quinta-feira, 14 de julho de 2016

Lançamento da pré-candidatura de Túlio Lopes a vereador


Café, cachaça e mel: da Reforma Agrária às mesas do Brasil

                                                                      
                                                                 
Entre os dias 20 e 24 de julho, Belo Horizonte receberá iguarias de todos os cantos do país. Caminhões carregados com a cozinha e produtos da Reforma Agrária, vindos dos mais diversos assentamentos, trarão a produção do MST para a capital mineira.

A Feira, que acontece na Serraria Souza Pinto, é parte da programação do Festival Nacional de Arte e Cultura da Reforma Agrária e trará mais de 200 toneladas de alimentos para comercialização, dentre eles, produtos agroecológicos, orgânicos, artesanatos, agroindustrializados e in natura.

Produtos especiais

Uma das atrações principais é o Café Guaií, do Sul de Minas Gerais. O famoso cafezinho mineiro é produzido por quinhentas famílias – de três assentamentos e onze acampamentos – que vivem e trabalham na terra desde 1996.

O estado que será palco do Festival Nacional também é produtor do mel e da cachaça Veredas da Terra, que vem da região onde se produz as melhores cachaças do Brasil, o Norte de Minas. Uma das floradas de mel mais apreciadas vem da árvore Aroeira, típica do cerrado e preservada nos assentamentos localizados no Norte e no Jequitinhonha. De lá também serão comercializados açúcar mascavo, rapadura, geleia de umbu e o saboroso doce de castanha de baru.

Culinária da Terra

Da partilha da terra, ocupada e conquistada com o suor dos trabalhadores do campo que lutam pelo direito a ter um espaço para produzir alimentos, nasce uma larga produção, que abrange itens como feijão, café, cana, milho, banana, frutas, leite, gado de corte, dentre outros.

Produtores de 25 estados, distribuídos em mais de 100 cooperativas, 96 agroindústrias e 2 mil associações, trarão pratos típicos de cinco regiões do país para a Feira Gastronômica do MST. Quem passar pelo local poderá provar Pato no Tucupi, Churrasco de Bode, Tapioca, Frango com Pequi, Acarajé, Arroz Carreteiro, o famoso tropeiro mineiro e outras iguarias dos assentamentos.

Além de apresentar os produtos da Reforma Agrária, a Feira Gastronômica terá atrações no palco Balaio Cultural Cora Coralina, uma homenagem a poetiza, que remete à forte veia artístico-cultural do Movimento, que segue os seus passos repartindo o que sabe e aprendendo o que ensina.

(Com o MST)

Câmara de Representantes dos EUA recrudesce bloqueio a Cuba

                                                                      
Com a aprovação na Câmara de Representantes de novas medidas restritivas contra Cuba, hoje permanece vigente o bloqueio econômico, comercial e financeiro que os Estados Unidos impõe à ilha há mais de meio século.

Um grupo de cláusulas – todas dirigidas a recrudescer a brutal medida unilateral aplicada há 54 anos – foram incluídas no projeto de lei do orçamento de serviços financeiros, que foi aprovado na Câmara baixa do Congresso estadunidense.

Entre elas ressaltaram as proibições de viajar a Cuba para certos intercâmbios educativos nos chamados intercâmbios “povo a povo”, importar bens confiscados pelo Governo cubano, assim como impedir que se executem transações financeiras que envolvam militares cubanos.

Também proíbe que se empreguem fundos para aprovar a concessão de licenças de marca, nome comercial ou denominação comercial que tenha sido confiscada pelo Governo cubano sem expresso consentimento dos Estados Unidos.

As cláusulas anticubanas permaneceram no corpo do projeto legislativo, depois que outras duas emendas propostas pelos congressistas Rick Crawford e Mark Sanford, que favoreciam a eliminação das restrições aos intercâmbios econômicos e sociais com Cuba, foram eliminadas.

A proposta de Crawford, republicano de Arkansas, buscava bloquear as restrições sobre a exportação de produtos agrícolas a Cuba, o que na prática permitiria oferecer créditos privados às companhias cubanas para a compra de produtos agrícolas estadunidenses, e a do republicano Sanford, pretendia o mesmo fim com as restrições às viagens à Ilha.

O lobby anticubano na Câmara de Representantes, integrado pelos legisladores Mario Díaz-Balart, Ileana Ros-Lehtinen e Carlos Curbelo, mantêm um intenso lobby para impedir que se aprovem medidas que aliviem a aplicação do bloqueio imposto por Washington a Cuba em 1962, que tem provocado danos que ascendem a 121 bilhões de dólares.

Especialistas no tema supõem que o presidente estadunidense Barack Obama vetará este projeto de lei, que também põe em dúvida importantes iniciativas do governo e entra em conflito com a versão aprovada no Senado.

(Com Prensa Latina/Pátria Latina)

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Munição da Polícia dos EUA

Eneko/Rebelión

Professoras denunciam perseguição e violência na “reorganização branca” do ensino paulista

                                                                        
Raphael Sanz (*)

Durante todo o ano de 2015, vimos acirrarem as tensões nas entranhas do ensino público paulista. No primeiro semestre acompanhamos a maior e mais duradoura greve de professores que se tem notícia em São Paulo, paralelamente ao processo de sucateamento e militarização da USP, que vem acontecendo há anos e também gerou resistência por parte da comunidade universitária. No segundo semestre, com o anúncio da chamada reorganização escolar, o governador Geraldo Alckmin formalizou sua política de austeridade para a educação estadual com o fechamento previsto de quase uma centena de escolas, milhares de salas de aula e outros tantos turnos. De certa forma, professores e militantes da área podiam prever essa nova política.

O que não estava previsto era a reação dos estudantes secundaristas, principais afetados pela política anunciada. Fecharam ruas, ocuparam centenas de escolas em todo o estado forçaram a saída do então secretário de Educação, Hermann Voorwald. Assim, houve um aparente recuo do governador Alckmin em relação ao novo pacote de políticas. Em dezembro, os estudantes comemoraram vitória, com o anúncio oficial do governador de que a reorganização das escolas estaria cancelada e seria aberto um debate democrático ao longo de 2016 para que o ensino público estadual fosse repensado por todas as partes envolvidas.

Apesar do recuo do governador, naquele momento o clima entre estudantes e professores expressava algo entre alívio e desconfiança. Mais desconfiança que alívio. Tudo indicava que esse diálogo não seria tão aberto como parecia e a reorganização escolar seria feita de forma discreta. O ano virou com a reorganização das escolas canceladas, mas as denúncias de abusos e truculência das diretorias das escolas e da polícia militar se multiplicaram de janeiro pra cá.

E.E. Fernão Dias

Dalva Aparecida Garcia, professora de filosofia da E.E. Fernão Dias, primeira escola ocupada na capital (a primeira no estado foi a E.E. Diadema, na grande São Paulo), conta que há forte perseguição da direção contra alunos e professores contrários ao modelo de educação pública forçosamente imposto, além de denunciar burlas do governo do estado em relação ao recuo de 2015 que previam freio à reorganização escolar. Esse quadro se agrava ainda mais quando a gestão da escola recorre frequentemente à Polícia Militar para resolver problemas internos da unidade.

Ela conta que alguns alunos e professores são chamados de “parceiros” pelos gestores. Esses professores ditos “parceiros”, em sala de aula, buscam minimizar o debate a respeito da reorganização escolar e das ocupações. “Já vi falarem coisas como ‘quando vocês deixarem de serem bandidos se dirijam a mim’, e ainda acusam as meninas de ‘desfilar com shortinho mas não estudar nada’, ou que alunos não podem opinar porque são ‘ignorantes’. Com relação aos professores que apoiam o movimento dos alunos, são chamados de ‘traidores’”, denunciou a professora – que afirma ter cópias de conversas por e-mail que comprovam a conduta.

Ela ainda conta que alunos que participaram da ocupação da Fernão Dias estão sendo chamados, junto com os pais, para reuniões onde a diretoria diz que já reprovaram por falta. “Fazem mesmo sabendo que existe um dispositivo na legislação de compensação de ausência. Tais alunos não estão indo à escola porque estão sendo intimidados por outros alunos, que por sua vez são incentivados pela direção da escola e pela diretoria de ensino e fazê-lo”, contou.

A professora avalia que estão “batendo forte na Fernão Dias” porque a escola ganhou visibilidade durante o movimento secundarista do final de 2015, mas mesmo antes da ocupação a vida não andava tranquila nos corredores da escola. Talvez uma explicação da razão pela qual vimos diversas escolas ocupadas em São Paulo. Além da falta de professores e profissionais, o que gera desvios de função e sobrecarga de tarefas, havia instalações precárias, salários ainda mais precários e superlotação de salas.

“Era um cotidiano truculento com uma direção autoritária que fazia e faz desvio de função de professores, ou seja, há professores fazendo serviço de secretaria e sempre foi assim. Reunião pedagógica é para preencher papeis burocráticos, não almeja ouvir os professores nem os alunos. Esse clima só foi acentuado após a ocupação”.

E.E. Professor Fidelino de Figueiredo

Não foi apenas a notoriedade da Fernão Dias que atraiu a reorganização branca do ensino público paulista com toda sua truculência. Também na E.E. Professor Fidelino Figueiredo, localizada no bairro de Santa Cecília, região central da capital, a professora Silvana Soares de Assis, na rede estadual há 27 anos, desde 2003 nesta escola, denuncia desmandos da direção da escola e do estado como manifestações dessa reorganização branca.

Para a professora Silvana, a reorganização tem se expressado com mais força no fechamento do período noturno. “Não só na minha escola, mas nas diversas escolas da região e do estado. O governo tem uma intenção clara de paulatinamente acabar com o ensino noturno ou torná-lo residual. Na escola que eu leciono temos seis salas de aula em um universo de 17. Tínhamos essas salas de aula praticamente lotadas quando entrei na escola. Elas eram cheias no período noturno. Hoje o governo as vai deslocando para outras escolas da região e os alunos vão saindo desta”.

“O resultado imediato desse processo é a iminência do fechamento do período noturno”, conclui a professora, que ainda afirma que o período da tarde tem sido superlotado.

“Em seguida vemos alunos que gostariam de estudar no Fidelino, ao lado do metrô Santa Cecília, mas acabam sendo deslocados desta escola. Não há motivo para fechar o período noturno e isso causa um forte impacto para nós professores e para os alunos que não podem optar por estudar na nossa escola”, explica Silvana.

Ela também avalia positivamente as ocupações secundaristas e se declara apoiadora do movimento. Esteve em greve meses antes das ocupações estudantis e reconhece que faltou pautar o assunto previamente. “A discussão ganhou centralidade quando veio o pacote do fechamento de escolas. Até então já se falava disso, mas em segundo plano, e o movimento sindical não priorizou o debate. Alguns professores e alunos já vinham denunciando o que seria mais adiante a reorganização, mas sem grandes êxitos”, explica.

A professora considera a vitória dos estudantes incontestável em 2015, mas afirma que é preciso estarmos atentos ao cotidiano das escolas e que o governo já vem fazendo uma reorganização branca há alguns anos.

“Para matricular um aluno hoje nas escolas estaduais, o cadastro utiliza o CEP dele. A criança não é matriculada diretamente na escola, mas na rede, e vinculada à diretoria de ensino da região, que é quem faz a alocação do aluno em uma escola. A própria Secretaria de Educação decide onde vai alocar os estudantes. E vão enchendo algumas escolas e fechando salas e períodos de outras – onde têm a intenção de fechar as portas. Temos denunciado há algum tempo que os pais não têm mais a opção de escolher a escola mais próxima das suas casas”.

Perseguição e precarização

Assim como há perseguição dos estudantes que se colocam favoráveis às ocupações, também os professores que preferem um maior diálogo com esses estudantes têm de lidar com momentos tensos. A professora Dalva Garcia fala a respeito de ameaças de processo administrativo contra ela que beiram o surrealismo.

Contou que se encontrava sozinha com os alunos na frente da diretoria de ensino, durante ocupação lá feita. “A Força Tática estava lá. Eu negociei com os alunos para que saíssem da diretoria de ensino. Estava na negociação junto com o dirigente de ensino, o assessor de imprensa da Secretaria de Educação e um funcionário do Secretário de Educação chamado Eduardo. 

Os meninos propuseram que fosse aberta a diretoria de ensino para uma assembleia, contanto que o policiamento deixasse o local. A rua estava fechada pela polícia, não podia entrar jornalistas, advogados, ninguém; havia cerca de 30 viaturas na rua, sem contar o entorno que teve mais dois quarteirões fechados. E os meninos lá dentro”, conta a professora. Era um número desigual de policiais para cada aluno ocupante.

A negociação foi feita com a presença de todos os citados. “Em dado momento, todos que estavam lá dentro em nome da Secretaria de Educação sumiram, tentei ligar à tarde e à noite inteira e ninguém me respondeu. Depois, os estudantes foram levados em um ônibus da tropa de choque para a delegacia e eu fui até lá. Alguém deu um spray para eles pixarem o ônibus da polícia e eu, para evitar isso, dei uma aula pública sobre ética de Aristóteles”.

A acusação para o processo administrativo da professora Dalva foi de que ela não poderia dar essa aula pública, já que estava de licença. “Eu disse que não tinha cabimento e que minha vida pública não tem nada a ver com o meu trabalho. Ainda não consigo acreditar nesse descaro”, argumenta.

Para a professora Silvana Soares de Assis, o sucesso dos estudantes em 2015 é proporcional à repressão que estão enfrentando em 2016. Ela critica o apoio dado por setores da sociedade a essa repressão, mas ao mesmo tempo coloca o problema de forma estrutural. “Que sociedade permite que uma escola, em um mundo multimídia, não tenha uma sala para projetar um filme e fazer uma discussão teórica de cunho científico com uma juventude plugada nas novas tecnologias?” – questiona.

O que vemos é a decadência do ensino público paulista em processo de acirramento, onde o poder instituído segue intimidando os estudantes e professores que ousam levantar uma voz contrária e discutir problemas. Problemas que se agravam e se mostram conjunturais quando vimos o atual Secretário de Educação do Estado de São Paulo, Renato Nalini, afirmar no início do ano que a educação não está na lista de obrigações básicas do Estado com a população.

“Essa fala do secretário da Educação foi extemporânea e estapafúrdia. É impossível imaginar uma sociedade em que a educação não é política de Estado. Ela é condição sine qua non para qualquer sociedade moderna poder minimamente se desenvolver, de um ponto de vista não só econômico, mas humano e cidadão”, rebate a professora Silvana. Para ela, a fala do secretário não tem qualquer fundamentação teórica ou prática, só expressa algo que tenha sido a própria intenção do governo do estado ao colocar esse senhor à frente da Secretaria de Educação.

Enquanto isso, os problemas continuam. As instalações seguem em péssimas condições, assim como as condições de trabalho e salário dos professores e demais profissionais. A falta de material escolar não foi resolvida e o clima dentro das escolas segue uma lógica de barbárie, de acordo com as descrições das professoras. Além disso, podemos observar o fechamento de milhares de salas e centenas de períodos por baixo dos panos. Resta ver quais serão os próximos passos de alunos e professores no sentido de fortalecer e democratizar o debate – e também a força que terão para sustentá-lo.

(*) Raphael Sanz é jornalista do Correio da Cidadania.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Trump e Hillary cada vez mais pró-Israel

                                                                  

Luiz Eça (*)

“Penso que a longo prazo será no interesse do Oriente Médio que a Palestina seja um Estado, um Estado responsável pelo bem-estar dos seus cidadãos, um Estado responsável por oferecer educação e saúde pública e oportunidades econômicas aos seus cidadãos”.

Adivinha quem disse isso? Errou.

Por incrível que pareça, foi Hillary Clinton. É verdade que faz tempo, foi em 1998.

De lá para cá, ela mudou muito. Depois de censurada fortemente por figuras significativas do establishment, inclusive de Israel, que negavam o direito dos palestinos à independência.

Ela rapidamente corrigiu seu erro e passou a endossar todas as posições pró-Telavive.

Mudou um tanto quando secretária de Estado, para seguir a posição moderada do seu chefe, o presidente Obama.

Em meados de 2009, manifestou-se contra os assentamentos. Uma vez fora do seu posto, voltou a defender os interesses do governo de extrema-direita de Bibi Netanyahu como sendo seus.

Talvez tenha chegado ao máximo na conferência da AIPAC (maior organização pró-Israel dos EUA), quando, segundo o The Intercept, nas 3.301 palavras do seu discurso, totalmente dedicado a exaltar a política de Israel, não mencionou uma única vez os palestinos.

Como ela, Donald Trump navegou de uma posição mais equilibrada para o apoio incondicional a Israel.

Em fevereiro deste ano, ele apresentou-se como neutro no conflito entre israelenses e palestinos.

Mas logo abriu os olhos para os bilhões de dólares dos judeus norte-americanos e sua influência no Congresso e na imprensa do país.

Há alguns meses, o chefe dos seus assessores, David Friedman, comunicou à imprensa que The Donald não aceitava mais a possibilidade de uma Palestina independente. Não disse porque mudara tão abruptamente, embora ninguém tivesse dúvida sobre as razões.

E Friedman ainda disse que o seu boss estava comprometido com a expansão dos assentamentos e apoiava in totum a ideia da anexação de parte significativa da Cisjordânia.

Por aí se vê que, ainda que haja dúvidas sobre quem será o substituto de Barack Obama, o grande vencedor será Israel.

Netanyahu e seus confrades da extrema-direita radical israelense dormem tranquilos o sono dos justos, ou melhor, dos injustos.

2017 vai ser um feliz ano novo para eles. Pobre Palestina.

Diplomatas querem EUA em guerra

Longe vão os tempos de Franklyn Delano Roosevelt, quando o departamento de Estado, centro da diplomacia estadunidense, buscava resolver conflitos com o recurso que lhes era próprio: diplomacia.

Longe vão os tempos de Jimmy Carter, quando os diplomatas do departamento de Estado pressionavam as ditaduras militares sul-americanas aliadas para que parassem de torturar seus adversários.

Hoje, o departamento de Estado mereceria mudar seu nome para departamento de Guerra.

Com Ronald Reagan, Bill Clinton e os dois presidentes Bush, falcões foram invadindo e tomando conta daquele arsenal da paz.

Um deles, Victoria Noland, sub-secretária de Defesa para a Europa Oriental, destacou-se ao dirigir a revolução ucraniana, que George Friedman, presidente do insuspeito think-tank Straford considerou “o mais clamoroso golpe da história. ”

A diplomata Noland ficou famosa por uma gravação telefônica mandando a Europa “se f...” por estar tratando a revolução na Ucrânia com moderação.

Agora, mais uma desse moderno “american way of diplomacy” foi revelada quando o New York Times publicou um “Dissent Channel” do departamento de Estado.

Trata-se de um mecanismo pelo qual funcionários do departamento expressam desagrado com o governo, sem o temor de serem penalizados; 51 diplomatas e outros funcionários pedem “uma posição mais assertiva dos EUA na guerra da Síria (contra o governo Assad), com o uso inteligente e equilibrado das armas aéreas”.

Eles se explicam afirmando que a guerra contra o ISIS fracassará e os EUA precisam de “uma postura mais muscular” na Síria, mirando diretamente o governo Assad.

Obama deveria deixar os selvagens do ISIS em paz, ou pelo menos atacá-los menos, concentrando seu fogo, inclusive da sua aviação, contra as forças do governo Assad.

Dá para prever o que aconteceria.

Livres das bombas ianques, os milicianos radicais do ISIS poderiam expandir seus territórios e aumentar seus atentados contra alvos no Ocidente.

É claro, matando muitos civis europeus inocentes. Matar norte-americanos seria mais complicado devido à distância.

Enquanto isso, bombardeios estadunidenses de alvos da Síria sob Assad acabariam causando choques com aviões russos, empenhados em bombardear as forças da Frente Al-Nusra, filial da al Qaeda, aliada dos moderados pró-Ocidente.

Não carece dizer que poderia ser o estopim de uma 3ª Guerra mundial. A ideia de que os russos fugiriam aos combates com os aviões dos EUA, intimidados pela superioridade ianque, é ilusória.

Putin não costuma amainar. Nesse contexto, seria inevitável uma escalada até se chegar a um desfecho imprevisível.

As mortes causadas por essa estratégia bélica, via ISIS no Ocidente e via forças armadas norte-americanas e russas no Oriente Médio, fazem lembrar frase da secretária de Estado de Bill Clinton, Madeleine Albright.

Quando perguntada numa entrevista se não lamentava a morte de 500 mil crianças iraquianas provocadas pelas sanções norte-americanas, ela respondeu: “Acho que foi uma decisão difícil de tomar. Mas o preço... O preço acho que valeu a pena”.

Inesperadamente, acho que para fazer média com seu pessoal, o secretário John Kerry disse que a tese tinha sido inteligentemente construída.

Esta, digamos, delicadeza, revela que Obama – chefe de Kerry – está sofrendo poderosas pressões para aumentar consideravelmente seu apoio militar aos rebeldes sírios, deixando a guerra ao ISIS em segundo plano.

Talvez até colocar a força aérea em ação contra o regime de Assad. A CIA já se manifestou na mesma linha, acrescentando que qualquer sugestão de que se deve continuar focando o ISIS é “propaganda russa”.

Por aí vemos que o ex-presidente Kennedy queria fechar a CIA, não somente pelo facciosismo dela, mas também por sua incompetência, provada no fracasso na invasão da baía dos Porcos, em Cuba.

Felizmente, desta vez o Pentágono está contra os diplomatas do departamento de Estado adeptos do war party.

Ele reafirmou que a prioridade é a guerra contra o ISIS, ao frustrar um contrabando de armas da CIA e do departamento de Estado a rebeldes moderados, já que eles eram “praticamente inexistentes e que acabam, em geral, aderindo ao Nusra”.

O Pentágono prefere que o país se limite a bombardear o ISIS, em apoio ao eficiente exército curdo, enquanto a Rússia lança seus aviões em coordenação com os ataques terrestres sírios.

Por enquanto, vai indo bem, o ISIS está perdendo terreno, enquanto se espera por um acordo entre good guys e bad guys sírios, negociado por seus patrocinadores.

O grande problema é que, daqui a seis meses e meio, assume uma das duas figuras belicistas que vai substituir Obama.

Muito provável que, não sendo os fuzis embainhados de vez até esta data, teremos soluções mais agressivas, próximas às fantasias guerreiras desses 51 diplomatas do departamento de Estado.

Eles sonham especialmente com a chegada de H. Clinton ao governo, certos de que ela autorizará uma invasão da Síria para estabelecer as chamadas “zonas seguras” e “zonas livres de aviões”.

Que, por serem de difícil e discutível delimitações, podem trazer combates indesejáveis entre aviões sírios e norte-americanos ou, o que será muito pior, entre aviões russos e norte-americanos.

Parece que os fracassos nas guerras da Líbia, Iraque e Afeganistão não foram suficientes para saciar a sede de glórias desses diplomatas, indiferentes às baixas de dezenas de milhares de soldados de seu país, entre mortos e feridos – e ao 1,5 trilhão de dólares do povo, queimado inutilmente.


(*) Luiz Eça é jornalista.
Website: Olhar o Mundo.

(Com o Correio da Cidadania)

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=90290098395548085#editor/target=post;postID=6321184861466227561