para a baixa desde 2006 e reduziu-se de 11.900 milhões de dólares em 2005 aos 8.262 milhões estimados para 2016. O que é o inverso do largo período de 1971 a 2005, quando o investimento bruto de capital fixo aumentou quase todos os anos.

Isso acompanhado de uma quebra constante no índice de actividade económica desde 2005, quando alcançou 59 pontos sobre a base de 100 estabelecida em 1980. A partir daí baixou até 21 sobre cem, o nível verificado em 1991.

O problema captou desde há anos a atenção de observadores internacionais e durante o primeiro quadriénio deste século a Comissão Económica para a América Latina (CEPAL) da Organização das Nações Unidas utilizou o caso de Porto Rico para mostrar aos demais países os perigos dessa situação.

O fosso começou a notar-se em 1972, quando houve uma diferença de dez por cento entre o PNB y el PIB, fosso que continuou crescendo cada ano até chegar em 1996 aos mencionados 33 por cento. Desde então tem-se mantido a esse nível e, embora se tenham verificado algumas variações menores, nos últimos cinco anos tem estado constante nos 33 por cento.

O resultado foi que, desde 1972 até ao presente, as subsidiarias das corporações dos EUA levaram de Porto Rico mais de 716.000 milhões de dólares, 46 por cento dos quais foram repatriados nos últimos dez anos. O efeito acumulado desse comportamento das corporações dos EUA colocou já o país à beira do colapso.

Esses números, todavia, são conservadores, dado que uma revisão do relatório de pagamentos ao exterior por rendimentos de capital mostra valores ainda mais preocupantes.

Fonte: http://www.alainet.org/es/articulo/184221

(Com Odiario.info)

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terça-feira, 21 de março de 2017

Relatório revela vigilância a jornalistas

                                                                Agência Lusa

A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) publicou no último dia 12 de março, Dia Mundial contra a Censura na Internet, o relatório Censura e vigilância de jornalistas: um negócio sem escrúpulos.

Segundo o Portal dos Jornalistas, o documento da RSF destaca o México como um dos países que realiza tais práticas de ciberespionagem. Segundo o relatório, a empresa israelense NSO Group e a italiana Hacking Team, que vendem suas ferramentas de espionagem digital exclusivamente para governos, teriam o México entre seus principais clientes.

Em 2015 foi descoberto que diferentes entidades do governo mexicano teriam realizado compras de cerca de 6 milhões de euros (6,4 milhões de dólares) da Hacking Team, segundo o informe.

A respeito, Emmanuel Colombié, responsável pelo escritório da RSF na América Latina, afirmou: “Ao constatar as relações comerciais que existem entre múltiplos organismos governamentais mexicanos e um dos principais exportadores de tecnologia de vigilância nos perguntamos que margem se deixa aos jornalistas para investigar de forma independente e para proteger as suas fontes”.

“A opacidade das autoridades sobre o uso que planejam dar a essa tecnologia faz com que esta preocupação aumente. Elas devem dar garantias para proibir que seja usada de forma sistemática contra todos os atores da informação, profissionais de meios de comunicação, blogueiros e defensores dos direitos humanos”, afirmou.

Isso deixaria os jornalistas, blogueiros e ciberativistas em situação de vulnerabilidade frente aos abusos do governo mexicano, alertou a organização em seu relatório.

A RSF também mencionou o caso de Rafael Cabrera, jornalista investigativo mexicano do site Aristeguinoticias.com, que teria sido espionado pelo governo do México por meio do programa Pegasus, da NSO, por causa do especial investigativo Casa Blanca – sobre corrupção envolvendo o presidente mexicano.

O relatório da ONG também oferece uma lista detalhada de medidas que os jornalistas podem tomar para proteger a privacidade das suas comunicações contra qualquer tipo de espionagem.

Por exemplo, o relatório sugere encriptar as mensagens de e-mail e recomenda que, para isso, o jornalista e suas fontes usem a ferramenta de codificação Cryptocat.

 (Com a Associação Brasileira de Imprensa)