quarta-feira, 7 de junho de 2017

A luta vitoriosa de José Martí

A ascensão das claques antifascistas no futebol brasileiro

                                                          
 Matheus Medeiros  

Em geral, as claques do futebol não têm sido associadas a qualquer tipo progressismo. Mas nos estádios do Brasil multiplicam-se os grupos libertários e críticos ao capitalismo. Este texto guia-nos no conhecimento de alguns deles

O volante palmeirense Felipe Melo e o meia corintiano Jadson manifestaram, nas últimas semanas, apoio público ao pré-candidato à presidência Jair Bolsonaro, do PSC. É capaz que alguém numa terra muito distante tenha curtido, mas a grande maioria criticou as declarações amistosas dos boleiros à baixa tolerância de Bolsonaro. Por tabela, fez vir à tona uma série de agremiações com ideais contrários, isto é, mais tolerantes e a favor da inclusão de minorias — as autodenominadas torcidas antifascistas.

“Acho que é importante pros torcedores entenderem que o cara pode ser adorado pela torcida e tal, mas isso não impede que tenha posições intolerantes e apoie um candidato neonazista”, afirma A. T., um dos fundadores da Palmeiras Antifascista, que se protificou a repudiar o posicionamento agressivo de Melo nas redes sociais. “Não podemos fazer vista grossa pra um cara propagando a intolerância só porque defende nossas cores.”

Atualmente, além de Palmeiras, torcedores de pelo menos 27 clubes já se reúnem em coletivos ativos que defendem pautas antifascistas: ABC-RN, América-RN, Atlético Mineiro, Bangu, Botafogo-RJ, Botafogo-SP, Corinthians, CRB, Cruzeiro, Ferroviário-CE, Flamengo, Fluminense, Fortaleza, Grêmio, Guarani-SP, Internacional, Joinville, Londrina, Náutico, Paysandu, Remo, Santa Cruz, Santos, São José-SP, São Paulo, Vasco e Vitória.

“Tanto no Brasil, quanto na Europa, houve uma profusão de torcidas antifascistas nos últimos anos”, diz Victor de Leonardo Figols, doutorando em História pela Universidade Federal do Paraná. “Essas torcidas mais progressistas e antifascistas são muito importantes no cenário futebolístico atual, pois, ao se posicionarem, passam a disputar espaço nas arquibancadas com os grupos conservadores que destilam preconceitos. Elas começam a marcar território e passam a mensagem que certos comportamentos não serão aceitos ou tolerados no ambiente futebolístico e na sociedade.”

Para Flavio de Campos, professor do curso de pós-graduação em História Sociocultural do Futebol na USP, o envolvimento da política com o futebol de hoje é diferente do percebido no passado, principalmente no ambiente dos torcedores. “Antes, as manifestações políticas sempre partiam de pessoas ou setores específicos de dentro das torcidas. Nunca existiram movimentos que se pautassem pela política como existem atualmente.”

Para os especialistas, a ascensão dessas torcidas acontece como consequência do acirramento das disputas e discussões políticas que tomam conta da rotina do brasileiro – nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, nos almoços de família ou nas manifestações populares. 

A dupla também concorda que é curioso observar que, ao mesmo tempo em que as arquibancadas se tornam ambientes de disputas políticas, os tradicionais espaços de discussão política se parecem com disputas entre torcidas organizadas: há fanatismo desenfreado, cantos de guerra, piadas e xingamentos com o “outro lado”, vestimentas e cores oficiais.

“É significativo que a luta política no Brasil se assemelhe com uma disputa de torcidas. Veja a divisão de espaço entre apoiadores de diferentes lados em momentos como o depoimento do Lula em Curitiba, antes só vista entre torcidas organizadas em dias de clássico. Existe uma mimetização dos comportamentos, vestimentas, gestualidades e palavras de ordem das arquibancadas para as ruas”, afirma o professor da USP.

Mas, se já é difícil definir o que é fascismo, como especificar o que é uma torcida antifa? Para tentar entender os diferentes anseios desses grupos, falamos com representantes de diferentes regiões: da Palmeiras Antifascista, da Ultras Resistência Coral, do Ferroviário, e do Grêmio Antifascista. Abaixo, os resumos das conversas.

Palmeiras Antifascista

‘Estamos na arquibancada para mostrar que futebol não é espaço para ódio e segregação’.

A Palmeiras Antifascista surgiu em 2014 a partir da união de dois torcedores. Eles criaram uma página no Facebook com a ideia de debater a intolerância na arquibancada. “Quando vimos que a parada tinha uma consistência, fizemos um chamado para novos moderadores e administradores, estabelecendo uma espécie de ‘cota’, tentando equilibrar ao máximo o número de mulheres e homens na página”, explica A. T.

O coletivo – que atualmente reúne mais de 15 mil pessoas na sua página e conta com atuação frequente, tanto virtual quanto presencial nos jogos do clube – tem membros que também fazem parte de torcidas organizadas, mas A. T. aponta que essas não vêm cumprindo o papel de representar os torcedores em termos políticos.

“Reconhecemos os méritos das organizadas. Mas acreditamos que as brigas entre torcidas não levam a absolutamente nada e que o futebol seria muito mais forte se essas se unissem e fizessem frente aos verdadeiros inimigos: Federações, Confederação, Polícia Militar, Ministério Público etc. De certa forma, as torcidas antifascistas estão preenchendo uma lacuna deixada por elas, que acabaram estigmatizadas pelo sensacionalismo da mídia.”

Para o torcedor, o grande objetivo do movimento é mostrar que o futebol não é um espaço independente da sociedade, em que se pode promover o ódio e a segregação. “O futebol, não só por estar inserido na sociedade brasileira, mas também por carregar um lastro específico de intolerância e conservadorismo, é terreno fértil para a propagação do ódio. Estamos na arquibancada pra mostrar que não é assim.”

Segundo A. T., torcedores e jornalistas que pregam que esporte e política não devem se misturar negam o caráter cultural do esporte e a sua história na luta da classe trabalhadora. “Palmeiras e Corinthians realizaram, em meados dos anos 1940, um amistoso para arrecadar fundos para o Partido Comunista Brasileiro. 

Nenhuma das agremiações tinha qualquer vínculo com o comunismo, mas o fizeram pelo bem da democracia. Como reagiriam os torcedores de hoje se algo parecido fosse consumado? Será que esses que pregam o ambiente ‘apolítico’ têm a noção de que um dia seu clube se posicionou politicamente?”

Ultras Resistência Coral

‘Ficamos felizes em ver torcidas de outros clubes se mobilizando nesse sentido’.

Em 31 de julho de 2005 surgia a primeira “torcida politizada” do Brasil. E não pense que foram torcedores de um clube do autointitulado G12 que fundaram esse movimento. A Ultras Resistência Coral nasceu no Ceará, reunindo torcedores do Ferroviário, terceiro maior campeão do estado, com nove títulos cearenses.

“Tudo começou a partir da idealização de dois torcedores do clube, um anarquista e o outro comunista, que já militavam por essas causas. Vendo a forma como as torcidas tradicionais se comportavam no estádio, pregando ódio aos adversários, com manifestações preconceituosas, eles se reuniram para criar um movimento diferente, com outros moldes, que não enxergasse as outras torcidas como inimigas e que não tivesse cantos machistas, racistas e homofóbicos”, explica Leonardo Carneiro, representante do coletivo.

Segundo Carneiro, torcidas europeias foram a inspiração para a criação do movimento. Entre elas estão a Brigate Autonome Livornesi, do Livorno (Itália); a Bukaneros, do Rayo Vallecano (Espanha); além dos torcedores do St. Pauli (Alemanha).

Assim como estas, a torcida luta por um esporte inclusivo e livre de preconceitos. “Defendemos um futebol que comporte as torcidas organizadas nos estádios, que seja popular e de fácil acesso ao público – tanto em termos financeiros, quanto em respeito à cultura do povo. Dentro dos estádios, acreditamos que se deve torcer livremente, mas sem ferir a liberdade e o direito do outro, por isso, lutamos contra o racismo, o machismo e a homofobia.”

Indicada como referência por praticamente todos os outros movimentos politizados do futebol brasileiro, a Ultras Resistência Coral aponta que o crescimento desse debate é essencial. “Nós ficamos felizes em ver torcidas de outros clubes se mobilizando nesse sentido. Perceber que existem esforços em combater essa lógica do sistema atual levanta nossas esperanças. Ainda é pouco e está aquém do que deveria ser, até em comparação com o cenário europeu, mas esses primeiros passos são essenciais.”

Para Carneiro, a política perpassa todas as esferas da sociedade, inclusive o esporte e o lazer, e por isso a politização do futebol é importante. “O que acontece na política interfere, por exemplo, no preço dos ingressos, na maneira em que se dão os acessos aos estádios, nas permissões e proibições de maneiras de torcer e na própria lógica da elitização do futebol.”

Gremio Antifascista
‘O antifascismo é um dispositivo problematizador das práticas de poder’

Em 28 de agosto de 2014, em jogo pela Copa do Brasil contra o Santos, torcedores gremistas proferiram uma série de insultos racistas ao goleiro adversário Aranha. Assim como o jogador nessa partida, torcedores do rival Internacional são, tradicionalmente, chamados de ‘macacos’ por parte da torcida gremista. Justamente para questionar isso, nasceu a Grêmio Antifascista.

“Muito embora ainda haja grande resistência de parte da torcida com esse tipo de pauta – e toda sorte de malabarismos intelectuais para defender o indefensável que é chamar outra pessoa de ‘macaco’ e assegurar que não haja nenhuma conotação racista nisto –, o debate é urgente e necessário.

Por isso, acreditamos que é extremamente importante o fortalecimento de movimentos que problematizem e proponham outros modos de se relacionar em um estádio de futebol, afinal, não deixamos nossos cérebros e valores na catraca quando entramos para assistir um jogo”, explica R. J., representante do movimento.

Desde então a torcida cresceu nas redes sociais e também passou a ocupar os estádios, por meio da Tribuna 77, torcida que leva para o campo pautas éticas, sociais e políticas, negando-se a cantar músicas racistas e homofóbicas. “Um dos nossos grandes esforços é fazer (o torcedor) perceber que muitas vezes aderimos sem pensar a uma série de valores e discursos que já nos inserem em determinada posição discursiva e de poder.”

Segundo R. J., para a torcida, o antifascismo é um dispositivo problematizador das práticas de poder. “Isso significa que nossa preocupação é com aquilo que compreendemos como fascismo em todos os âmbitos: negação da diferença, supressão do outro, afirmação de uma verdade única, imposição de determinados modos de existir e se relacionar em detrimento de outros.

Compreendemos então nossa luta contra o fascismo em suas mais variadas formas, desde a repressão policial que o estado opera, as subjugações e extermínio que o capitalismo coloca em marcha, o machismo, LGBTfobia, racismo e toda sorte de negação, diminuição e extermínio da diferença e do outro.”

Fonte: https://pcb.org.br/portal2/14668#more-14668

(Com odiario.info)

Há um centro político, ou a chamada “terceira via”, em Cuba?

                                                                                 Ismael Francisco/ Cubadebate
                 
Centenas de milhares de cubanos ratificaram seu apoio à Revolução no desfile de 1º de Maio em Havana


O Diário Liberdade publica a seguir dois artigos que aparaceram recentemente no portal Cubadebate, na qual os autores discutem a existência e a política contrarrevolucionária dos pequenos grupos que clamam pela “terceira via” em Cuba, uma forma sutil de restaurar o capitalismo na ilha, e que desde antes da Revolução de 1959 tem sido apoiado pelos EUA e a CIA.

A terceira via ou o centrismo político em Cuba

Já há algum tempo vem sendo discutida, essencialmente nos meios digitais, a ideia de um “centrismo político” na Cuba de hoje, como parte de uma estratégia dos EUA para subverter o modelo socialista cubano, diante dos rotundos fracassos e do desprestígio da chamada “contrarrevolução cubana”.

Um dos telegramas revelados pela Wikileaks em 2010 mostrou como Jonathan Farrar, então chefe da Seção de Interesses de Washington em Havana, informou ao Departamento de Estado em 15 de abril de 2009 como essa “oposição” realmente estava desconectada da realidade cubana, não tinha nenhum poder de influência nos jovens e estava mais preocupada com o dinheiro do que em levar suas plataformas a setores mais amplos da sociedade.

O centrismo político em sua origem é um conceito de raiz geométrica: o ponto equidistante de todos os extremos. Supostamente seria uma posição política que se colocaria entre a esquerda e a direita, entre o socialismo e o capitalismo, uma terceira via que faz “conciliar as melhores ideias” dos extremos que lhe dão vida e onde se postula a moderação frente a qualquer tipo de radicalismo.

Lenin classificou essa postura de “utopismo traiçoeiro fruto do reformismo burguês”. E certamente as denominadas terceiras vias, ou centrismos, nunca foram uma opção revolucionária, mas estratégias para instaurar, salvar, recompor, modernizar ou restaurar o capitalismo.

Quando se pondera a moderação frente ao radicalismo revolucionário cubano – que significa ir à raiz do problema e não tem nada a ver com o extremismo, que é outra coisa – me é inevitável não encontrar determinadas analogias entre esse centrismo que hoje tenta-se articular em Cuba, com o autonomismo do século XIX.

O autonomismo como corrente política surge desde a primeira metade do século XIX, mas se forma como partido político a partir de 1878, como um dos frutos que a revolução de 1868 produziu. Foi uma corrente contemporânea do independentismo, do integrismo e do anexionismo. Era a corrente por excelência da moderação, da evolução, inimiga dos radicais independentistas cubanos. 

Assumiam uma posição também “equidistante” entre o integrismo – a defesa do status quo – e a independência, mas em momentos de definição cerravam fileiras junto ao integrismo para frear e atacar a revolução, a qual consideravam o pior dos males.

Algumas figuras célebres do autonomismo terminaram compartilhando as ideias anexionistas ao se produzir a intervenção-ocupação estadunidense em Cuba. Seus principais líderes brilharam por seus dotes intelectuais, eram grandes oradores mas com um pensamento de elite, essencialmente burguês, daí que jamais puderam influenciar as massas cubanas. 

O que menos necessitava o povo cubano naquele momento eram ideias de laboratório, daí que quando se produziu a nova arrancada independentista de 1895 o partido autonomista ficou totalmente deslocado entre a nova realidade nacional.

O autonomismo defendeu um nacionalismo moderado e exludente das grandes maiorias, cujas aspirações fundamentais não estavam em romper o vínculo com a “mãe pátria espanhola”, mas em modernizar sua dominação na Ilha, não no balde da vanguarda patriótica cubana, encabeçada por José Martí, que tanto combateu suas ideias.

Em 31 de janeiro de 1893, em um de seus extraordinários discursos, Martí expressou: “(...) dava-se o caso singular dos que proclamavam o dogma político da evolução eram meros retrógrados, que mantinham para um povo formado na revolução as soluções imaginadas antes dela (...)”.

No entanto, a ideia de apoiar em Cuba uma terceira força – moderada, de centro ou terceira via – adquiriu maior força na política externa dos EUA no final dos anos 50, com o objetivo de evitar que o Movimento 26 de Julho chegasse ao poder, algo que se converteu em uma obsessão para a Administração Eisenhower nos últimos meses de 1958. 

Essa tendência deveria estar em uma posição equidistante entre Batista e Fidel Castro e seu desenvolvimento foi estimulado tanto no plano militar como no político. A estação local da CIA em Havana foi a primeira em modelar essa ideia e logo seria sua principal executora.

Isso é confirmado pelo oficial David Atlee Philips em seu livro autobiográfico The Night Watch, quando aponta que James Noel – na época chefe da estação local da CIA em Havana – lhe havia informado em uma de suas pouco frequentes reuniões, sobre sua recomendação ao governo dos EUA de patrocinar discretamente a ação de uma terceira força política em Cuba, “um grupo entre Castro à esquerda e Batista à direita”.

Em fevereiro de 1958 havia se incorporado à II Frente Nacional de Escambray dirigida por Eloy Gutiérrez Menoyo o agente dos serviços secretos estadunidenses William Morgan, que tinha a missão de se converter no segundo chefe daquela guerrilha, algo que conseguiu em pouco tempo assim como seu grau de Comandante. Morgan não seria o único agente infiltrado pelos EUA naquela época com a intenção de estimular uma terceira força guerrilheira que pudesse enfrentar e se impor em determinado momento às forças da Serra Maestra lideradas por Fidel Castro.

Os EUA também se envolveram em outros complôs onde se moldaram diversos nomes de figuras que poderiam integrar uma opção política que arrebatasse das mãos de Fidel Castro o triunfo da Revolução, entre elas: o coronel Ramón Barquín; Justo Carrillo, chefe da Agrupação Montecristi; e Manuel Antonio, Tony, de Varona. Ainda em 23 de dezembro de 1958, em uma reunião do Conselho de Segurança Nacional, Eisenhower expressava sua esperança no crescimento, fortalecimento e influência de uma “terceira força”.

A criação de uma “terceira força” não era promovida somente pelos EUA mas também por alguns políticos que a propunham internamente. “A terceira força – aponta Jorge Ibarra Guitart – foi um movimento de instituições cívicas privadas que representando o sentimento de setores importantes da burguesia e da pequena burguesia promoveu gestões de paz e conciliação com o regime.

O impulsionador, sob cordas, de todas as gestões foi José Miró Cardona, que desde a Sociedade de Amigos da República já havia planejado a tática de mobilizar as instituições burguesas para forçar o regime a chegar a um acordo. Esse era o momento de por em prática tal tática, pois havia circunstâncias que a favoreciam: a burguesia, ao notar que a cada dia mais organizações revolucionárias ganhavam terreno, estava alarmada pelo perigo que representava para seus interesses políticos e econômicos o desenvolvimento de uma guerra civil com uma participação popular ativa.”

Ao se tornar impossível para os EUA conseguir evitar o triunfo da Revolução Cubana e a chegada ao poder das forças do 26 de Julho, nos primeiros meses de 1959 o objetivo fundamental de Washington consistiu em respaldar e ajudar as figuras que dentro do governo revolucionário se consideravam “moderadas”, de centro, frente aos que qualificavam de “extremistas” para, através do predomínio daquela linha, evitar que a Revolução aprofundasse seu alcance social.

Quando Fernando Martínez Heredia aponta que em Cuba existe hoje um nacionalismo de direita com pretensões de centro que tem “uma acumulação cultural a qual se referir”, está fazendo menção à longa história desse nacionalismo que tem no plano das atitudes políticas antecedentes no autonomismo; que durante os anos da República Neocolonial Burguesa adimitiu e defendeu a dominação e que em muitas ocasiões foi utilizado pelo próprio governo dos EUA, com o propósito de frear, evitar ou alcançar situações pós-revolucionárias que mantiveram a salvo as estruturas de dominação capitalista em Cuba, sob melhores consensos.

Hoje vemos como esse nacionalismo de direita que é estimulado por nossos adversários, sob a camuflagem do centrismo, não tem outro objetivo senão a tentativa desesperada de restaurar o capitalismo em Cuba. Uma vez mais, será um ensaio frustrado, pois o principal obstáculo que essa corrente sempre enfrentou é que suas ideias jamais conseguiram alcançar o povo. Esse povo que em sua maioria tem abraçado ao longo da história a tradição independentista, patriótica, nacional-revolucionária e anti-imperialista; jamais a do autonomismo, o anexionismo ou o nacionalismo de direita.

Elier Ramírez Cañedo, Cubadebate, 30 de maio de 2017. http://www.cubadebate.cu/opinion/2017/05/30/la-tercera-via-o-centrismo-politico-en-cuba/#.WTa-s2grLIU



Centrismo político: Cuba não mordeu a isca

Em 30 de maio foi publicado um artigo do pesquisador e historiador cubano Elier Ramírez, sobre a chamada terceira via em Cuba. O prefessor se baseia em elementos históricos e teóricos das diferentes forças políticas que ao longo do processo histórico cubano lutaram pela solução do problema nacional.

Concordo na maioria dos julgamentos emitidos por Ramírez. Mas não devemos ter medo do debate. Também não podemos nem devemos temer a chamada “oposição cubana”, que não existe e a embaixada estadunidense em Havana sabe disso, assim como as demais embaixadas ocidentais que promovem de forma sutil o aparecimento no cenário político cubano de uma terceira força.

Não existe terceira força política e ideológica em Cuba: ou se está com o processo de atualização do modelo cubano ou não se está. Digo isso porque o fundamental nessa conjuntura atual é apoiar totalmente o processo de acomodamento de nosso modelo, que, diga-se de passagem, é um modelo híbrido. 

Híbrido no sentido de que existem diferentes formas de propriedade, inclusive a privada, ainda que tratemos de diminuir e opacar seu impacto, mas com isso não ganhamos a batalha. Híbrido porque ideologicamente temos um marxismo aberto, são, pouco dogmático ou menos dogmático do que nos anos 80. Híbrido porque são mescladas as formas de pensar e debater.

No fundo, não há posições centristas na política cubana. Ainda que as pessoas se chamem assim, no final respondem ou não a uma das duas grandes deciões e posições da atualidade: defender ou não a continuidade da Revolução.

A Terceira Via, desde a perspectiva da doutrina, teve mais representantes na Europa do que nos Estados Unidos. Por exemplo, quando a União Europeia mantinha sua postura hostil contra Cuba durante muitos anos – postura que começou a se corrigir há três anos – exigia à ilha implementar a chamada terceira via ou via de Anthony Blair. Dizia-se que os cubanos deveriam se abrir ao pluripartidarismo e à economia social de mercado através de diferentes planos de desmontes do socialismo.

Mas Cuba não mordeu a isca. Na política, você simplesmente está de um lado ou está do outro. Nos pontos mais nevrálgicos do socialismo cubano, ou estás com a atualização do processo que é o que mais nos interessa à grande maioria ou estás com os grupelhos que defendem a via capitalista ao estilo ocidental.

Creio que aí está a questão. Não tenhamos medo do debate político. Há coisas que não se podem evitar. Uma revolução sempre terá sua contrarrevolução, desde a francesa até a bolivariana. E no meio ficam os indecisos, os morosos e os supostos apolíticos, mas esses, de acordo com as necessidades do contexto, sempre giraram em posição adversa ao problema nacional a se resolver.

A atualidade política cubana está matizada porque em 2018 teremos a continuidade do processo de mudança de gerações dentro dos postos mais importantes do governo. A partir daí se abrirá uma etapa que os ideólogos da Terceira Via tentarão aproveitar, tentarão reverter as bases da Revolução. Então para nós não há terceira via, para eles tampouco; a luta ideológica continua.

A futura liderança do país deve sabê-lo, e deve se revolucionar e se reformular em novos cenários. Essa seguirá sendo a batalha principal na consolidação da independência cubana: manter a opção socialista saudável, aberta, sustentável, não só no discurso mas na prática.

Paul Sarmiento Blanco, Cubadebate, 5 de junho de 2017. http://www.cubadebate.cu/especiales/2017/06/05/centrismo-politico-cuba-no-ha-mordido-el-anzuelo/#.WTa-bGgrLIU

(Com Cubadebate/Diário Liberdade)

30 de junho é a data da próxima greve geral


                                                                       

O Fórum Nacional das Centrais Sindicais, reunido na manhã desta​ segunda, 05/06, na cidade de São Paulo, discutiu os desdobramentos do OCUPA BRASÍLIA (24 de Maio) e deu continuidade ao debate sobre a data da próxima greve geral.

Na última reunião, ficara apontada que a mesma deveria ocorrer na última semana de junho. 

Hoje, as Centrais definiram o calendário unitário das lutas contra o governo Temer e suas reformas: as categorias devem discutir em suas assembleias e aprovar a adesão à segunda Greve Geral do ano, que será realizada no dia 30 de junho. 

Além disso, foi marcado para 20/6 um dia nacional de mobilização contra as reformas de Temer e preparação da Greve Geral.

Leia  a nota oficial do Fórum:

"Unidade e luta em defesa dos direitos

As centrais sindicais, (CUT, UGT, Força Sindical, CTB, Nova Central, CGTB, CSP-Conlutas, Intersindical, CSB e A Pública- Central do Servidor), convocam todas as suas bases para o calendário de luta e indicam uma nova GREVE GERAL dia 30 de junho.

As centrais sindicais irão colocar força total na mobilização da greve em defesa dos direitos sociais e trabalhistas, contra as reformas trabalhista e previdenciária, contra a terceirização indiscriminada e pelo #ForaTemer.

Dentro do calendário de luta, as centrais também convocam para o dia 20 de junho – O Esquenta Greve Geral, um dia de mobilização nacional pela convocação da greve geral.

Ficou definido também a produção de jornal unificado para a ampla mobilização da sociedade. E ficou agendada nova reunião para organização da greve geral para o dia 07 de junho de 2017, às 10h na sede do DIEESE."

Agenda

– 06 a 23 de junho: Convocação de plenárias, assembleias e reuniões, em todo o Brasil, para a construção da GREVE GERAL.

– Dia 20 de junho: Esquenta greve geral com atos e panfletagens das centrais sindicais;

– 30 de junho: GREVE GERAL.

CGTB – Central Geral dos Trabalhadores do Brasil
CSB – Central dos Sindicatos Brasileiros
CSP Conlutas – Central Sindical e Popular
CTB – Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil
CUT – Central Única dos Trabalhares
Força Sindical
Intersindical – Central da Classe Trabalhadora
NCST – Nova Central Sindical de Trabalhadores
Pública – Central do Servidor
UGT – União Geral dos Trabalhadores

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Na UFMG, evento celebra os 40 anos do 3º Encontro Nacional dos Estudantes

                                                                                     Acervo Projeto República

 No próximo dia 10 de junho, o Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFMG, em Belo Horizonte, irá celebrar os 40 anos da luta contra a repressão da ditadura ao 3º Encontro Nacional dos Estudantes.

Em junho de 1977, tropas de choque da Polícia Militar atuaram para impedir que os estudantes realizassem o encontro na Universidade Federal de Minas Gerais, cercando o local do evento e prendendo pessoas que pretendiam participar do ENE. Cerca de 400 estudantes foram detidos pela repressão da ditadura.

40 ANOS DO 3ºENE

No dia 03 de junho de 1977, centenas de estudantes de todo o Brasil tentaram realizar um encontro em Belo Horizonte, para convocar o congresso nacional de reconstrução da UNE, que havia sido extinta pela ditadura. 

Desde a noite anterior ao dia do encontro, um grupo de estudantes se dirigiu ao DA Medicina da UFMG, para uma vigília, com a intenção de assegurar fisicamente o local, contra a repressão. Não adiantou. 

Ainda na madrugada do dia 03, a repressão começou a interceptar veículos e ônibus, que se dirigiam para Belo Horizonte, quando dezenas pessoas que iriam participar do encontro foram presas. Antes de começar o dia, tropas de choque da PM mineira cercaram o local do evento.

Enquanto isso policiais civis e militares moviam uma verdadeira caçada aos dirigentes das entidades estudantis ou a qualquer pessoa que ousava protestar contra a violência da repressão. Mais de mil pessoas foram presas naquele dia. 

O encontro não aconteceu, mas despertados pela extrema violência contra seus filhos, netos, irmãos e outros parentes, a classe média mineira rompeu a sua letargia e saiu às ruas para defender seus familiares e para protestar, pela primeira vez, contra a ditadura. Esse foi um dos episódios que acordaram o país e fizeram mover a roda dos históricos acontecimentos que levaram à queda da Ditadura.

No dia 10 de junho, os participantes e estudantes de hoje celebram aquele dia de lutas, quando uma aparente derrota abriu caminho para grandes vitórias.

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Celebração dos 40 anos do 3º Encontro Nacional de Estudantes – 10 de junho, a partir de 18 horas, no Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFMG (Av. Professor Alfredo Balena, 190 - Belo Horizonte – MG).

Outono de 1977. Belo Horizonte. Minas Gerais. Ação violenta e coordenada das forças de repressão da ditadura coíbe a realização do 3º Encontro Nacional de Estudantes, cujo objetivo era pavimentar o caminho de reconstrução da proscrita União Nacional dos Estudantes, a UNE.

Sediado no Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFMG, o evento reuniu cerca de 400 universitários de todo o país. Na tarde e na noite de 3 de junho, barreiras policiais montadas nos acessos à capital paravam ônibus vindos de outras cidades e estados, identificavam e detinham passageiros suspeitos de integrar o movimento estudantil.

Nas ruas, um aparato gigantesco em uniformes de campanha distribuía pancada, atirava bombas e atiçava cães contra a população, revelando o pavor que um encontro juvenil era capaz de provocar no governo dos generais.

Um compacto cordão militar fechou o cerco à Faculdade, na Avenida Alfredo Balena, desde as primeiras horas da manhã do dia 4. Ninguém entrava e dali ninguém sairia livre. O impasse se arrastou por horas. À exigência de que os estudantes se entregassem, mãos na cabeça, a turma fincou pé. No meio da tarde, o comando rasga o preceito da autonomia universitária e a tropa invade o Campus da Saúde.  

No largo que fronteia o D.A., vizinho de jatobás, ipês, araucárias, fícus e paus-rei da extensa área que já pertenceu, no século passado, ao Parque Municipal, um líder estudantil recomendou: “Se eles começarem a bater, cantem.”

Abraçados, em pequenos grupos e espremidos no meio de um corredor fardado, os estudantes deixam o D.A. e são conduzidos, em coletivos urbanos, ao Parque de Exposições da Gameleira, triados, interrogados, mais de meia centena enquadrada na Lei de Segurança Nacional. Do lado de fora, muitos familiares, militantes e populares montavam vigília pela segurança dos presos, enfim libertados quando emergia a manhã.

Hábeis estrategistas já viram vitórias nas derrotas. Essa foi uma delas. Quatrocentos estudantes encarcerados nos currais da Gameleira, um encontro frustrado, uma cidade sitiada. No entanto, nascia ali, com certidão pública, a lenta, gradual e segura agonia da ditadura, amplificada nos anos seguintes pela adesão crescente do povo brasileiro à luta pela liberdade.

40 anos depois, os protagonistas desse episódio memorável voltam ao palco dos acontecimentos para celebrar os princípios que deram vida ao 3º ENE e que ainda hoje animam a construção de um mundo que seja justo e libertário.


Por que Cuba é um país envelhecido?

                                                              

Yenia Silva Correa

Para 2019, a Ilha terá os primeiros idosos nascidos com a Revolução. Em 2050, o país estará entre os mais envelhecidos do mundo

A Política Econômica e Social do Partido e a Revolução analisa com especial interesse o tema do envelhecimento da população, como demonstra a 144a Diretriz: Oferecer particular atenção ao estudo e implementação de estratégias em todos os setores da sociedade, para enfrentar os elevados níveis de envelhecimento da população.

Contudo, o incremento sustentado a porcentagem de idosos no total da população se relaciona com a sustentabilidade econômica, social, demográfica e ambiental do país e como processo tem que ser visto como uma estratégia de população e desenvolvimento.

Para o diretor do Centro de Estudos de População e Desenvolvimento do Gabinete Nacional de Estatísticas e Informação, doutor Juan Carlos Alfonso Fraga, a resposta à pergunta que dá título a este trabalho é bastante clara:

«Nós somos um país envelhecido, porque temos um desenvolvimento humano alto, não por renda, nem por Produto Interno Bruto per capita, mas por resultados em educação e saúde».

«Vivemos mais porque temos mais saúde, mais educação; temos mais previdência social e mais segurança cidadã. Tudo isso tem que ser visto em um contexto. Cuba é um país de muito baixa mortalidade, de uma elevada esperança de vida ao nascer. Como vivemos mais morremos menos».

«Eu sempre disse que o envelhecimento é o triunfo da vida sobre a morte. Não tem que se assustar nem vê-lo de forma negativa, porque em nosso caso é resultado do processo de desenvolvimento social atingido com a Revolução. Disso não há dúvidas».

ALGUNS NÚMEROS QUE ILUSTRAM

As estatísticas dos últimos decênios confirmam que, desde 1978, Cuba não tem uma substituição de gerações, mas os dados também revelam outros fenômenos que em termos de população enfrenta o país e que não se apresentam da mesma maneira em todos os territórios.

A província com maior grau de enve-lhecimento é Villa Clara, no centro da Ilha. Segue-lhe Havana — a capital tem uma peculiaridade: o município Plaza

de la Revolución é o mais envelheci-

do do país com 27% de idosos — e depois Sancti Spíritus, também na região central.

No extremo oposto se coloca o oriente do país, onde o número de pessoas com mais de 60 anos é menor. Neste contexto sobressai Yateras (província Guantánamo), que é o município menos envelhecido com apenas 10% de idosos.

Outro fenômeno interessante é que a maioria dos idosos é feminina e a maior parte dos que ultrapassam a sexta década de vida são urbanos, situação da qual se deriva um processo igualmente interessante: nas zonas rurais se está mantendo uma população masculina, enve-lhecida e sozinha.

Também os números registram que nos últimos anos há um aumento da imigração permanente entre os que se incluem pessoas de mais idade.

O FUTURO JÁ ESTÁ AQUI

Em 1966, nasceram 266 mil crianças em Cuba. Então havia um milhão menos de mulheres em idade reprodutiva que atualmente. Em 2016, os nascidos foram 117 mil.

«No ano passado crescemos em 220 habitantes. É um crescimento nulo», refere o doutor Alfonso Fraga.

A singularidade do envelhecimento populacional em Cuba está na rapidez com que se deu. Na Europa o processo levou 200 anos e foi propiciado pela revolução industrial, o desenvolvimento do colonialismo e do capitalismo; na Ilha Maior das Antilhas se ha registrou em apenas decênios e em situações econômicas desfavoráveis.

No fim da primeira metade do presente século as projeções são: para 2020, calcula-se que haverá 21,5% de idosos, em 2030 vamos ter ao redor de 3%, finalmente em 2050 o prognóstico é que haja 36,2% de pessoas com 60 anos e mais e estaremos entre os países mais envelhecidos.

«Em 2019, completarão 60 anos os primeiros idosos da Revolução, os que nasceram em 1959. São idosos diferentes, mais educados, reclamam mais, participam mais e os necessitamos cada dia mais», assinala o diretor do Centro de Estudos de População e Desenvolvimento do Gabinete Nacional de Estatísticas e Informação.

NA FAMÍLIA ESTÁ O SUSTENTO

Em Cuba, tem uma comissão governamental que atende a dinâmica demográfica para dar resposta à 144a Diretriz da Política Econômica e Social do Partido. Além disso, existe a decisão do Estado de atender as necessidades do idoso.

Em um contexto sociodemográfico em que a família tende a ser cada dia menor, é precisamente este núcleo humano o sustento principal do processo de enve-lhecimento e é a sociedade em seu conjunto a que deve criar fórmulas para garantir o cuidado dos idosos, tanto em formas estatais quanto não estatais. Para consegui-lo o Estado destina recursos financeiros e humanos às casas e clubes de avôs, às cátedras do idoso e às iniciativas que propiciem a participação dos idosos na sociedade.

Sobre estes espaços de troca para a terceira idade opina o doutor Alfonso Fraga: «Esta é a grande vantagem das casas do avô e das cátedras do idoso: é fazer com que participem, mobilizar nossos avôs na sociedade. Quanto conhecimento e experiência! Com isso podemos sentir segurança, mas tem que desenvolvê-los e cuidá-los».

(Com o Granma/Diário Liberdade)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Pelo menos dez camponeses sem terra são assassinados em massacre no Pará

                                                                                 CPT (via: Outras Palavras

Maura Silva

Dez posseiros - uma mulher e nove homens - foram assassinados na manhã de quarta-feira (24), no acampamento Nova Vida, localizado na Fazenda Santa Lúcia, no município de Pau d’Arco, no Pará.  

A chacina começou a ganhar repercussão com a divulgação de imagens dos corpos das vítimas que, segundo veículos de comunicação local, foram levados por policiais para o necrotério do Hospital Municipal de Redenção e depois transferidos para o Instituto Médico Legal (IML) de Marabá e de Paraupebas.

De acordo com informações da Comissão Pastoral da Terra (CPT), os trabalhadores, que não tiveram suas identidades reveladas, foram mortos durante o cumprimento de uma ação de reintegração de posse expedida pelo juiz da Vara Agrária de Redenção, Erichson Alves que, contrariando a Cartilha da Ouvidoria Agrária Nacional, determinou que a ação fosse cumprida por policiais militares e civis. Em situações como essas as diretrizes do Tribunal de Justiça determinam que a ação seja realizada pelo Batalhão da Polícia Militar especializado em resolução de conflitos. 

Em nota enviada à imprensa , a coordenadora da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Estado do Pará (Fetraf), Viviane Pereira, disse que o número de mortos em Pau D'Arco pode aumentar, pois não há precisão sobre a quantidade de feridos e o estado de saúde dos envolvidos. Ainda segundo o texto, a chacina na Fazenda Santa Lúcia só perde em número de vítimas para o Massacre de Eldorado de Carajás, que deixou 21 Sem Terra mortos em abril de 1996. 

Também em nota, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), do Ministério Público Federal, informou que, está em contato com procuradores e promotores locais para auxiliar nas investigações. Articulações entre a Procuradoria Geral de Justiça, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados do Pará também estão em andamento). 

Histórico    

De acordo com a CPT, no segundo semestre do ano passado, durante uma reunião da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, realizada na sede do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Marabá, o coordenador do acampamento, Ronaldo da Silva Santos, informou que as 150 famílias acampadas no local desde maio de 2015, desejavam que o imóvel fosse destinado para fins de Reforma Agrária.

Diante da solicitação, o então Superintendente Regional do órgão em Marabá, Claudeck Alves Ferreira, assumiu compromisso de reunir-se com o proprietário da fazenda e negociar sua desapropriação. Na época, participaram da reunião o então Ouvidor Agrário Nacional e Presidente da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, desembargador Gercino José da Silva Filho; Aílson Silveira Machado, representante da Secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania; representantes regionais do Incra; representante da Polícia Militar de Marabá; e coordenadores da (Fetraf - PA).

Escalada de violência e conivência do Estado 

Para Ayala Ferreira, da Direção Nacional do MST, que acompanha os casos de violência no Pará, o governo do estado está novamente usando o discurso que criminaliza a luta por terra na região. 

“Em 1996, quando aconteceu o massacre de Eldorado dos Carajás, a polícia falou em confronto. Esse, aliás, é o discurso utilizado em todos os massacres, seja no campo ou na cidade. O que vale ressaltar aqui é que foi um ‘confronto’ em que só morreram acampados. Nenhum policial envolvido na ação foi identificado até o momento. A própria PM desarmou o cenário do conflito ao retirar os corpos e carregá-los amontoados em uma caminhonete até Redenção”, concluiu. 

Os massacres ocasionados por disputa de terra em todo o Brasil têm ficado cada vez mais intensos. De acordo com a CPT, em 2016 foram registrados 61 assassinatos em conflitos, o maior número desde o início do monitoramento da entidade, em 2003. Em 2017, o total de mortes chegou a 26, sem contar os casos do dia 24.

Em abril deste ano, nove trabalhadores rurais foram brutalmente assassinados por um grupo de homens encapuzados em uma chacina em Colniza, no Mato Grosso. Até o momento ninguém foi preso. 

Atos e ações estão sendo construídos em todo o estado para debater e enfrentar a onda de violência no estado paraense.

Com a medida tomada pelo governo Temer de extinguir a Ouvidoria Agrária Nacional, entidade que era responsável por prevenir e mediar os conflitos agrários, a situação tende a se agravar cada vez mais, uma vez que o papel de mediação fica a cargo do estado, que já provou ser incapaz de garantir a segurança dos trabalhadores no campo. 

(Com o MST)