quinta-feira, 7 de março de 2013

Muchas gracias y hasta siempre


                                                   

Henrique Júdice [*]

Escrevo entre o impulso ditado pela emoção e a dificuldade derivada da mesma fonte para alinhar as ideias. Não pretendo redigir uma resenha biográfica nem um balanço político dos 14 anos de poder de Hugo Rafael Chávez Frías, mas tão-só um registro de gratidão e reconhecimento. 

Tendo me formado politicamente em meio ao refluxo da esquerda latino-americana nos anos 1990, acompanhei com simpatia e com uma cautelosa esperança sua primeira candidatura presidencial, em 1998. Aquele decênio havia sido pródigo em frustrações para o continente, inclusive sob a forma de líderes que chegavam ao poder prometendo enfrentar o Consenso de Washington e no dia seguinte curvavam-se a ele. Chávez, como logo ficou claro, era vinho de outra pipa. 

Sabemos que os tempos históricos nem sempre guardam com os cronológicos coincidência precisa. No caso de Chávez, porém, o hiato foi pequeno: sua chegada ao poder, em 1999, foi, para a América Latina, o início do fim da década de 90 do século XX. O fim definitivo dar-se-ia em 2005, em Mar del Plata, na Argentina, quando, ao lado de Néstor Kirchner, liderou o bloco sul-americano que enterrou a proposta da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). 

Entre uma coisa e outra, houve o golpe de Estado de 2002 e sua reversão, inédita na história do continente. Naquela época, eu passava por uma situação pessoal muito difícil e a notícia, quase inacreditável, da vitória popular e do resgate do presidente da prisão na ilha de La Orchilla me devolveram o gosto pela vida.

Chávez, um militar que chegou e se manteve no poder pela via institucional, provou ali sua coragem física, sua fibra em momentos decisivos e sua capacidade para enfrentar a oligarquia e o imperialismo também no terreno para o qual formara-se originalmente. Era quase como se Allende revivesse e derrotasse as forças que atacavam La Moneda em 1973. 

Sob a condução do Comandante Chávez, a Venezuela foi, nesses 14 anos, o ponto de Arquimedes da resistência ao imperialismo e da integração latino-americana. Mais que colocar a renda do petróleo e a geopolítica a serviço desses objetivos, ele desatou uma revalorização cultural, subjetiva, da identidade continental. E em que pese alguns recuos na questão colombiana impostos pela famigerada razão de Estado, apoiou todas as lutas populares em curso no continente. Os brasileiros recordaremos sempre seu gesto de estender aos trabalhadores que haviam tomado o controle da Flaskô e da Cipla a mão que o governo daqui, do qual era aliado, lhes negava. 

Neruda escreveu um poema chamado Un canto para Bolívar que eu vim a conhecer por causa de Chávez, que gostava de citá-lo. "És ou não és quem és?" ?– pergunta o poeta chileno ao Libertador ao encontrá-lo na Madri dos anos 30. "Desperto a cada cem anos, quando desperta o povo", responde o venerável espectro. A Venezuela, a América Latina e o mundo perderam hoje um personagem histórico da mesma dimensão de Bolívar, San Martín, Artigas, Martí, Allende, Che Guevara e Fidel Castro. E isto, ao contrário do que pode parecer, não é um preito, mas uma análise histórica objetiva que, em algumas décadas, será confirmada. 

Muchas gracias, Comandante Chávez! Y hasta siempre! 

06/Março/2013

[*] Jornalista, brasileiro. 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

segunda-feira, 4 de março de 2013

No dia 5 vamos lutar pela preservação do atual imóvel da Casa do Jornalista

José Paulo Netto fala sobre 'Para Uma Ontologia do Ser Social'

                                                       
Entrevista de José Paulo Netto ao repórter Rodrigo Petronio, de O Estado de S. Paulo, sobre o lançamento do livro Para Uma Ontologia do Ser Social, do filósofo húngaro György Lukács, pela Boitempo Editorial.

Na apresentação do livro Para Uma Ontologia do Ser Social (1968), o senhor menciona esta obra como fruto de um movimento no qual Lukács tenta um “renascimento do marxismo”. Em que sentido se deu esse renascimento?

Depois de 1956, Lukács (que, como se sabe, foi um protagonista importante do processo que culminou na insurreição húngara daquele ano, dirigida contra o stalinismo vigente também na Hungria) teve condições de explicitar as suas críticas ao que esquematicamente se pode designar como a “era stalinista”.

No plano do desenvolvimento do marxismo, o filósofo sustentou que a nota dominante do regime stalinista foi a dogmatização, a sectarização – em suma, o que chamou de “paralisia teórica” do pensamento que se reclamava de Marx. Para ele, a superação efetiva da pesada herança do período de Stalin implicava um esforço teórico não só para recuperar o que julgava ser o autêntico espírito do pensamento marxiano, asfixiado a partir dos anos 1930, mas sobretudo para, a partir desta recuperação, analisar e compreender a realidade do capitalismo contemporâneo (e também a própria problemática do socialismo existente).

Precisamente esse esforço – que, segundo Lukács, deveria envolver a renovação da pesquisa econômico-política, filosófica e cultural – resultaria no que ele concebia como um “renascimento do marxismo”, que considerava urgente e necessário se os marxistas quisessem dialogar com o tempo presente e intervir adequadamente nas transformações em curso à época. E, de fato, parece inconteste que os anos 1960 assistiram à emergência de tendências neste sentido, tanto nos países do Leste europeu quanto no Ocidente, num processo que foi bastante problematizado, a partir dos anos 1980, com as derrotas do movimento socialista em escala mundial.

Lukács projetou a sua Ontologia de modo articulado à sua Estética e à sua Ética. Como ocorre essa articulação em seu pensamento?

Lembremos que a Estética (mais exatamente, a sua primeira parte, concluída em 1960) publicou-se em 1963 e a Ética nunca foi redigida. Lukács concebeu originalmente a Ontologia para ser tão somente a “introdução” à Ética.

Contudo, a impostação ontológica do marxismo de Lukács emerge já nos anos 1930 e, desde então, percorre toda a sua obra, embora só tenha a sua centralidade afirmada abertamente e exponenciada na década de 1960 (inclusive por razões políticas – não se esqueça que, para Lukács, o stalinismo expressa uma “invasão” neopositivista no marxismo e sabe-se do caráter anti-ontológico do pensamento neopositivista). 

É apenas no segundo terço dos anos 1960 que Lukács evidencia claramente a urgência da tematização da ontologia – e o faz porque, sem uma teoria do ser social (exatamente uma ontologia do ser social), não haveria como fundar, de modo materialista e dialético, uma ética. Compreende-se, pois, por que ele pensou aquela como “introdução” a esta.

As bases da Estética configuram nitidamente uma concepção ontológica do marxismo, ainda que esta não seja explicitada como tal. Por isto, não há nenhuma relação excludente (ou mesmo colidente) ou, ainda, externa entre a Estética e a elaboração dos últimos anos de Lukács, salvo no plano terminológico. Antes, o que de fato se verifica é uma articulação íntima e medular entre a Estética e a Ontologia: nesta, os pressupostos daquela são expostos e tratados enquanto fundantes de toda a reflexão marxiana (não por acidente, Lukács enfatiza os “princípios ontológicos fundamentais” de Marx).

Qual seria então, para Lukács, a consequência política mais evidente dessa “invasão neopositivista no marxismo”?

Uma das características que, conforme Lukács, marcam o marxismo próprio à era stalinista foi a sua conversão numa ideologia rasteiramente pragmática e taticista; para Lukács, esta verdadeira perversão se vinculou estreitamente à matriz neopositivista – não se trata, aqui, de eventuais influxos das formulações dos pensadores neopositivistas, mas da incorporação de um quadro teórico-conceitual, socialmente determinado, cujo viés epistemologista e anti-ontológico se adapta à legitimação de uma práxis essencialmente instrumental.

No plano imediatamente político, isto se traduziu numa concepção administrativa do processo social, derivando no burocratismo e no comportamento manipulador próprio das instâncias político-partidárias do regime stalinista.

Em que sentido a renovação do marxismo proposta na abordagem ontológica de Lukács se distingue de sua contribuição inovadora em uma de suas obras de juventude e uma das obras mais influentes do marxismo,História e Consciência de Classe, de 1923?

Não há dúvida de que a obra do “jovem” Lukács – e me refiro à obra de Lukács anterior à sua adesão ao comunismo (1918) – é importante e valiosa, como, aliás, Max Weber corretamente avaliou. E também não há dúvida de que História e Consciência de Classe, seu primeiro livro marxista de enorme relevância (embora não se deva esquecer Tática e Ética, de 1919), marca uma óbvia ruptura com o que ele produziu até 1918. Mas o marxismo revolucionário de História e Consciência de Classe é – inclusive na ulterior apreciação do próprio Lukács – elaborado a partir de uma concepção não ontológica (mais exatamente: anti-ontológica) da obra de Marx.

Neste sentido, o “último” Lukács, o da Estética e da Ontologia, opera num quadro de referência essencialmente distinto daquele do “jovem” Lukács e, igualmente, do Lukács de História e Consciência de Classe. Apenas para indicar um ponto nevrálgico: no genial livro de 1923, a categoria trabalho, fundante do pensamento do “último” Lukács (e não só), é residual; as implicações teórico-filosóficas deste giro são decisivas para as concepções de sociabilidade, de história e de cultura.

Penso, todavia, que se deve ter o cuidado para não absolutizar a noção de “ruptura” no pensamento de Lukács. Uma análise rigorosa da sua obra revela, para além de pontos de ruptura (a maior, indiscutivelmente, foi a decorrente da sua adesão ao comunismo e ao marxismo), continuidades profundas. Não me parece casual, por exemplo, que o “último” Lukács retome, é óbvio que noutro registro, exatamente as suas temáticas juvenis – a estética e a ética.

Nesse sentido, poderíamos dizer que a preocupação ontológica demarca a passagem do jovem Lukács a um Lukács maduro?

Concordo com esta afirmação, se ela expressa a ideia de que, com a impostação ontológica, Lukács supera o seu marxismo dos anos que vão de 1918 a 1923 e desde que façamos duas observações. Primeira: essa passagem, verificável na abertura dos anos 1930, é um processo, que pode ser rastreado na segunda metade da década anterior (o giro que se concretizará entre 1930-1932 é detectável já a partir do ensaio Moses Hess e o Problema da Dialética Idealista, de 1926); segunda: o Lukács posterior a 1930 não evolui e avança de modo unilinear; entre os anos 1930 e o fim dos anos 1950, registram-se momentos diferenciados na sua obra. Com efeito, se há um fio vermelho que unifica o conjunto da produção lukacsiana posterior a 1918, esta unidade não elude estágios distintos na sua evolução.
O senhor menciona que a reflexão de Lukács sobre a ontologia começa a se desenvolver na década de 1930, embora de modo mais crítico-negativo do que propositivo. Quais os fatores dessa guinada da importância da ontologia no pensamento de Lukács?
De fato, penso que devemos localizar o giro do pensamento de Lukács na direção da ontologia na entrada dos anos 1930, quando ele teve a oportunidade de conhecer, em Moscou, os até então inéditos manuscritos marxianos de 1844 e, em seguida, de prosseguir numa nova leitura de Lenin.
A meu juízo, estimularam de imediato este giro dois fatos (intimamente relacionados): a reação negativa do comunismo oficial à História e Consciência de Classe e, em 1929, a derrota política que Lukács experimentou no interior do partido comunista húngaro – ambas tinham resultado numa autocrítica “insincera”. A necessidade de compreender os verdadeiros equívocos teóricos de 1923 (não os apontados pelos seus críticos comunistas, que ele tentou replicar num texto que ficou inédito até 1996, Reboquismo e Dialética) e o fracasso político de 1929 é que o conduziram à inflexão no sentido da ontologia. Como se vê, fatores imediatos tanto teóricos como políticos. No plano teórico, a primeira grande implicação deste giro comparece em O Jovem Hegel e os Problemas da Sociedade Capitalista (concluído em 1938 e publicado em 1948); no plano político, a implicação foi permanecer no interior do movimento comunista a qualquer preço para combater o fascismo, suportando o stalinismo para, no seu interior, travar a resistência possível, com os limites que afetaram a sua obra.
No “último” Lukács, o que explica a centralidade da ontologia é o duplo movimento que, segundo o filósofo, determinaria o “renascimento do marxismo”: ela seria o requisito para, de uma parte, operar a crítica substantiva às deformações do pensamento de Marx que foram conaturais à era stalinista e, de outra, para a sua renovação em face das novas exigências postas pela dinâmica sócio-histórica do século 20.
Em geral se associa Lukács a outros importantes nomes da renovação da teoria marxista: Ernst Bloch e Karl Korsch. Quais outros nomes diretamente ligados ao pensamento de Lukács o senhor destacaria?
A associação a que você se refere tem razão de ser. A década de 1920 foi, a meu juízo, das mais fecundas no desenvolvimento do marxismo – e esta fecundidade está relacionada à dinâmica dos processos revolucionários europeus, desatada pela crise aberta pela Primeira Guerra Mundial e pela Revolução de Outubro.
A amizade que uniu Lukács a Bloch foi, do ponto de vista existencial, absolutamente importante. Mas se ambos também tinham uma visão política da conjuntura muito semelhante (eram “messiânicos”, como o disse Lukács) e partiam teoricamente do reconhecimento da importância de Hegel para o marxismo, parece-me que suas concepções filosóficas nunca foram inteiramente compatíveis. Diferente foi a relação com Korsch (muito menos significativa no plano pessoal): até cerca de 1925 – e isto se comprova com a leitura de Marxismo e Filosofia, que sai no mesmo ano que História e Consciência de Classe –, havia muito de comum entre eles (em especial a postura antipositivista).
Ademais de Lenin, o pensamento de Lukács, à época, também se nutriu de inspirações provindas da obra (e da ação) de Rosa Luxemburgo, a quem o filósofo húngaro sempre admirou.
Mas não se deve esquecer que, aderindo ao marxismo, Lukács não fez (e felizmente!) tabula rasa da sua formação pré-marxista, na qual Simmel teve participação. Parece-me, todavia, que foi extremamente importante a relação (não só intelectual, mas de amizade) que Lukács manteve com Max Weber – a influência de Weber, indiscutivelmente, foi muito forte sobre o filósofo.

Quais as principais convergências e divergências entre dois dos maiores expoentes do marxismo no século 20, Lukács e Gramsci?

Ao que sei, Lukács conheceu o trabalho de Gramsci muito tardiamente – com certeza, a partir de finais dos anos 1950. Mas, numa oportunidade, chegou a dizer que o marxismo que se renovava nos anos 1920 tivera em Gramsci, Korsch e nele mesmo os seus principais expoentes.
Meu amigo Carlos Nelson Coutinho, recentemente falecido, sem desconhecer as profundas diferenças entre Lukács e Gramsci, sempre insistiu na compatibilidade teórica entre ambos – caracterizava como falsa a fórmula excludente “Lukács ou Gramsci”, sublinhando a alternativa “Lukács e Gramsci” para o “renascimento do marxismo”.
Claro que há elementos convergentes entre os dois pensadores: a valorização das instâncias da cultura e do diálogo crítico com a herança cultural do passado, a crítica radical da ordem burguesa, o protagonismo dos trabalhadores no processo revolucionário, a indispensabilidade do partido na condução deste processo... Afinal, ambos foram marxistas e revolucionários.
Entretanto, o que me parece distingui-los é a sua concepção filosófica do marxismo e, decisivamente, a fundamentação ontológico-materialista que dela oferece Lukács. Do ponto de vista estritamente filosófico – e sei que esta afirmação é polêmica –, o pensamento de Gramsci apresenta insuficiências e elas têm implicações sobre o conjunto de sua obra.
Segundo Lukács, “a política é o meio, a cultura é o fim”. Nesse sentido, mesmo partindo de uma estreita relação entre cultura e política, haveria uma distinção metodológica essencial entre ambos?
Você recordou aquele que me parece ser o mote de toda a obra de Lukács, o “núcleo problemático original” (a expressão é de Mészáros) que sempre vertebrou o pensamento do filósofo húngaro. E estou convencido de que os vários e diferentes registros teóricos em que Lukács tematizou esta questão central – de 1908 (A Evolução do Drama Moderno) às suas últimas intervenções – tiveram, todos eles, por base uma convicção que permaneceu inabalável: a hostilidade da ordem do capital às objetivações anímicas humanistas (em especial, mas não exclusivamente, às da chamada alta cultura).
E, na própria formulação, fica evidenciado o diferente estatuto que Lukács atribuiu à cultura e à política. Sem ter da política uma concepção meramente instrumentalista, Lukács jamais conferiu a ela o significado que adjudicou à cultura. Para dizer de maneira breve: a política é tão somente um conjunto de meios e atividades através dos quais, nas sociedades que ainda não transcenderam a exploração, a alienação e as múltiplas formas de opressão, os homens travam as lutas emancipatórias que podem abrir a via ao “reino da liberdade”. Neste, que nunca imaginou ser um paraíso terrestre livre de tensões e conflitos, o pensador húngaro visualizava a possibilidade de novas modalidades de desenvolvimento cultural pleno.

Qual a maior atualidade de Lukács?

Referi-me há pouco às derrotas do movimento socialista no período pós-1980 e ao fato de elas terem problematizado o “renascimento do marxismo” por que o Lukács se empenhou. Nos últimos 20 anos do século 20, a ambiência cultural (para não falar já da política) mostrou-se francamente adversa ao socialismo e ao marxismo – provam-no a vigência das teses sobre o “fim da história” e as teorias pós-modernas. Foram anos em que o pensamento de Lukács experimentou o que, noutra oportunidade, chamei de seu “terceiro exílio”.

Todas as indicações mais recentes sugerem que esta conjuntura cultural (a dos “tempos conservadores”, como a designou o injustamente esquecido Agustín Cueva) está a esgotar-se. A crise sistêmica que vem corroendo a ordem do capital já não pode ser minimizada e, menos ainda, ocultada. Uma das suas implicações, provavelmente a médio prazo, será – se a barbárie presente não nos destruir e para conjurá-la – a ativação do pensamento e da ação socialista e, no interior do seu diferenciado campo, do marxismo. Para uma tal ativação, o contributo de Lukács (e, particularmente, da sua Ontologia) será indispensável.

A minha hipótese de trabalho é que somente um marxismo liberado de todo o ranço remanescente da era stalinista, aberto ao debate e plural – mas com fronteiras claras e suscetíveis de polêmica e dissenso –, somente um tal marxismo terá viabilidade. A obra de Lukács será constitutiva desse marxismo. Por isto, mais que atual, ela é prospectiva.(Com a Fundação Dinarco Reis)



Pela soberania do povo galego

sábado, 2 de março de 2013

Declaração conjunta das FARC-EP e do Movimento Continental Bolivariano (MCB) sobre a saída política ao conflito armado na Colômbia


                                                              

Da esquerda para a direita: Carlos Casanueva, Alexandra Nariño, Carlos Morais, Narciso Isa Conde, Jesús Santrich, Iván Márquez, Ricardo Téllez e Andrés París.

A delegação de Paz das FARC-EP e a direção do MCB, reunida em Havana, Cuba, território livre da América e avançada da segunda independência latino-caribenha, conclamam os povos deste continente e do mundo a impulsionar, com renovado entusiasmo e intensa participação, o desenvolvimento exitoso dos diálogos que ocorrem nesta cidade histórica.

Nada pode ser mais imperioso que obter uma saída política justa e digna a este devastador conflito social armado para um povo que, como o colombiano, sofreu – e sofre – os rigores de uma guerra encarniçada, imposta ao longo de meio século por um Estado, uma classe dominante – governante e uma superpotência imperialista, os Estados Unidos, empenhada em assumir o terror como meio de submissão e saquear.

Urge, portanto, deter essa tendência cruel e destrutiva, acordando quanto antes melhor, um cessar fogo bilateral, que limpe a atmosfera carregada de confronto violento que, todavia, perdura; favorecendo assim o exame cuidadoso, objetivo, desapaixonado e profundo das causas econômicas, sociais, políticas e culturais do estado de guerra a ser superado.

Tal desafio não só exige a boa vontade das partes dialogantes, como também a participação ativa da sociedade colombiana, de suas organizações sociais, policiais, sindicais, camponesas, ambientalistas, culturais, acadêmicas, científicas…

Além disso, dado que é um conflito internacionalizado e de alto calibre, exige a solidariedade e o apoio construtivos dos povos de nossa América e do mundo, desejosos de paz, democracia verdadeira, autodeterminação e justiça social; metas fundamentais e imperiosas para criar uma nova Colômbia em um continente mais unido e mais solidário.

Se injusto e arbitrário tem sido tentar criminalizar a solidariedade para com as heroicas rebeldias armadas do povo colombiano, agora, se mostram grotescas as novas tentativas de processar a solidariedade para com os recentes e significativos esforços de paz.

Recai sobre o MCB, do qual fazem parte as FARC-EP, a responsabilidade irrenunciável de contribuir para essa inequívoca e necessária participação solidária de nossos povos a favor de uma saída política ao conflito social armado colombiano e da construção da paz desejada, sobretudo quando se apresentam condições que possibilitam sua criação. Assim, seria insensato e irresponsável depreciá-las.

Temos sido solidários com as imprescindíveis insurgências e com os combates libertadores, forjados na paz e dignidade humana. É uma linha de princípios que estendemos a todas as lutas justas que se dão em nosso planeta: a batalha de Cuba contra

o bloqueio e os planos de agressão dos EUA, a defesa do processo Bolivariano da Venezuela, a independência do Porto Rico e demais colônias, a heroica resistência dos povos curdos, palestinos, bascos, iraquianos, galegos, afegãos; o repúdio à guerra cruel contra a Líbia, a condenação à brutal agressão à Síria e às ameaças de guerra contra o Irã e a Coreia do Norte; a saída das tropas estrangeiras do Haiti, o repúdio à intervenção neocolonial francesa no Mali, a saída ao mar da Bolívia, a justa rebeldia mapuche no Chile e as legítimas reivindicações de nossos povos originários, o rechaço aos detestáveis golpes e às cruéis repressões em Honduras e Paraguai; a horripilante situação mexicana provocada pelo neoliberalismo desenfreado, a dependência dos EUA, o narco-poder e a corrupção do Estado; as atuais lutas do povo dominicano e os povos do Peru, Argentina e Chile para impedir o saque e a depredação das grandes transnacionais mineiras.

Linha internacionalista inseparável de nosso clamor pela paz e pelo bem-estar coletivo em todo o continente e no mundo.

Satisfaz sobremaneira ao MCB e às FARC que, no curso dos diálogos de paz em Havana, seja destacado e denunciado (fenômeno por demais mundial e crucial) como no presente se agrega à velha e teimosa grande propriedade de terras e ao neoliberalismo – ambos operando como fontes de empobrecimentos atrozes e de confrontações sociais violentas – a odiosa apropriação de territórios, o saque e a depredação de recursos naturais e variadas fontes de vida por parte das poderosas corporações mineiras, que gozam de licença para roubar e destruir. Tudo isto no contexto de uma espécie de guerra global de rapina contra a mãe natureza; agressões que precisam ser derrotadas a partir da indignação e da mobilização popular.

O acesso, o destino, a propriedade e o uso, já não só  da terra, mas do território (do solo, subsolo, sobressolo... biodiversidade, vida animal e vegetal e meio ambiente), sob os nefastos programas de reordenamento territorial a cargo do grande capital transnacional em conspiração com governos nacionais entreguistas. Assim, passam a ser de escala mundial temas chaves e causas para lutas transcendentais pela a defesa da vida dos povos e do planeta, ameaçada por um capitalismo imperialista decadente e voraz em meio da multicrise crônica que o estremece.

A soberania alimentar é impossível de alcançar se não são revogados esses nefastos projetos de extração mineira, de exploração energética irracional e de produção de biocombustíveis em terras com potencial agrícola.

Suas graves consequências são inevitáveis, não só na Colômbia, como também em escala continental e mundial.

Elas nos convocam a uma grande convergência político-social para deter este louco caminho para a morte, imposta por um padrão de consumo capitalista supérfluo e desperdiçador, realmente insustentável a meio prazo.

Recordemos o Libertador: “Unidos seremos fortes e mereceremos respeito; divididos e isolados pereceremos”.

Estamos frente a uma verdadeira emergência nacional, regional e mundial que nos obriga a deter o curso destrutivo da guerra e o programa depredador, empobrecedor e desnacionalizador do capitalismo neoliberal globalizado.

Não se trata agora, nestes diálogos, de conquistar as metas supremas dos que abraçam os ideais de redenção socialistas-comunistas, que implicam o fim da exploração, alienação e dominação burguesa, e também da opressão de povos e nações, do patriarcado, do racismo e do adulto-centrismo que o acompanham, e resultam funcionais a sua perversa dinâmica exploradora e excludente; ideais e programas transformadores que implicam também a progressiva extinção do Estado, o fim de toda repressão e o máximo de liberdades.

Porém, trata-se da abertura de uma nova rota que, imediatamente, possibilite superar as questões mais imperiosas e dramáticas, para logo continuar avançando.

Daqui, da Cuba revolucionária, clamamos com Martí que “Pátria é humanidade” e nos declaramos patriotas e internacionalistas impenitentes.

Jamais renunciaremos à solidariedade entre os povos!

Expressamos nossa alegria pela ascendente recuperação do Comandante Chávez, atual símbolo da solidariedade continental; e o saudamos por seu exemplar combate pela vida e sua tenaz militância na luta pela emancipação da humanidade.

Daqui, reiteramos que em Bolívar e nos heróis e heroínas de nossa América e do mundo nos encontramos todos nesta luta “pelo pão, pela beleza e pela alegria”.

Até a vitória sempre!

Pelas FARC-EP:
Iván Márquez Narciso Isa Conde

Jesús Santrich

Alexandra Nariño

Marco Calarcá

Ricardo Téllez

Andrés París

Pelo MCB:
Narciso Isa Conde

Carlos Casanueva

Carlos Morais


Havana, Cuba, Território Livre da América, 20 de fevereiro de 2013.(Com o site do PCB)

Mexicanos expulsam multinacional por danos ambientais


                                                                         
Entre gritos de "Viva Zapata!” e sons de caracol, centenas de cidadãos, homens e mulheres deste povoado zapoteco dos Vales Centrais de Tetipac decidiram em Assembleia Geral expulsar a companhia mineira Plata Real, filial da canadense Linear Gold Corporation, pela contaminação causada em seus lençóis freáticos durante os trabalhos de exploração em seu território.

Além disso, repudiaram o presidente do Comissariado de Bens Comuns, Marcelo Fructuoso Martínez, por confabular com a empresa mineira para estender um novo convênio por mais cinco anos e permitir assim o desenvolvimento de mais trabalhos.

Também determinaram fechar os acessos desta municipalidade para evitar a entrada de trabalhadores e pessoas técnico da companhia mineira.

"Que larguem o povo!”, "Não queremos a mina!”, "Queremos água limpa, não contaminação!”, gritaram os cidadãos durante a Assembleia Geral, onde participaram dezenas de oradores tanto em zapoteco como em castelhano. 

Os moradores também ameaçaram em expulsar a Fructuoso Martínez e fechar sua casa, assim como extrair o maquinário da companhia mineira do terreno onde se encontra armazenada.

De acordo com um informe da Secretaria de Economia, a Direção Geral de Regulação Mineira outorgou em 6 de setembro de 2007 a concessão 230489 intitulada "O Doutor” para a empresa Plata Real, para exploração e aproveitamento de ouro e prata em uma superfície de nove mil 653 hectares de terras comuns de Magdalena Teitipac, até 5 de setembro de 2057.

Em troca, a filial da canadense Linear Gold Corporation se comprometeu em entregar uma contraprestação de 15 mil dólares durante os dois primeiros anos de vigência e 20 mil nos anos seguintes.

O prefeito, Joaquín Gómez Aguilar, disse que a Assembleia Geral determinou expulsar a companhia mineira porque os trabalhos de exploração causaram grave contaminação no rio e nos lençóis freáticos da comunidade, pelo uso de cianuro, arsênico e mercúrio.(Com a Adital/Pátria Latina)

Liberdade de expressão